Conto em Gotas

                                       
                                Morte, Sangue e Solidão     
                                        - Uma História de Vampiro -


               Meu nome é Anne, nasci no interior da França em meados do séc.XV. Sou órfã. Meus pais morreram quando eu era ainda um bebê. Fui criada por meu tio Filipe. Ele nunca deixou que eu me sentisse só. Cercou-me de carinhos e cuidados. Previa meus desejos e não poupava esforços para me agradar. Deu-me uma educação esmerada. Eu tive uma infância muito feliz.
Apesar de ser muito jovem, meu tio renunciou a própria vida para me criar. Nunca se casou. Nunca se interessou por ninguém. E pretendentes não faltaram. Embora tivesse sempre um sorriso nos lábios, eu o achava extremamente triste e doente. Passava grande parte do dia trancado em seus aposentos. Raramente saía de casa. Porém, jamais deixou de abrir os salões para comemorar meus aniversários. Quando eu era criança, convidava as famílias mais importantes da região, para um dia de jogos e brincadeiras, porque achava importante que eu tivesse outras crianças para brincar.
Quando cresci, vieram as festas, os bailes. Eram grandiosos. A orquestra, as damas rodopiando com seus pares, colorindo o salão com seus vestidos brocados. Os criados, indo e vindo, trazendo vinho e assados. O barulho frenético das carruagens chegando. Os cavalheiros de casacas bordadas e sapatos brilhantes. Gostava de ouvir o som dos cascos dos cavalos batendo contra as pedras do pátio.
Meu tio esperava que eu encontrasse meu príncipe encantado nessas ocasiões. E sempre ia à Paris cuidar de sua saúde antes de meus aniversários. Eu nunca o acompanhava nessas viagens. Ele dizia que estaria mais segura aqui, em nossa vila. Mas o que realmente importava para mim era vê-lo voltar, meses depois, mais saudável, mais corado e bem disposto. Assim, nunca perdeu nenhum de meus aniversários e passava a noite inteira recebendo a nobreza, os ricos burgueses e donos de terras, e recusando pedidos de casamentos. Esse ano, em que eu completava dezoito primaveras, seria diferente. Eu havia conhecido alguém. Um conde que voltava para as terras da família depois de longos anos na corte. Estava totalmente encantada por ele. E Denis Chambord, o Conde Duffroit, também demonstrava seu amor enchendo-me de pequenos mimos em forma de jóias, prometendo-me pedir a meu tio minha mão em casamento. E a noite do meu baile parecia ser a data ideal para firmarmos esse compromisso.
Estava no meu quarto, olhando-me no espelho enquanto Amelie, minha criada, prendia meus cabelos, quando meu tio bateu na porta e entrou.
_Pronta? Deixe-me olhá-la - disse-me me puxando delicadamente pelos braços - Linda! Esse vestido azul lhe deixa especialmente bela. Estás feliz?
_Muito. Creio que serei pedida em casamento esta noite - Eu estava realmente radiante.
_O Conde? - meu tio me deu as costas e ficou em silencio enquanto eu dizia o quanto o Conde era lindo, galante e o quanto eu o amava. Em meio a minha euforia não percebi que ele estava contrariado.
_Ama-o com todas as forças de seu coração? - ele virou e me encarou. Seus olhos pareciam vasculhar minha alma.
_Não crês em mim? - não entendi sua desconfiança, ele jamais duvidava de minha palavra.
_Acho que deverias esperar, certificar-se se é isso mesmo que quer.
_Não vais me dar o seu consentimento?
_Quando tiver certeza de que o amas e será feliz com ele, eu darei - me deu as costas e continuou:
_Vou descer e receber nossos convidados que começam a chegar. Desças em seguida - bateu a porta atrás de si.
Dancei muito aquela noite. Mal tive tempo para conversar com minhas amigas. Elas estavam mais interessadas em admirar meu tio. Não era só eu que tinha crescido e começado a me interessar pelos homens. Todas nós estávamos na difícil fase de encontrar um bom pretendente e, como costume da época, consolidar a fortuna da família.
_Ele é tão belo! - disse uma.
_Parece que os anos não passam para ele. Está cada dia mais viçoso! - outra completou entre risinhos.
Aquele assunto irritava-me profundamente. Meu tio não era para elas. Ele merecia alguém muito especial. Todas elas me pareciam tão fúteis e infantis. Mas não tive tempo de repreendê-las. Logo Denis vinha cobrar minha atenção e me conduzir novamente para o salão de baile.
Comecei então a vigiá-lo de longe. Queria me certificar que elas não ousariam a importuná-lo. Corria os olhos pelo salão e ele estava sozinho, sorvendo lentamente uma taça de vinho. Nossos olhares sempre se cruzavam e aquilo também começou a me incomodar. Minhas amigas tinham razão, ele era jovem e belo. Possuía fartos cabelos castanhos que iam até seus ombros, e que naquela noite estavam impecavelmente penteados e presos na altura da nuca por uma fita de veludo verde, como a sua casaca. A boca bem desenhada de lábios grossos, nariz fino levemente arrebitado. Não era muito alto, mas extremamente elegante. Mas eram seus olhos que me encantaram, possuíam um azul tão profundo e intenso, mas que algumas vezes pareciam de vidro e sem vida. E nessas horas eu sempre me aninhava em seus braços, beijava-lhe a face e eles voltavam a emanar um calor que me aqueceu a vida toda. Então eu deixava o seu colo e saía para brincar ou estudar satisfeita só em saber que ele estava por perto, e sempre estaria.
Tínhamos muitas posses, o que o tornava ainda mais cobiçado. Não me agradava vê-lo ser disputado por motivos tão pouco nobres. Ele era mais que uma bolsa de moedas. Ele era inteligente, culto e espirituoso. De espírito nobre e altivo.
Passei grande parte do baile pensando o quanto minhas amigas eram pretensiosas. Nenhuma delas ou qualquer outra mulher naquele salão, estava à altura dele.
Já estava no quarto preparando-me para dormir, quando meu tio bateu na porta.
_Só um minuto! - de repente senti vergonha. Não queria que ele me visse com roupas de dormir. Afundei-me na cama e puxei as cobertas até o pescoço, antes de dispensar Amelie, que deixou o quarto assim que ele entrou.
_Incomodo? - perguntou logo que se viu sozinho comigo.
_Não, meu tio, nunca me incomoda – sorri um tanto embaraçada com medo que ele percebesse meu desconforto.
Ele se sentou na cama, observou-me por alguns segundos e disse solene:
_Recebi a proposta do Conde - e voltou a me olhar daquele modo incômodo.
_E o que meu tio disse a ele? - evitei encará-lo fingindo arrumar as cobertas embora estivesse ansiosa por sua resposta.
_Que iria primeiro me certificar de sua vontade.
_O senhor já conhece minha vontade! – respondi estranhando a atitude dele. Não pude acreditar que ele recusaria o pedido. Tinha passado os últimos meses aceitando convites para cavalgadas, jogos e ceias na propriedade do Conde Duffroit. E falando sem parar o quanto eu o achava belo e galanteador. E o quanto eu gostaria de ser condessa.
_Sim, eu a conheço, mas tu ainda não! - seu olhar era desconcertante.
_Acreditas que ainda sou uma criança? E que não sei o que quero? – pulei da cama irritada, esquecendo-me das cobertas e de que usava uma fina camisola que há minutos atrás me deixou constrangida.
_Não – ele finalmente sorriu - acho que sou eu que não quero admitir que cresceste. És uma mulher! Desculpe-me querida.
Ele também se levantou da cama, me beijou a testa de modo doce como sempre fora comigo, e completou:
_Falaremos sobre esse assunto em outra oportunidade - colocou a mão no bolso interno da casaca verde com brocados dourados que usava e tirou um lenço de renda que embrulhava algo, colocando entre minhas mãos:
_Seu presente de aniversário!
Quando desembrulhei vi que era o anel mais estranho que já havia pousado meus olhos. Um grande besouro azul, incrustados sobre um grosso aro de ouro. Creio que não consegui esconder meu espanto, e ele logo se apressou em explicar a origem e o significado daquela jóia enquanto a colocava em meu dedo.
_Esse anel é uma raríssima jóia egípcia. Uma espécie de amuleto. O escaravelho que significa sol e a criação, o azul que o cobre, representa o céu à noite e as pedras de rubi, ao lado, o sangue que é a energia e a vida. Repare nas pequenas pedras verdes – ele continuava empolgado com sua explicação – significa a ressurreição, a renovação.
_E o diamante que está entre os rubis? – perguntei querendo parecer interessada. Aquele anel era realmente muito esquisito, mas teria que usá-lo afim de não parecer mal agradecida.
_Representa a alma ou, como alguns dizem, é a própria essência da Deusa Ísis – e segurando minha mão com um pouco mais de força, completou me encarando:
_Ela irá protegê-la contra os seres criados sob sol da noite.
Eu não conhecia nada sobre deuses egípcios ou suas atribuições, e também não tinha compreendido bem o que significava toda aquela história de seres do sol da noite, eu só queria voltar para cama e me conformar em ter que ostentar aquela jóia bizarra. Mas naquele momento parecia a menor de minhas preocupações. Confesso que preferia abrir mão de qualquer presente para que ele parasse de me olhar daquele modo. Era como se desnudasse minha alma.
Fiquei horas rolando na cama tentando conciliar o sono. Suas palavras ferviam em minha mente. O som da orquestra, minhas amigas exaltando sua beleza, as juras de amor que o Conde me havia feito. Tudo agora parecia tão irreal.
Olhei mais uma vez para aquele besouro, ou escaravelho, como ele insistia em corrigir-me, e pulei da cama. Vesti meu manto e sai em direção ao quarto de meu tio no fim do corredor. Bati, chamei e ele não respondeu. Impaciente, abri a porta, mas ele não estava lá.
A cama feita, as janelas abertas faziam as cortinas se levantarem com o vento. Voltei-me para porta, já saindo, quando ele me chamou.
_Anne, o que quer aqui? - ele apareceu no meio do quarto e estava diferente, com as faces afogueadas e pupilas dilatadas. Suas narinas pulsavam com o vigor de sua respiração ofegante. Talvez fossem as luzes das velas as responsáveis por aparência tão assustadora.
_Desculpe-me, meu tio, não o vi. Pensei que... – não era fácil ocultar meu assombro. Por essa razão continuei a deixar seu aposento.
_Deves ter algo muito importante a me dizer, para ter vindo aqui a esta hora! – me interpelou fazendo-me voltar a encará-lo. Ele parecia contrariado com minha presença.
_Creio que posso esperar até amanhã - estava muito desconcertada e só queria sair dali o mais rápido possível. Sentia que algo não estava bem.
_Boa noite, meu tio.
_Boa noite, minha criança – senti o alívio em suas palavras com a minha saída.
O dia seguinte foi o mais triste da minha vida. Logo cedo recebi a notícia de que o Conde estava morto. Ele, o cocheiro e mais dois amigos que viajavam em sua companhia, haviam sido atacados e mortos na volta para casa. Alguns diziam que tinham sido vítimas de salteadores, outros, afirmavam que pelo estado dos corpos mutilados teria sido uma matilha de lobos raivosos. Mas para mim a única coisa que realmente importava era que meu futuro noivo estava morto. E meus sonhos mortos com ele.
Não fui aos funerais. Meu tio estava doente, todo o esforço com a noite anterior abalara sua saúde que era muito frágil, então decidi lhe fazer companhia.
Ele passou o dia na cama, com as cortinas cerradas, enquanto eu lia para ele com o auxílio de uma vela.
_ Meu tio, não quer que eu abra as janelas, para deixar a brisa entrar? Farar-lhe bem!
_Não. Sabes que meus olhos são fracos e não suportam a luz intensa – respondeu num fio de voz mantendo os olhos fechados.
_Como quiser! - continuei a leitura.
Meu tio ficou naquele estado por semanas. Jogado naquela cama, sem comer ou beber. Mal abria os olhos, não falava, nem mais queria   que eu lesse para ele.
Desesperava-me vê-lo definhando lentamente. Sua pele pálida parecia murchar sobre os olhos. Seus cabelos e seus olhos não tinham mais brilho. Ele estava morrendo.
Tentei convencê-lo a ir para Paris, pois ele sempre voltava da corte restabelecido.
_Não vou a lugar nenhum! - ele pareceu reunir todas as suas forças para gritar, batendo os braços contra a cama - Vás, arrume suas coisas e parta logo, não a quero mais nessa casa.
Depois de sua breve explosão, tombou a cabeça para o lado e parecia totalmente entregue.
_Não quero deixá-lo, meu tio! – a essa altura eu já estava em prantos - és a minha família. Como viveria sem o senhor?
Seus olhos se abriram lentamente e ganharam uma doçura que me envolveu e deixou-me ainda mais aterrorizada com a possibilidade de perdê-lo. Procurou por minha mão, que lhe estendi depois de tentar secar minhas lágrimas.
_Oh, minha criança, é inevitável – sua voz era suave embora vigorosa - Um dia teremos que nos separar.
Seus lábios tremiam. Tive a impressão que ele tinha algo a me dizer e esforçava-se para manter as palavras dentro da boca. Até que fechou os olhos e pareceu dormir.
Apesar da educação que tive, nunca fomos religiosos. O deus do qual eu ouvia falar não me parecia muito real. O que eu sabia sobre ele era através das intermináveis orações de Amelie ao seu deus crucificado. Mas em meio a meu desespero, vendo meu tio a um passo da morte, me ajoelhei ao lado de sua cama e rezei:
_Senhor dos cristãos, disseram-me que és poderoso e que atendes a todo aquele que busca por ti. Não sei rezar como Amelie, mas, é suplicando, que recorro a sua compaixão: não permita que meu tio morra! Ele é um bom homem. Jamais fez mal a alguém. Renunciou a sua vida para me criar. Asseguro-lhe que não há na face da Terra homem tão bondoso, de coração tão nobre e ...
_Cale-se! – esbravejou. Ele não estava dormindo.
_Não sabes as blasfêmias que proferes - furioso, mandou-me para fora de seu quarto.
Sem entender, saí dali aos prantos. Tranquei-me no meu quarto e gritava: “Louco! Louco!”. Adormeci de tanto chorar. Quando abri os olhos, meu tio estava lá de pé ao lado de minha cama. Sua aparência era horrível, mas ele estava firme.
_Vim pedir-lhe que me perdoe. Não tens culpa de minha desgraça.
_O que fiz de errado? - Fiquei aliviada ao vê-lo novamente.
_Fui eu quem errou – ele deixou os braços tombar ao longo do corpo em completo desalento - criei um mundo que agora não posso mais viver. Pensei ter o controle de tudo. Mas não consigo controlar nem a mim mesmo. Estou encurralado, sem saída. O que quer que eu faça, fará que eu perca o que mais amo: a ti!
Não entendi o que ele dizia. Mas vê-lo chorando fez meu coração sangrar. Faria qualquer coisa para que ele não sofresse mais.
_Por favor, eu quero ajudar-te, mas não sei como - olhei-o bem nos olhos e pedi:
_Conte-me o que preciso saber - eu pressentia que ele precisava me dizer algo.
Depois de um longo silencio ele falou, e falava como alguém rendido, entregue e sem armas.
_Não sou seu tio. Nem tenho nenhum parentesco contigo - ele riu num misto de angústia e desespero – nem mesmo um homem de verdade eu sou!
Com a cabeça girando eu só consegui dizer:
_O quê? Quem és então?
_Sou um vampiro!
Não sabia direito o que pensar. Estaria louco? Com febre e delirando? Já tinha ouvido falar nesses seres da noite que chupam sangue, moram em tumbas e se esgueiram na escuridão. Mas não! Não podia ser verdade. Ele em nada se parecia com essas criaturas horrendas, de dentes pontiagudos que se transformam em morcegos.
Voltei-me para ele na esperança que me dissesse que tudo não passava de um mal entendido, ou que estava zombando de mim. Porém, tal foi a minha surpresa quando me deparei com sua boca arreganhada suas presas salientes e uma expressão de fúria.
Não pude me mexer. O grito não saia da garganta. Estava paralisada de medo.
_Acreditas em mim agora? – ele gritou e o timbre assustador da sua voz fez quebrar as vidraças da janela. Tudo escureceu.
Não sei quanto tempo de passou. Quando recobrei minha consciência vi meu tio olhando-me com preocupação e ternura. Suspirei aliviada. Tudo não passou de um pesadelo.
_Não foi um pesadelo – respondeu como se lesse meus pensamentos. E de cabeça baixa continuou:
_Sou mesmo o monstro que viste. Mas não temas, nenhum mal farei a ti.
_Como pode? És tão belo, tão terno! És a única pessoa que amo nesta vida.
Não tive medo dele. Queria me aninhar em seus braços, como fazia quando era criança, e me sentir segura novamente.
_Não chegues perto de mim. Nunca mais pense em me tocar.
Percebi neste momento que era verdade: ele podia ler meus pensamentos. Meu rosto enrubesceu: “ele sabe”.
_Não posso ter a certeza que tu ainda não tens – e me deu as costas sem se atrever a me olhar.
Continuei com meus pensamentos desencontrados e confusos. “Se ele não é mesmo meu tio, então não é imoral. Mas o que ele é? Um monstro? Uma aberração? Não! Deve haver outra explicação. E se ele não for mesmo humano? O que fazer?”. Minha cabeça fervia.
Quando me dei conta ele não estava mais ao meu lado.
A lareira acesa ganhou força. As labaredas iam altas. E a mancha negra, no meio do fogo, não deixava dúvidas: ele estava dentro dela.
Cruzei o quarto mais rápido que meus pés permitiram. Puxei-o para fora, e seu corpo tombou. Joguei o tapete sobre ele, enrolando-o até que as chamas se apagassem. Ainda hoje não sei como consegui fazer isso.
Meu tio não se movia, mas eu sabia que ele estava vivo. Era estranho, mas eu podia sentir isso. Não tive coragem de olhá-lo. E ele novamente invadiu a minha mente, e eu tive a certeza de que era ele quem falava: “não faças isso”.
_O que faço então? – deixei as palavras escaparem debilmente.
_ “Me deixe morrer”.
_Terás que me matar também – respondi resoluta.
Tomei coragem e puxei o tapete. Um grito rouco saiu de minha boca. Era muito difícil olhar para aquele esqueleto recoberto por uma espécie de couraça preta e enrugada.
Concentrei-me em seus olhos esbugalhados, mas que continuavam azuis, como sempre foi. O cheiro de carne queimada embrulhava-me o estomago. Fechei os olhos e tentei ser forte.
_Não vou deixá-lo. Diga-me então, o que tenho que fazer. 
 Esperei por uma resposta que não veio. Ele estava tão decidido a morrer quanto eu a não deixar que isso acontecesse. Monstro ou não, meu tio ou não, eu o amava e essa certeza era a única que tive a minha vida toda. E ficava cada vez mais clara e forte para mim: não poderia viver longe dele.
Se ele era mesmo um vampiro, precisava de sangue. Ameacei a deixar o quarto para providenciar-lhe uma refeição imaginando como teria a coragem necessária para matar alguém e trazer o corpo até ali, vencer toda a escadaria e o longo corredor, quando finalmente ouvi sua voz dentro de minha cabeça novamente.
_ ”Traga-o até aqui vivo”.
_Quem? – perguntei
_ ”Alguém que não lhe fará falta”.
Apesar de estar decidida a fazer qualquer coisa para salvá-lo ainda havia um pouco de escrúpulos em mim. “Como dispor da vida de alguém me baseando em sua serventia?”. Parecia-me cruel e desumano. Mas servi-lo de um farto banquete de sangue humano também não era? Eu não poderia fazer isso. Entretanto, poderia dar-lhe algo meu sem ter que ferir ninguém.
Enquanto meus pensamentos tomavam forma em minha mente, o corpo dele estremeceu sob o tapete. E uma onda de súplicas tomou conta de mim.
_ ”Não! Por favor! Vá embora, saias daqui! És jovem, tens toda uma vida pela frente. A mim, só resta à eternidade na solidão! É insuportável viver assim. Quero por um fim a tudo isso! Vá para a corte. Lá poderás ser feliz. Nunca mais a importunarei".
Depois, a única coisa que eu conseguia discernir era infindáveis pedidos de perdão. Cada vez mais eu me sentia na necessidade de fazer alguma coisa. Ele sofria, se não pelas queimaduras que, estranhamente, secaram toda a sua carne, mas pelo que sentia diante da impotência de sua situação.
Mas eu poderia mudá-la. Não deixá-lo sozinho. Ou era eu quem não desejava ficar sozinha? Ficar longe dele logo agora que eu descobrira que podia amá-lo sem culpa? Talvez ele estivesse certo, seria preferível a morte. E eu havia me decidido.
Aproximei-me dele e sussurrei-lhe na altura de seu ouvido:
_Levá-lo-ei de volta para a lareira. Irei contigo e não poderás me salvar. Mas se aceitar-me terás chance de me socorrer, caso contrário, morrerei contigo. A vida também não me interessa senão ao seu lado. Sabes que meu amor por ti vai muito além do que o de uma mulher deveria ter para com um parente.  Disseste-me que não é meu tio, então não tenho mais que envergonhar-me do que sinto.
Abracei-o por sobre o tapete ainda quente das chamas e pela primeira vez deixei espaçar o seu nome: Filipe. Novamente senti seu corpo estremecer e enchi-me de coragem para arrastá-lo até a lareira. Fechei os olhos e enfiei-me debaixo do tapete abraçando seu corpo murcho antes de nos atirar nas chamas. Enquanto o fogo se alastrava sobre a lã, senti ele se mover. Era sua cabeça que pendia até a altura de meu pescoço. Ele também já fizera sua escolha. Prendi a respiração, pois seu cheiro me causava náuseas. Esperei pela dor de seus dentes dilacerando minha carne, mas ao invés disso, o que senti foi um agradável topor tomando conta de meu corpo à medida que meu sangue se esvaía. Minha mente encheu-se de imagens extraordinárias de lugares que eu não conhecia, e me deixei encantar pela floresta de altos carvalhos que me cercava como um labirinto. Podia sentir o cheiro do mato molhado, meus pés sob um colchão de folhas secas que estalavam ao menor toque. Livros, muitos livros a minha volta. Suas páginas desfilavam rapidamente sobre meus olhos e maravilhava-me com as coisas que aprendia. Senti o gosto da terra em minha boca. Logo vi luzes. Cidades. Muita gente passou em minha mente em rápidos flashes enquanto eu ouvia sem parar: Otias...deusa...verdade...Egito...Ísis...sangue...
De repente, outros sons: risos, gritos, choro. Choro de um bebê que ficava cada vez mais fraco e distante. Eu estava morrendo. E antes que tudo estivesse consumado, pude sentir meu corpo sendo atirado contra o chão. E o nada.

                                           # #continua na próxima semana #

4 comentários:

Mais uma vez você se superou em produzir uma leitura agradavel, dinâmica, com ótimo conteudo e que mais uma vez consegue prender o leitor (de forma até angustiante) pelo aguardo da próxima semana pela continuação do conto.
Parabéns!!

 

Obrigada João! Saciarei sua curiosidade semana que vem.. rsrsrs

 

Maria,
Uma das coisas que sempre me desagradou fora ter que aguardar pela próxima semana.. rsrs
Mas, sei sofrer calado.

 

Nem preciso dizer que vc esta sempre acima da média,simplesmente espetacular,adorei o conto, sei q estou adiantado mas aguardarei como os demais o proximo capítulo. bjo

 

Enviar um comentário