Conto em Gotas


Morte, Sangue e Solidão
      - Uma história de Vampiros -  2ª parte

Minha boca estava úmida. Um líquido quente e doce inundava-a. E eu deixei que ele vagarosamente invadisse meu corpo. De repente cessou. E fiquei ali imóvel por um tempo que me pareceu uma eternidade. Não conseguia me mover como se pesasse uma tonelada. Cada membro de meu corpo começou a enrijecesse e a doer violentamente. Não conseguia pensar em nada além da dor enlouquecedora de minha carne sendo lentamente contorcida por violentos espasmos que eu não conseguia evitar. Minhas entranhas queimavam feito brasa, como se algo as corroesse. Minhas veias latejavam parecendo que a qualquer momento explodiriam rasgando minha carne. Gritaria se tivesse voz. Pensei em Filipe. Onde estaria ele que não me ajudava? Esforcei-me para concentrar-me e lhe implorar por ajuda, mas não consegui ou ele simplesmente havia me abandonado. Teria ele morrido no fogo?
Um golfo quente encheu-me a boca e meu corpo foi sacudindo para se livrar daquele líquido acre. Por um instante eu vi um vulto enegrecido ao meu lado. Faria parte de meu pesadelo ou era ele que viera ao meu socorro? Não sei. Só conseguia sentir o cheiro forte que fazia minhas veias e minha garganta doerem ainda mais. Logo senti o peso de seu corpo sobre mim e o cheiro cada vez mais forte, agora aliado ao som de seus batimentos cardíacos, deixando-me enlouquecida. Soltei um profundo suspiro de prazer quando minha boca se encheu daquele vinho maravilhoso, encorpado, doce e inebriante.
_Tenhas calma. A dor vai passar e tudo ficará bem – aquelas palavras me soaram como música. Filipe não tinha me abandonado. Estava ali ao meu lado. Ficaríamos juntos para sempre.
Quando ele se afastou senti como se o mundo tivesse sido sugado entorno de mim. Aonde ele foi? Para onde levaram o bálsamo doce que aplacava minha dor?
Ainda consegui balbuciar seu nome. Ou imaginei que tivesse dito isso. Mas ele me respondeu em seguida então tive a certeza de que não fazia parte de minhas alucinações.
_Eu preciso ir. Não me demoro. Verás que logo estará se sentindo bem melhor. Mas em hipótese nenhuma deixe esse quarto.
Quis me levantar e segui-lo, mas meu corpo não me obedecia.
Aos poucos percebi que a dor desaparecera. Sentia minha respiração tranqüila e começava a sentir a leveza de meu corpo. Via tudo a minha volta, embora meus olhos permanecessem cerrados. O sol estava alto, na lareira só restara cinzas. A casa estava em silêncio, mas além dos vidros da janela havia uma infinidade de sons que nunca imaginei que ouviria. Peguei-me a acompanhar uma libélula que voava há uns cinqüenta metros da construção. Percebia nitidamente o bater de suas asas a dar rasantes sobre a fonte do jardim. Isso fazia com que eu me esquecesse do som ensurdecedor do canto de um pássaro posado no parapeito de minha janela.
Alguém subia as escadas. Ele estava de volta. Então me esqueci da libélula e do pássaro desafinado. Quando me tocou, eu finalmente abri meus olhos. Ele parecia ter envelhecido uns mil anos com a pele macilenta e enrugada, mas sem nenhuma marca de queimadura. Sua voz também parecia mais grave e rouca quando sentenciou:
_Precisamos deixar esse lugar. Como se sente? Já consegue se levantar?
_Creio que sim - E esforcei-me para recostar-me na cama onde estava.
_Então se levante. Junte tudo de valor que puder carregar. Partiremos assim que anoitecer – ele parecia calmo, porém sua voz o traía. Tive medo de que tivesse se arrependido de não ter me deixado morrer.
_Onde estão os criados? – curiosamente eu sabia a resposta de minha pergunta: mortos. Pobre Amelie, sentirei sua falta!
Já na carruagem, eu olhava o fogo a consumir a casa onde cresci e vivi os anos mais maravilhosos de minha vida, transformando em cinzas o meu passado. Nunca mais seria a mesma Anne, meu tio também deixara de existir. Agora ele era Filipe, o homem que eu amava e por quem havia morrido e nascido outra vez, apenas para tê-lo ao meu lado. Eu ainda não sabia nada sobre o que ele era e que eu havia me transformado. Mas o que importava? Estávamos juntos e para sempre.
Quando finalmente cruzamos os portões da propriedade perguntei:
_Para onde vamos? Para Paris?
_Sim, por algum tempo – ele me respondeu secamente sem tirar os olhos da estrada a nossa frente. Senti um aperto em meu coração. Nunca o havia sentido tão distante de mim como naquela hora. Então procurei pensar que teria muito tempo para convencê-lo de que tinha feito a coisa certa. Pertencíamos um ao outro, nosso destino era ficarmos juntos.
O silêncio que nos cercava apunhalava-me a alma. Nenhuma palavra, nenhum pensamento vindo dele preenchia o vazio que eu sentia. Tentei entrar em sua mente, mas talvez não fosse isso tão fácil como ele fazia parecer, e eu não consegui saber o que pensava ou mesmo ver seu rosto coberto pelo capuz da capa que vestia. Continuava concentrado guiando os cavalos na escuridão. Imaginei que agisse assim, esquivando-se de mim, envergonhado por sua aparência. Mas eu não me importava com isso. Nem o fogo fora capaz de destruir seus olhos azuis, e eram eles que me trazia paz e segurança.  De repente ele puxou as rédeas e parou os cavalos.
_Por que paramos?
_O dia logo vai amanhecer. Precisamos nos proteger! - sua voz rouca saia de dentro do capuz e tomava todo o ambiente.
_Mas falta tão pouco! – retruquei – vamos continuar.
_Não resistirias ao mais fraco raio de sol – disse descendo do coche e ordenando-me a ajudá-lo a tirar nossos baús da carruagem e escondê-los no meio dos arbustos. Depois desatrelou os cavalos e bateu neles assustando-os, para que fossem embora.
 Eu por algum tempo deixei de me perguntar o porquê Filipe agia assim, encantada com a facilidade com que carregava os baús como se fossem delicados porta-jóias. Nunca tinha me sentido tão forte e vigorosa. Só me dei conta de que ele continuava a agir estranhamente quando o peguei cavando rapidamente atrás de uma árvore longe da estrada, logo depois de incendiar nossa carruagem.
_O que está fazendo?
_Sua cama.
Eu tremi. Ele cavava a terra com tanta agilidade e rapidez que eu mal via suas mãos. Precisei me concentrar para perceber que era capaz de acompanhar seus movimentos se assim quisesse.
_Venha – ele me disse assim que parou de cavar ainda de joelhos sobre a terra – não tenhas medo.
Apesar da voz rouca, pude perceber que era a primeira vez, desde que eu me atirara na lareira com ele, que me falava com candura. E foi por saber que ele ainda se preocupava comigo, que tentava me proteger que tomei coragem para me deitar naquela cova. E antes que começasse a me cobrir, disse-me:
_Não será tão ruim quanto imaginas. Todo vampiro que se preza passa pela prova da terra. Mas ainda estas enfraquecida, não sabes nada sobre o que é agora. Mas não tenhas medo. Virei tirá-la daqui amanhã assim que o sol se por. Estarei aqui bem ao seu lado.
 A sensação de terra sobre meu rosto não era das mais agradáveis. Imaginei que sufocaria assim que ele terminasse de me cobrir, mas nada disso aconteceu. Senti-me como um bebê no útero da mãe, aconchegada e protegida. E os sons que vinham do seio da Terra, que ficaram mais nítidos assim que Filipe terminou de se cobrir em seu buraco ao lado, pareceu me ninar e eu acabei dormindo.
Na noite seguinte chegamos a Paris. E ao invés de irmos para a casa que tínhamos na corte. Ele me levou para o subúrbio de vielas estreitas e imundas. Eu não conseguia imaginar o que ele pretendia. Sentia uma fome a me devorar por dentro, estava inebriada pelos cheiros que exalavam daquele lugar, mas minha cabeça parecia que explodiria com a imensidade de sons que chegavam aos meus ouvidos, martelando a minha cabeça, como se pudesse ouvir todos os habitantes daquele lugar gritando ao mesmo tempo.
Coloquei as mãos nos ouvidos instintivamente deixando meu corpo escorregar contra a parede atrás de mim, quando Filipe me abraçou e disse:
_Não deixes que eles a dominem. Na sua mente só deve entrar o que permitir. És tu quem manda. Seja forte e se domine ou vais enlouquecer em pouco tempo.
Fechei os olhos e concentrei-me nas batidas aceleradas de meu coração. Logo as vozes diminuíram até sumirem e o que restou foi a sensação de que minhas veias se transformavam em raízes grossas e contorcidas a esmagar meu corpo. Era a fome, ou a sede como Filipe me disse mais tarde. Eu precisava me alimentar. Sabia que essa hora chegaria, mas não se seria capaz de fazê-lo. O que eu não daria para ver o rosto dele agora a me encher de coragem! Mas ele insistia em se esconder debaixo daquela capa escura. Quando pegou em minha mão para que o seguisse, pude ver que suas veias também pareciam cordas a se enroscar pelo seu braço. Ele também tinha sede. E mais do que eu, ele precisava se alimentar para regenerar-se.
O segui até entrarmos em uma taverna cheia de bêbados e prostitutas. Não me importei com a aparência bestial e imunda deles, era o cheiro doce que eles exalavam, que talvez apenas seres como nós pudesse sentir, que me embriagou. Sentamos em um canto e pedimos vinho que nem chegamos a tocar, e ficamos ali observando. Não demoraria para que o sol raiasse e muitos já dormiam sobre as toscas mesas, outros se esfregavam no fundo do salão, quando dois homens cambaleantes, visivelmente bêbados, deixaram o lugar.
_Estais pronta? – era a primeira coisa que ele me dizia em horas.
_Estou - respondi tentando parecer forte e decidida. Passar as noites com ele em lugares imundos e mal cheirosos não eram bem o que eu havia imaginado que seria nossa vida juntos, mas não reclamaria se ele ao menos não fingisse que eu não estava ali. Talvez ele precisasse ter a certeza que eu poderia ser como ele, que não fracassaria. Eu não podia desapontá-lo. Eu tremia assim que ganhamos a rua atrás de nossas vítimas, mas não de frio. Era medo. Medo de não conseguir. Eu já acompanhara muitas caçadas, mas aquilo era diferente, não eram cervos ou coelhos, eram homens. Gente como eu. Ou será que, o que eu me tornara, não me classificava mais como gente?
_Eu não vou conseguir fazer isso! – parei no meio do caminho.
Filipe arregaçou a manga de sua capa e mostrando as marcas que tinha em seu braço me disse:
_Não será a primeira vez, Anne.
Naquele instante recordei-me da sensação maravilhosa que foi ter seu sangue em minha boca, aplacando-me a dor. Essa sensação turvou-me a visão. O cheiro de sangue que exalava daqueles homens alguns passos a nossa frente era só no que eu conseguia pensar. Saltei sobre um deles com a agilidade e fúria que eu nunca imaginei que possuísse. O pobre nem teve tempo de gritar. Foi Filipe quem arrancou aquele corpo já sem vida de minhas mãos. E quando finalmente abri os olhos e me dei conta do que aconteceu e de onde estava, percebi que havia outro corpo do outro lado da viela.
_Nunca bebas até o final. É um sangue ruim que lhe fará muito mal – a voz dele estava menos rouca e as mãos que ele me estendeu mais viçosas e rejuvenescidas, embora ainda não fosse como antigamente.
Algum tempo depois eu descobri finalmente o porquê não se devia beber até esvaziar o corpo. O excesso de adrenalina que o medo e a morte causam, envenena o sangue deixando-nos com uma maldita ressaca por dias.
Voltamos para nosso buraco no bosque nas cercanias da cidade, e nas três noites seguintes a mesma cena se repetiu, apenas os lugares mudavam.
Filipe abandonara a capa que sempre usava. Sua aparência finalmente tinha voltado ao normal, jovem e belo. Estava até mais disposto e falante. Pensei que finalmente começaríamos a nos entender, principalmente, quando naquela noite, antes de sairmos para caçar, ele me chamou para conversar:
_Precisamos de um lugar para viver. Voltar a ter uma identidade.
_Como? – indaguei – pensam que estamos mortos.
_Criança, não há nada que não possamos fazer. Nada que algumas moedas não comprem – ele riu largamente ao perceber que eu não entendia o poder que tínhamos.
Foi maravilhoso ouvi-lo gargalhar. Era como se nada tivesse acontecido e ainda estivéssemos em casa brincando alegres depois de mais uma de suas viagens a corte em que ele voltava bem disposto e cheio de vida. Agora eu compreendia o motivo: ele voltava bem alimentado.
_E quem seremos então? Teremos que ir para bem longe da França. Aqui poderemos ser reconhecidos facilmente.
_Escolha um lugar. Iremos para onde quiser – ele parecia tão feliz, cheio de planos onde, agora eu tinha certeza, me incluía. Não resisti, me aproximei dele e o beijei pela primeira vez. E fiz isso com tanto ardor, tanta paixão, tanto desespero que pensei que desfaleceria.
_Poderei então ser sua mulher? – sussurrei em seu ouvido.
_É o que sempre serás, minha doce Anne, para todo o sempre – dessa vez foi ele quem me beijou com tanto desejo quanto eu.
Eu tinha sede, mas não queria deixar aquele lugar. Interromper os planos que ele não se cansava de repetir, me tendo em seu colo, assim como ficávamos quando eu ainda era uma criança. Ele dizia como seria belo e imponente o castelo que compraria. Que em algum lugar no interior da Inglaterra possuía uma imensa fortuna em ouro e jóias, escondida nem uma ruína. Chegou a sugerir a Áustria ou as terras quentes da Espanha. Sonhava em uma vivenda no campo, longe das cidades, onde ficaríamos seguros, teríamos uma dieta “selvagem”, no que ele insistia, eu acabaria por me acostumar.
Entretanto, não era essa vida que eu desejava levar. Se éramos tão ricos e poderosos, capaz de enganar até a morte, por que viver escondidos sem poder desfrutar de todas as coisas boas que o mundo poderia nos oferecer?
_Não somos deuses que tem o mundo aos seus pés – ele se irritou e me afastou de seu colo – somos monstros, uma doença que espalha dor e morte. Não podemos andar livres nos servindo da vida dos homens. Nosso dever é ficar afastado, reclusos, até encontrar uma cura. Um meio de por fim a essa maldição. É isso que Otias espera de mim, de todos nós.
_Otias... – deixei escapar sem saber bem o que significava. Mas eu me lembrava de já ter ouvido esse nome antes.
_Sim, Otias – ele repetiu solenemente – a sacerdotisa da deusa Ìsis, a mãe de todos nós.
Uma mulher. Senti o ciúme me cortar o peito ao ver os olhos dele brilharem como eu nunca tinha visto antes. E naquele brilho havia uma mistura de devoção, respeito e saudade. E mais do que isso, era amor que faiscavam de seus olhos.
Tentando esconder o despeito que eu passei a nutrir imediatamente por aquela mulher, pedi que ele me falasse sobre ela. Precisava saber mais sobre a minha rival. O que ele passou a fazer imediatamente quase em um transe.
_Conheci Otias no interior da Inglaterra. Ela foi a responsável por eu ter me tornado isso – e apontou para si mesmo com desdém – mas não a culpo. Eu estava morrendo e implorei que ela me salvasse. Não teria feito isso se soubesse o alto preço. Mas eu era jovem e tolo. 
Para mim ele continuava jovem. Quantos anos ele teria? Nem precisei perguntar. Nesse exato momento ele começou a me contar toda a sua vida.
_Nasci aqui mesmo na França, no dia em que o rei Luís IX estava sendo coroado. Meus pais eram nobres, mas eu era seu quinto filho e estava muito distante de herdar o título e as propriedades de meu pai. Só me restava ser um vassalo de meu irmão primogênito ou, como queria minha mãe, entrar para a Igreja.
Enquanto ele falava, eu tentava me lembrar quando Luís IX havia reinado. Assustei-me ao lembrar a data de sua coroação: 29 de novembro 1226 e ao chegar ao resultado daquela operação matemática que fazia mentalmente. Estávamos no dia 3 de novembro do ano de 1498 o que fazia com que meu Filipe tivesse para completar 272 anos. Mas eu não queria perder nem um detalhe de sua história, então continuei calada ouvindo-o falar:
_Aos 18 anos vendi as terras que me caberiam na partilha e ganhei o mundo. O rei organizava a sétima cruzada e eu tinha medo de ser recrutado e forçado a ir à Terra Santa. Fui para a Inglaterra onde gastei boa parte de minha pequena fortuna com festas, bebidas e mulheres. Fiz amizade com um nobre e durante mais de dois anos viajamos juntos conhecendo o mundo e nos divertindo. Até que ele foi chamado de volta, porque a mãe estava muito doente e me convidou para acompanhá-lo. Pensei em voltar para casa, mas há muito meu dinheiro havia acabado e eu vivia à custa dele. Não tive escolha senão voltar para a Inglaterra. Foram anos bons, até ele se casar e eu começar a me sentir um intruso naquela casa. Decidi ir para Londres, viver na corte e quem sabe encontrar uma boa moça para me casar também. Meu pai não fecharia as portas de nossa casa para uma bela nora e um netinho. Era primavera de 1251, eu estava então com 24 anos, quando tudo aconteceu.
Filipe se calou por um momento. Levantou-se. Deu uma volta em torno de mim e continuou parecendo-me cansado e abatido.
_Richard Nevile, barão de Warwick, era o nome de meu amigo. Ele havia me dado um belo cavalo e uma pequena quantia para que eu tentasse a sorte na corte, além de uma carta de apresentação ao Duque de York, a quem eu deveria procurar assim que chegasse. Mas nada disso aconteceu. Por viajar sozinho tornei-me alvo fácil de ladrões. Fui atacado na estrada por três homens que me assaltaram, levaram meu cavalo e esfaquearam-me, abandonando meu corpo no meio da floresta que o caminho cortava.
Eu estava lá deitado no chão, semi consciente, com meu sangue esvaindo-se rapidamente quando ela apareceu. Não consegui ver no momento quem era, só uma imagem distorcida, um borrão a se aproximar de mim.
_Me ajude, por favor! Não me deixe morrer aqui. Meu pai é um nobre de França, poderá recompensar-lhe muito bem.
Ela examinou meu ferimento e sentenciou:
_Só há uma maneira de continuares nesse mundo. Mas se conheceres o preço, talvez deseje morrer – sua voz era metálica, como o soar de um sino, e me assustou. Mas eu estava só e morrendo no meio da floresta, ela era a única chance que eu tinha.
_Não importa. Se eu sobreviver levantarei qualquer quantia que me pedir. Tenho amigos influentes na corte inglesa. Salve-me, eu lhe imploro!
_Não quero seu dinheiro ou de seus amigos. Aceitarei como pagamento a sua companhia.
E antes que pudesse dizer mais alguma coisa eu desmaiei. O que me lembro depois disso é só da terrível dor que tu bem conheces. Quando finalmente recobrei minha consciência é que pude ver que minha salvadora era uma mulher. Alta, esguia, de pele morena, e de cabelos negros e compridos cortados na testa como uma franja. Na verdade era uma peruca. Ela tinha os cabelos raspados, mas o que não lhe diminuía sua beleza. Tinha os mais belos olhos negros que já encontrei, que pareciam me tragar para dentro deles.
O modo como ele a descrevia me fez ficar ainda mais intrigada. Como ele poderia achar bela uma mulher sem cabelos e pele maculada pelo sol? Logo ele que sempre insistiu para que eu me protegesse com chapéus de abas largas para que o sol não queimasse minha pele?
Mas ele não parecia se importar com meus sentimentos, continuava a falar dela como se descrevesse a Vênus de Milos.
_Bem vindo ao mundo dos mortos! - foi o que me disse assim que abri os olhos e pude ver onde estava. Era uma cabana pequena, fria e úmida, com o telhado coberto por galhos e sapê. Suas paredes de pedra abrigavam várias prateleiras cheias de rolos de pergaminho. Além disso, só havia uma cadeira, a cama de peles em que eu estava deitado e uma lareira.
_Eu estou vivo e me sentindo muito bem. Preciso agradecer-lhe por salvar minha vida.
_Não está vivo – disse secamente – sua alma está consciente, mas presa em um corpo sem vida. Enquanto ele existir, estarás preso a essa terra. E é por isso que precisa alimentá-lo de maneira especial. Seu corpo não tem mais condições de digerir o alimento e prover a energia necessária, então precisa ingerir essa energia já processada.
_E como faço isso? – perguntei sem compreender bem o que ela dizia.
_Alimentando-se com sangue. Fresco. Humano preferencialmente.
Eu mal acreditei no que meus ouvidos registraram. Eu teria entendido bem? Teria que beber sangue humano? Fresco? Só agora eu me dava conta de que aquela mulher de aparência incomum era totalmente louca. Meu primeiro pensamento foi deixar aquele lugar o mais rapidamente possível, o que me pareceu mais fácil do que eu imaginava. Foi a própria Otias quem me convidou para sairmos. Imaginei que lá fora não seria difícil despistá-la e voltar à estrada rumo à corte.
Não muito longe ficava uma estalagem. Era noite e ela me apontou o telhado da construção de dois andares. Num só pulo alcançou o beiral de uma janela e sumiu dentro dela. Eu fiquei impressionado com a agilidade dela. Mas não tanto quanto fiquei quando descobri que podia fazer o mesmo assim que ela me acenou lá de cima.
_Isso é fantástico! Viu o que eu fiz? – exclamei maravilhado apalpando minhas pernas que não pareciam ter feio qualquer esforço.
_Podes fazer muito mais do que isso. Enganou a morte. És capaz de qualquer proeza.
_Está dizendo que não vou morrer mais? Que posso viver para sempre?
_Não se pode matar o que já está morto. E o que temos não é vida. É a maldição de ver o mundo se modificar, ver as pessoas que amamos envelhecerem e morrerem. É a solidão da forma mais cruel: no meio do mundo e sozinhos. Sendo odiados, temidos – ela se calou enquanto eu tentava digerir o que ouvia sem compreender, até então, a profundidade de suas palavras. Mas logo chamou minha atenção para a mesa que havia no quarto.
Sobre ela eu reconheci meus pertences. E enquanto eu tocava na bolsa e ouvia o som das moedas chacoalharem dentro dela e rever os últimos momentos em que lutei pela minha vida, ela tocou levemente em meus ombros e disse:
_Vamos esperar. A hora da vingança chegará em breve.
Não sei quanto tempo passamos em silêncio nas sombras daquele quarto a espera de meus assassinos, mas sei que foram horas terríveis. Uma sensação desesperada de algo que eu não compreendia. Ou melhor, sabia, mas não queria crer que fosse verdade. E a sede alucinante alimentava ainda mais o ódio que eu sentia por aqueles bandidos. Olhava para meus pertences sobre a mesa e pensava: minha vida não valia quase nada!
Quando ouvi sons, vindo do lado de fora da porta, eu já estava totalmente tomado pela sede e pelo ódio.   
Foi indescritível. Quando a matança acabou, sentei-me no chão e chorei como uma criança. Eu havia me vingado e aplacado minhas dores, meu corpo reagia aquele sangue de maneira surpreendente e começava a ter uma percepção das coisas ao meu redor como nunca tivera antes. Percepção suficiente para entender o que eu tinha feito e o que agora era: um monstro.
Foi quando ela se aproximou de mim ajoelhou-se e colocou minha cabeça em seu colo:
_Chore se isso lhe fizer sentir-se melhor – sua voz estava suave sem aquele timbre metálico que tanto me assustava. Lembrei-me de minha mãe naquela hora imaginando se ela oferecer-me-ia conforto se soubesse o que fiz.
_Esqueça o passado – disse e eu pude perceber que ela conhecia meus pensamentos – ele só lhe trará dor e arrependimentos. Vamos voltar para a floresta. O sol já vai nascer e ele é seu pior inimigo.
Levantei minha cabeça para olhá-la tão doce a alisar-me os cabelos desalinhados e sujos. Minha cabeça latejava de perguntas e meu peito era estrangulado pelo remorso. Eu só queria que ela me dissesse que aquilo tudo foi só um pesadelo, eu iria acordar e tudo ficaria bem. Mas ao contrário disso, ela se limitou a me puxar pelas mãos e sentenciar:
_Vamos. Tens muito que aprender sobre sua nova condição. E tempo é o que não nos faltará nunca mais.
E foi mesmo um tempo enorme que passei naquela floresta em sua companhia. Longe de tudo e todos. Conformei-me quando descobri que poderia sobreviver sem ter que matar pessoas. Alimentávamos basicamente de animais que caçávamos durante a noite. Só abandonávamos a nossa “dieta selvagem” quando algum viajante se perdia por aqueles caminhos. Sentíamos a léguas o cheiro de sangue humano como os cães de caça farejam suas presas, e ficávamos quase enlouquecidos. Fracos com estávamos era muito difícil nos conter. A sede latejava forte, sentíamos dores e vertigens. Não havia como resistir. E depois voltávamos à leitura dos pergaminhos a procura de uma cura, de alguma esperança para nós. Esse era o nosso maior desejo: encontrar um modo de por fim ao que ela chamava de “maldição de Amom-Rá”, o deus egípcio do sol. Eu sempre perguntava sobre sua vida passada, sobre a terra de onde vinha, mas ela raramente deixava escapar alguma coisa. Sempre me mandava continuar a leitura e não perder tempo com curiosidades tolas.
Certa noite, depois de nos fartar com um pequeno grupo de viajantes incautos, eu explodi:
_Chega! Tudo isso é inútil! Jamais poderemos sair desse lugar, seremos esses monstros que matam mulheres e crianças para todo o sempre. Vou subir a colina e esperar o sol nascer. O inferno não pode ser pior que esse lugar!
_Não vais a lugar nenhum, Filipe – ela gritou com sua voz metálica, e com uma velocidade impressionante, se colocou entre a porta da cabana e eu. Com uma das mãos em minha garganta ergueu-me – se existe uma saída, ela está aqui, nesses pergaminhos.
Eu que me julgava extremamente forte após um lauto banquete de viajantes, pude perceber, para meu espanto, que ela era infinitamente mais forte do que eu.
_É mais sensato colocarmos um fim em nossos corpos antes de matarmos mais alguém - ainda tentei argumentar, tentando invadir a mente dela, enquanto meus pés se debatiam a dois palmos longe do chão
_Sensato é encontrar a cura para os outros – ela finalmente me colocou de volta ao chão - Se morremos, eles continuarão sobre a Terra espalhando a morte, e ninguém poderá detê-los. Ficamos mais fortes com o passar das eras, chegará o dia que nem o sol os deterá. Reinarão soberanos e terão toda a humanidade aos seus pés.
Espantado, eu perguntei mesmo já sabendo a resposta:
_Há outros como nós?
_Sim, muitos. Espalhados pelo mundo. E nem todos tão escrupulosos quanto tu. Imaginas o que pode acontecer se esse poder cair nas mãos de déspotas?
Ela não esperou por qualquer resposta minha. Saiu da frente da porta e voltou a se sentar limitando-se a dizer:
_Deixe essa sua autopiedade de lado. Volte à leitura. Ainda é a melhor opção.

E assim continuamos na floresta acompanhando de longe o mundo se modificar a nossa volta. E ele cada vez mais parecia bem pior do que aquela cabana úmida e uma lebre por refeição. Os homens mesmo se encarregavam de se matarem uns aos outros, e nós não tínhamos qualquer participação nisso. Aos poucos, o respeito que eu tinha pela humanidade ia se acabando. Eu sofria mais a cada dia lutando contra a sede, contra meus instintos, e para quê? Os que eu tentava proteger se jogavam uns contra os outros por títulos, ouro e terras que nem poderiam desfrutar por muito tempo. Logo a morte os ceifaria e outros viriam se matar, lutando por seus despojos.
Por que não eu? Já estava cansado de ler sobre faraós, lendas do oriente sem nunca achar nada que explicasse o que éramos ou como poderíamos voltar ao normal. Se é que existia mesmo um modo de se fazer isso, além de torrar sob o sol.
O mundo começava a me chamar de volta. Oferecendo-me toda a sorte de prazeres. Poderia viver minha juventude para todo o sempre sem ter que me preocupar em adoecer pelos excessos, em envelhecer. Tudo agora me parecia tão mais atrativo. Explodia as primeiras batalhas entre a Inglaterra e a França de que ficariam conhecidas como Guerra dos Cem anos. E que cenário melhor do que uma guerra para eu poder andar livremente pelo mundo? Quem daria falta de mais algumas centenas de soldados?
Eu sabia que ela conhecia meus desejos, embora nunca conseguisse entrar na mente dela com ela fazia com a minha. Tinha certeza de que jamais concordaria com a minha partida, muito menos estaria disposta a seguir-me. E eu desejava muito que ela estivesse sempre ao meu lado. Queria poder lhe mostrar o mundo que ela não conhecia, depois de tantos séculos naquela floresta como um de seus carvalhos enraizados na terra. Poderíamos ter sido felizes juntos. Éramos iguais, compartilhávamos de um segredo que ninguém, jamais poderia saber. Naquela vida de miséria e dor que vivíamos, meu único prazer era poder, todos os dias quando amanhecia, deitar-me junto a ela, sob as peles de animais que forravam a cama, e ficarmos juntos até a noite descer novamente. No início, ela me deixava só na cabana, sumindo entre as árvores minutos antes do alvorecer. Com o tempo, minha devoção e respeito por ela aumentaram à medida que meu desejo diminuía. Olhava para ela e não conseguia mais ver somente a mulher bela de traços exóticos a povoar minha mente de lascívia. Era ela minha mentora, algo mais próximo de uma mãe que minha nova condição permitia.

Filipe se calou. E embora agora eu tivesse a certeza de que ele nunca a tocou, o devotamento que ele nutria pelas lembranças daquela mulher não diminuiu meu ciúme, ao contrário. Ela possuía um lugar na vida dele que eu jamais alcançaria.
 _Ela o deixou partir? – perguntei para tirá-lo daquele transe que me incomodava.
_De certo modo – ele continuava com o olhar perdido ruminando sua solidão – Otias me disse que precisava descansar. Mas não do modo como fazíamos. Ela precisava voltar para a terra. E me fez uma proposta: que eu deveria segui-la. E se meu desejo de voltar ao mundo fosse tão forte quanto eu imaginava, conseguiria deixar a terra e então poderia partir que ela não se oporia.
Irritei-me por ela não me julgar capaz de vencer aquele desafio. No fundo queria evitar que insistisse em tal idéia. Ser enterrado vivo parecia-me algo insuportável. Mas Otias garantiu-me que me faria bem, me fortaleceria e me deixaria pronto para vencer qualquer obstáculo que a nova vida que eu desejava me impusesse. Que eu precisava aprender a vencer a sede e usá-la ao meu favor. Aceitei. Deitei-me numa cova recém aberta ao lado da antiga que a pertencia. Foi ela própria quem me cobriu.
Descobri que depois de certo tempo a sede deixa de nos atormentar e nosso maior desafio e vencer a falta dela. Voltar a ter algum motivo para deixar a terra e voltar ao mundo. Sem sede, nada parece ter mais sentido. Nos tornamos um corpo seco, sem vontade, tentados a viver eternamente como uma raiz enterrada na terra.
Se foi esse o grande desafio que eu teria de vencer, eu venci. Lentamente eu voltei a me mover e a cavar a terra sobre mim. E ao chegar à superfície, depois de muitas tentativas, consegui me alimentar de um filhote de cervo doente que a mãe deixara para trás. Não é fácil conseguir uma boa presa quanto se movimenta com a desenvoltura de um caramujo
Essa foi a primeira gargalhada que Filipe dera desde que começara sua narrativa. Eu não consegui rir junto com ele, aterrorizada com o que ele dizia.
Muitas e muitas noites eu voltei para aquele buraco até ter forças de voltar à cabana. Não havia nenhum sinal de Otias na cova ao lado. Ela certamente me esperava lá para parabenizar-me pela vitória.
Mas ela partiu. Deixou-me apenas uma carta e esse anel – apontando para meu dedo - segurei-me para não arrancá-lo e atirá-lo longe quando soube que essa jóia bizarra a pertenceu.
_E para onde ela foi?
_Para o Egito.
_E o que fez?
_Eu não passava de uma enorme uva-passa, cego como uma toupeira, arrastando-me pelo chão. O que mais eu poderia fazer? Mas precisava me recuperar rápido, deixar aquele lugar e ir atrás dela. Precisava me arriscar na beira da estrada. Com sorte, conseguira chegar até lá antes do sol nascer, e talvez, algum pobre diabo aparecesse. Foi o que fiz na noite seguinte. Um cocheiro, uma velha e sua acompanhante me serviram de jantar. Teria matado os cavalos também, mas precisava deles para deixar aquele lugar antes do amanhecer. No lugar que havia aquela estalagem, crescia uma vila próspera e com comida abundante. Depois de algumas noites não passava de um lugar deserto e mal assombrado. Eu estava recuperado, pronto para ganhar o mundo, levando todas as riquezas daquelas pobres almas comigo. Já em Londres surpreendi-me ao saber que estávamos no ano de 1335, havia passado mais de oitenta anos escondido na floresta, uns trinta deles debaixo da terra.
Comprei boas roupas, aluguei um quarto em uma respeitosa estalagem e comecei a invadir festas da nobreza usando o nome de família de minha mãe. Descobri que meu pai e meus irmãos perderam tudo com a cruzada. E com e eminência da guerra entre a Inglaterra e a França, não consegui aproximar-me de ninguém. Olhavam-me como se eu fosse um infiltrado francês a serviço do rei. Tolos. Eu era apenas o demônio que iria matá-los assim que as luzes se apagassem, mas mesmo assim resolvi deixar o país. Estava cheio de todos eles: franceses e ingleses. Eu só queria naquele momento me divertir e descobrir tudo que minha nova vida no velho mundo poderia me proporcionar. Escondi em um castelo abandonado grande parte da fortuna que amealhei naquele ano e fui para Florença. Lá se respirava beleza. Nada de títulos, monarcas, o que abria as portas para o prazer era o dinheiro, que pude distribuir nas várias casas bancárias, abrindo-se assim, as portas de todas as outras casas. Em pouco tempo aumentei meu crédito nas mesas de jogo, onde eu aprendera a usar meus dons de ler a mente para ganhar na maioria das vezes.
Cheguei a me casar algumas vezes com ricas burguesas, mas logo enviuvava, e culpava a peste. Mas eu era a peste, já que minhas esposas exigiam que eu cumprisse meus deveres de marido, e isso não era possível sem que eu matasse minha sede. Antes mesmo que eu acalcasse o clímax, elas jaziam mortas em meus braços. Mudei-me para Pisa, Siena, e tantas outras cidades argumentando para as pessoas o medo de contágio. Entretanto os lugares começaram a ficar pequenos demais para minha cobiça e luxúria.
Apesar de ter tudo o que sempre quis nas mãos, dono de um poder incomparável, eu me sentia só. Os anos passavam as pessoas envelheciam e eu precisava me mudar, assumir outra identidade em um lugar distante, começar tudo novamente. Comecei a odiar-me, a odiar o mundo, odiar Otias que não me deixou morrer só para depois me abandonar.
Naquela noite, em especial, eu me sentia o próprio demônio que minha mãe não se cansava de falar para que o repelisse com orações, quando eu e meus irmãos éramos pequenos. Cheguei a acreditar que minha desdita era um castigo por não ter seguido seus conselhos, rezado pouco e não ter entrado para a vida religiosa ou partido nas cruzadas para salvar a Terra Santa.
Eu havia saído a cavalo, correndo em disparada sem destino, como se pudesse correr de mim mesmo. Até que me vi nos arredores de uma pequena propriedade vinícola. Invadi a casa e matei, por puro ódio, o casal que ali morava, já que acabava de me fartar com um grupo de jovens bêbados na cercania da cidade. Enquanto eu ainda tinha a jovem mulher entre minhas mãos, ouvi o som mais maravilhoso e, ao mesmo tempo, mais assustador que tinha ouvido no último século. Era o choro de um bebê. Abandonei o corpo sem vida sobre a cama e fui caminhando em direção ao som do outro lado do quarto. Não tinha mais do que uns cinco meses. Pensei em beber aquele sangue tão novo, tão puro, ou simplesmente estrangulá-lo para que se calasse e não atraísse a atenção dos criados. Tirei seu pequeno corpinho de dentro do cesto e apertei-o junto ao meu peito sentindo as batidas aceleradas de seu coraçãzinho. Não tive coragem de matá-lo. E minhas lágrimas se juntaram as dele até que um barulho vindo de fora do quarto despertou-me e eu pulei novamente a janela com ele ainda nos braços.
Passei todo o caminho de volta tentando não pensar na grande besteira que eu havia feito. Quando dessem falta da criança viriam atrás dela. Onde eu a esconderia? Se não tive coragem de matá-la enquanto estava tomado pela raiva, não seria agora, depois que ela havia tocado as fibras mais delicadas de meu coração que, até então, imaginava nem possuir mais. Ainda havia algo de humano em mim. Talvez ainda existisse salvação. Talvez Otias tivesse encontrado nossa cura e logo apareceria para me buscar. Por que mesmo não tendo nenhuma notícia dela desde que deixei a floresta na Inglaterra, eu sabia que ela ainda estava sobre a Terra, eu podia sentir.
Na noite seguinte peguei todos os meus pertences de valor e fui embora, não sem antes matar todos os servos e incendiar a propriedade, apagando assim meu rastro.
Refugiei-me no sul da França, em um lugar próximo ao que eu tinha nascido. Era bom estar de volta. Não havia lugar melhor para se criar uma criança. Era uma menina e dei-lhe o nome de minha mãe, Anne.
                           ## continua na próxima senama ##

1 comentários:

Ainda bem que você não é advogada, pois estou me apaixonando pela Anne e sentindo pena do Filipe, quase me esquecendo os monstros que são.
Nesse conto, quase da para tornar os personagens corporeos e sentir a presença deles.
Estais se superando a cada dia.
Parabens!

 

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