Conto em Gotas

     Contos de Andaluzia Parte I - Fé e Pecado 
                                                Capítulo 2
   A bela carruagem, ostentando o brasão de D. Alonso Cortéz, parou em frente ao Convento de Santa Inés, em Sevilla. Miguel ficou encantado com a singela e acolhedora fachada do prédio.  Acostumado com a ostentação e o luxo dos prédios santos de Roma, aquela construção pareceu-lhe exatamente o lugar onde se abrigaria os santos, bem longe das abóbadas douradas da Santa Sé.
   Tocou a sineta e logo uma mulher de baixa estatura, envergando o hábito marrom das Clarissas veio abrir o portão. Depois de se identificar, foi conduzido a uma pequena saleta onde ficou a espera da Superiora do convento.
   _D. Miguel! – exclamou a monja se aproximando e se curvando à sua frente, beijando-lhe a mão em sinal de respeito e humildade – a sua benção. Seja bem vindo a nossa casa! D. Alonso sempre o menciona em suas missivas.
   _Deus a abençoe, Monja Guillerma – ele ajudou a velha senhora a se colocar em pé novamente – é a pedido de D. Alonso que estou aqui.
   _Creio que sei bem o motivo de vossa visita – ela esboçou um sorriso embora tivesse os olhos cheios de tristeza – viestes buscar Leonora. Pobre criança! Embora eu saiba que ela não se furtaria a seguir as ordens do pai, a vocação de Leonora é visível. Uma perfeita filha de Santa Clara. É um pecado afastá-la dos caminhos do Senhor!
   _Minha cara Monja Guillerma, sabemos que há muitos caminhos para se chegar a Deus. Acaso não confias na Providência Divina?
   _Jamais questionaria os desígnios de Deus. Mas Leonora chegou aqui ainda criança. E ao contrário de muitas de minhas irmãs, se entregou ao serviço do Senhor com amor e devoção próprio das beatas. Mesmo que nunca tenha efetuado seus votos perpétuos, reúne em si todos os predicados de uma Clarissa. Não consigo imaginá-la fora desses muros.
   Era visível o abatimento da monja e D. Miguel tentou acalmar seu confrangido coração:
   _Não temas, Irmã. Tudo farei para que a readaptação de Leonora no mundo dos homens seja sem traumas. Não esqueçamos que o matrimônio também é um dos sacramentos e ela será feliz assim, cumprindo a vontade do Senhor.
   _Que Deus o ouça, D. Miguel! Estaremos todas nós aqui, orando para que nossa irmã siga segura nos caminhos de Deus. E que Ele a abençoe com um matrimônio feliz e com muitos filhos.
   _Amém, irmã. Amém.
   Miguel recusou gentilmente a ficar hospedado no convento enquanto a noviça seria participada da vontade de seu pai e se prepararia para voltar a San José. Ele tinha outros compromissos. Procuraria por D. José Ruello Diaz a fim de apressar um possível arranjo de casamento para a herdeira de seu velho amigo e de sua futura viúva, como havia pedido D. Alonso.
   Na grande e luxuosa propriedade de Ruello Diaz, Miguel passou a noite confabulando com seu proprietário. Decidiram que o próprio filho caçula de D. José seria o esposo perfeito para Leonora. Embora ele fosse alguns anos mais novo do que a futura noiva, a possibilidade de unir as duas fortunas o fez desconsiderar esse pequeno detalhe. Quanto a Constanza, tudo parecia um pouco mais difícil. Ela ainda não era uma viúva e poucas posses teria para atrair um novo consorte, já que Leonora seria a herdeira universal de seu pai. Porém, D. Miguel, assegurou-lhe que D. Alonso deixaria em testamento uma boa quantia para o seu dote. E foi com asco que viu os olhos do próprio Ruello Diaz se acender diante de tal oferta.  O homem nem sequer havia levado em conta o quanto Constaza era bela ou os muitos anos mais nova que ele. Era só a riqueza que ela poderia vir a possuir que o interessou.
   Passou toda a madrugada rolando na cama, se remoendo de raiva e remorsos por ter aceitado tão torpe incumbência. Constanza novamente estaria à mercê de um velho, que ao contrário de D. Alonso, não a amava. Tentava consolar-se acreditando que, pelo menos assim, ela nunca viria a se apaixonar pelo futuro marido. Ela ainda seria dele. E essa era uma boa justificativa para não abandoná-la agora, diante de tão malfadado futuro. Futuro não muito diferente da pobre Leonora, que deixaria a vida monástica para se unir a um fedelho imberbe que mal podia sustentar uma espada em sua cintura. Perguntava-se se seria esta mesmo a vontade de Deus: destruir a felicidade de duas mulheres somente para aplacar o remorso de um velho que não soube lidar com suas paixões. Miguel chegou à conclusão que ele não era melhor do que D. Alonso. Quantos pecados não havia cometido em nome do amor que sentia por Constanza?
   “O que realmente Deus quer de mim?”. Perguntava-se sem conseguir encontrar uma resposta. A verdade era que ele não queria enxergar que todos, fatalmente, mudariam o rumo de suas vidas, e ele, deveria fazer o mesmo. Aceitar com humildade e fé os desígnios do Alto. Como ele mesmo vivia repetindo: são muitos os caminhos para se chegar a Deus.
   Mas ele não pretendia mudar o dele. Nenhum outro que o afastasse de Constanza. Pensar que poderia atenuar o sofrimento das duas mulheres, permanecendo ao lado delas, levando consolo e a palavra de Deus para que encontrassem a salvação na resignação, foi a saída que encontrou para seu dilema. E assim conseguiu dormir quando o dia já raiava.
   O dia seguinte passou descansando da viagem e de mais uma noite de tormentos. Foi convidado por D. José para um jantar no Reales Alcázares de Sevilla. Lá, em meio à nobreza andaluza, passou agradáveis horas bebendo e comendo, cercado de belas damas, fazendo com que se esquecesse de Constanza e Leonora.
   Não se sabe se era o belo porte, seus olhos verdes, sua oratória impecável, ou até mesmo o hábito beneditino, que ele orgulhosamente vestia o que atraía tanto os olhares femininos. A verdade é que D. Miguel passou a noite no palácio de Sevilla na companhia de honorável dama da sociedade.
   Já era fim de tarde quando D. Miguel voltou ao convento a fim de conhecer a jovem Leonora e prepará-la para a viagem de volta a San José no dia seguinte.
   Acomodado na pequena saleta de visitas do convento, Miguel viu a jovem se aproximar. Era a própria imagem da Virgem vergando o hábito marrom da Ordem de Santa Clara, usava um véu branco que demonstrava que ainda não havia feito seus votos perpétuos.
   _Sua benção, excelso enviado do Senhor! – ajoelhou-se na frente do padre deixando-o extremamente constrangido diante de tão sincera e entusiasta saudação, e que ele sabia, estava muito longe da verdade.
   _Deus a abençoe, minha filha. Levante-se. Creio que temos muito a conversar.
   Miguel mal conseguia olhá-la de frente, tamanho o magnetismo e respeito que aquela frágil figura aos seus pés lhe infringia. 
   Ele estava diante de uma alma pura e casta. Ao contrário da sua, maculada por tantos pecados. Sentia-se pequeno, impuro, desmerecedor de sequer dirigir-lhe os olhos.
   Levantou-se da poltrona onde estava e deu-lhe as costas a fim de se recompor. Havia um nó em sua garganta, sentia uma forte emoção que ele não sabia descrever. O suor que brotava em todo o seu corpo deixava claro que ele não se sentia bem.
   _Estais tão pálido, D. Miguel! Sente algum mal? – ela imediatamente o segurou pela mão fazendo-o voltar para se sentar.
   Miguel engoliu seco tentando segurar as lágrimas, e quando seus olhos se cruzaram, em meio a seu estado febril, viu-se diante da própria Virgem Maria envolta em um halo de luz que se expandiu como uma grande bola de fogo, iluminando toda a sala e cegando-o momentaneamente. Sem conseguir conter a onda de indescritível emoção pela qual foi tomado, deixou-se cair de joelhos aos pés da aparição, em pleno êxtase, enquanto seus ouvidos eram invadidos por suave e melodiosa voz que lhe disse:
   “Miguel! Entrego minha filha aos seus cuidados. Cuide para que ela cumpra sua missão juntos aos homens, curando o corpo e a alma do grande rebanho de Deus. É junto dela que encontrarás força para vencer a si mesmo, conhecendo o amor puro e casto que transforma bestas em anjos. Bendizei a grande oportunidade que tens de se redimir. E não te esqueças que o Pai espera exultante a volta de seu filho pródigo”.
   Ele queria falar, mas seus pensamentos eram confusos. Júbilo e arrependimento debatiam-se dentro dele. Precisava pedir perdão por todos os seus pecados, dizer-se indigno de tal tarefa e ao mesmo tempo agradecer a intercessão da misericórdia divina, mas o máximo que conseguiu foi chorar copiosamente. Enquanto era cercado de anjos louvando o Senhor.
   Com a mente e o corpo exaustos, o padre deixou-se cair desfalecido, enquanto a noviça, totalmente alheia ao fenômeno que desencadeara, pedia por socorro sem conseguir levantá-lo do chão.
   Quando Miguel recobrou a plena consciência estava deitado em um claustro pequeno em frente a uma imagem de Santa Clara. Ainda sob os eflúvios de sua experiência singular, reconhecendo na imagem a visão que tivera, deixou o leito e foi se prostrar diante da santa em sentida prece:
   _Oh Santa Clara! Que por amor a Jesus e a Francisco renunciaste ao mundo. Ensina-me a ser forte e a seguir seu excelso exemplo. Sou um pecador, bem sei, mas agradeço a Misericórdia Divina que colocou esse anjo em meu caminho quando eu já me sentia indigno do amor de Deus. Compreendi que seu exemplo é a chave para as portas do céu. Minha única oportunidade para abandonar essa vida de vícios, que tanto ofende ao meu Deus. Vós que amaste a Jesus com todo ardor de seu coração, amaste Francisco com pureza e castidade, tendo nesse irmão o guia e o exemplo de amor e fé, será a luz que norteará meu caminho na pessoa iluminada de vossa filha. E eu lhe prometo minha santa, que tudo farei para que Leonora cumpra sua missão, deixando-me guiar no caminho reto do Senhor. Senti o Teu amor e compaixão por mim, devolvendo-me a esperança. Desejo ardentemente cumprir minha missão com humildade e devoção. Honrando meus votos e a confiança que depositaste em mim.
   O Beneditino jogou-se no chão, abrindo os braços, formando uma cruz viva na laje do cubículo e disse solenemente:
    _Renovo, diante de Vós, minha Santa Clara, tendo os anjos do Senhor como minha testemunha, meus votos de celibato consagrado, obediência e pobreza.
    Lágrimas de júbilo desceram pelo rosto de Miguel profundamente emocionado. Ouviu os sinos tocarem. Para ele era a anunciação de uma nova Era em sua vida, sinal que a Santa tinha ouvido suas rogativas e aceito seus votos. Um doce cântico invadiu o claustro vindo da capela do mosteiro. Eram seis horas da tarde, a hora do Ângelus, o momento da Anunciação à Maria feita pelo Anjo Rafael, e D. Miguel continuou a rezar:
   _Ave Maria gratia plena, Dominus tecum. Benedicta tu in mulieribus, et benedictus fructus ventris tui, Iesus.
Sancta Maria, Mater Dei, ora pro nobis peccatoribus, nunc et in hora mortis nostræ. Amen. 
   Miguel ceiou sem deixar o claustro a pedido da Superiora para não aumentar o alvoroço entre as monjas que não se cansavam de repetir que presenciaram um milagre. Todas queriam vê-lo, tocá-lo, implorar-lhe sua benção para que intercedesse junto à Virgem por suas almas. Algumas já questionavam se tal prodígio não deveria ser relatado a Roma. Discreta e sensata, Irmã Guillerma preferiu se acercar dos fatos antes de anunciar tal milagre a seus superiores.
   _Foi Santa Clara, superiora madre! – explicava o padre – tive essa certeza ao me deparar com sua imagem na parede. Ouvi sua augusta voz. Não estou autorizado a dizer-lhe o conteúdo de sua mensagem, mas posso garantir-lhe que foi o suficiente para reacender minha fé e renovar meus votos. Nunca me imaginei merecedor de tamanha graça.
   Miguel voltou a chorar comovido. Ninguém melhor do que ele para saber que era o último sobre a face da Terra a merecer a intercessão da santa.
   _Nossa Mãe, assim como a Virgem Maria, não desampara ninguém. Está sempre a cuidar dos mais necessitados, seja no corpo ou na alma, meu caro D. Miguel.
   _Tens razão, madre. Venho passando por momentos conturbados em minha vida. Andava descrente de mim mesmo. Agora posso sentir o amor do Cristo novamente dentro de meu coração. Agora entendo sua vontade. Possuis um anjo dentro de seus muros madre, mas Deus a quer junto de seu povo, levando o amor e a esperança em Seu nome. Assim como Leonora foi a medianeira na restauração de minha paz, será a luz de Clara de Assis iluminando o mundo. Esteja certa, Madre Guillerma, que eu a seguirei como seu fiel e devotado servo onde quer que Deus a envie. Auxiliarei em tudo que puder para que ela cumpra sua missão nessa Terra.
   _Nossa Ordem vive a reclusão, a adoração amorosa em Jesus Sacramentado e a contemplação silenciosa de nosso Amado Deus, orando incessantemente para todas as necessidades da Igreja e intercedendo pelo mundo, talvez o senhor esteja certo, D. Miguel, e aqui não seja o lugar de Leonora. Ele a deseja mais atuante no mundo dos homens, assim como Jesus ia pregar onde quer que houvesse ouvidos para ouvi-lo. Leonora deverá ser um testemunho vivo de Seu amor e compaixão pelos que sofrem. Especialmente aos doentes.
   E se aproximando mais do padre, em tom de confidência, revelou:
   _Algumas de nossas irmãs juram terem sido curadas pelas suas mãos. Nada de muita relevância. Pequenos males, dores que desapareceram com um simples toque de Leonora.
   _Que Deus seja louvado, Irmã! Eu tive a certeza de que estava diante de uma eleita! – Miguel estava exultante, cada vez mais confiante de que Leonora era um anjo enviado dos Céus para salvar a ele e a todos que cruzassem seu caminho.

   O Dia amanheceu e Miguel e Leonora deixaram o convento rumo a San José. Ela ainda vestia o hábito da Ordem, a única roupa que usara nesses últimos treze anos. Na bagagem levava poucos pertences: um outro hábito ainda mais puído, usado para os serviços diários, um rosário e um livro de cânticos.
   Ela estava serena, convicta de quaisquer que fossem os próximos acontecimentos em sua vida, seriam da vontade de Deus. Miguel, ao contrário, sentia-se exaltado, jubiloso como o noivo que conduz a esposa para sua nova morada.
   Leonora não conhecia nada do mundo, mas sua presença exercia nele uma autoridade, uma devoção que ele não saberia explicar se não fosse recorrendo aos acontecimentos do dia anterior.
A noviça, escondida sob o hábito, era franzina, mas agradável ao olhar. Possuía uma beleza angelical, singela, muito diferente da exuberante Constanza sempre ornada por muitas jóias e belos vestidos. Possuía ares infantis embora estivesse preste a completar vinte e quatro anos.
   O coração do beneditino estava aos saltos, seus olhos em discreta adoração a moça a sua frente. Não era desejo o que sentia. Ela não despertava nele seus instintos carnais, ao contrário, ele a desejava por perto simplesmente para adorá-la em silêncio, tentar extrair dela um pouco que fosse de sua angelitude. Lembrou-se de sua infância no Mosteiro de San Millan de Yuso ajoelhado aos pés da Virgem Maria, e sentia-se exatamente como naquela época: arrebatado pelo seu amor.
   Leonora, por sua vez, tinha vontade de falar-lhe, conhecer os detalhes de sua Visão, compartilhar com o padre sua vontade de também se consagrar a Deus, mas não tinha coragem de interromper seu silêncio. E manteve-se respeitosamente imersa em suas orações. 
   Depois de mais de duas horas de viagem, foi D. Miguel quem a interpelou:
   _Estais ansiosa ao voltar para casa? – perguntou um tanto sem jeito, sem saber o que dizer para quebrar o silêncio.
   Leonora sorriu ao poder, finalmente, travar uma conversação com o padre.
   _Muito, D. Miguel. Desejo muito rever meu querido pai. Sei que ele está muito doente, quero poder cuidar dele enquanto o senhor assim me permitir.
   _Estais ciente de que não é só pela moléstia de seu pai que foi tirada do convento?
   _Sim. Meu pai deseja que eu me case – e ao contrário do que Miguel esperava, ela abriu um grande sorriso antes de completar - mas já sou comprometida com o Cristo.
   _Não farás a vontade de teu pai?
   _Nunca me recusaria a fazer a vontade do Pai. De Nosso Pai Maior. É Nele que deposito toda fé em meu futuro.
   _Disseste bem, criança – Miguel não se cansava de admirá-la. Uma moça tão frágil, tão inexperiente e tão segura em sua fé – saibas que podes contar com meu auxílio em qualquer decisão que venha a tomar. Intercederei junto ao vosso pai se necessário. Estou certo de que teu futuro não deve ser o matrimônio.
   _Então concordas comigo, D. Miguel? Louvado seja o Senhor! - os olhos da moça se acenderam.
   Dali em diante, mais segura e a vontade com a presença de seu tutor, Leonora passou a palestrar livremente sobre todos os assuntos que espontaneamente surgiam.
   Pareciam velhos amigos que se reencontravam, descobrindo que tinham uma visão do mundo e das coisas do Alto em perfeita sintonia. Embora muitas delas fossem bastante peculiares e um tanto fora dos padrões da Igreja. Teriam vergonha, e até receio de discorrem sobre tais dogmas se não estivessem sentindo que finalmente encontraram seus afins.
   Miguel sentia-se cada vez mais hipnotizado pela fala doce e simples da moça e por suas idéias revolucionárias. Leonora, por sua vez, mais segura e fortalecida para enfrentar as provas que Deus lhe infringiria.
   Ela confessou-lhe que, embora amasse a vida no convento, a companhia de suas irmãs, sentia-se um tanto inútil e desconfortável por não poder fazer mais pelos outros. A clausura possibilitava a comunhão com Deus, mas ela desejava compartilhá-la com todos. Levar o conforto do Amor do Pai a todos os que estivessem sofrendo, amenizando-lhes as dores, fortalecendo a fé.
   Miguel também já se sentira assim. E tinha sido exatamente esse o motivo pelo qual acatou as ordens da rainha abandonando o mosteiro. Não era a política, os interesses de Roma e de seu país que o moveu, e sim a oportunidade de estar perto do povo. Fazer algo significativo junto aos mais necessitados.
   A recepção de Constanza a enteada não foi a das mais calorosas. Só abaixando suas armas ao ter conhecimento de que Leonora já estava prometida ao caçula de D. Ruello Diaz. Miguel nada lhe disse sobre o arranjo de seu próximo casamento, esperando por um momento mais propício, visto que a doença de D. Alonso o deixava a cada dia mais fraco. A emoção de rever a filha mexeu com seus frágeis nervos. E conseguir dela o seu perdão era só o que o pobre enfermo esperava para deixar a Terra, o que aconteceu três dias após sua chegada.
   Abatida, porém resignada, Leonora seguiu o funeral do pai. A presença sempre constante de D. Miguel lhe trazia paz e conforto. A figura do padre lhe transmitia segurança e força. Ela não se sentia sozinha, sabia ter ao lado alguém que compartilhava de suas idéias, alimentadas pelo amor ao Pai e o desejo da caridade.
   A viúva chorava desesperadamente. Não pela perda de seu amado esposo, mas pela incerteza sobre seu futuro naquela casa. O que seria dela assim que a enteada se casasse? Para onde iria já que também não tinha mais seus pais e todos os seus irmãos estavam casados e cuidando de suas vidas? Aceitar outro casamento sem amor? Miguel parecia não mais notar sua presença. Estava muito diferente desde que voltara da Sevilla. Não havia saído do lado do moribundo, procurando atenuar-lhe todas as dores, acalentando a alma sofrida pelo remorso. Não se dirigia a ela em nenhuma outra ocasião que não envolvesse o bem estar de D. Alonso. Ele e a freirinha, como desdenhosamente chamavam Leonora, se revezavam ao lado da cama do doente.
   A aproximação entre os dois, a afinidade e a sincera amizade que se fortalecia entre eles, deixava Constanza enciumada. Sentimento que aumentou ainda mais após os funerais, quando eles passaram a se ver constantemente, indo às vilas de camponeses a fim de lhes prestar qualquer tipo de socorro, sempre levando uma carroça cheia de víveres e roupas, muitas delas que a própria herdeira costurava. 
   Constaza odiava ver a enteada vestida como uma mendiga com seu hábito marrom, com ares de santa, desejando que ela tivesse um belo dia na companhia dos anjos de Deus enquanto saía na companhia de Miguel. “Quem ela pensa que engana?”. A madrasta se roia de ciúme ao perceber como ele olhava para a moça maltrapilha como se estivesse diante de uma rainha. “É por causa dela que ele não me procura mais, que foge de meus carinhos. Miguel está enfeitiçado! Preciso fazer alguma coisa para apressar o casamento de Leonora. Fazer com que ela e o pirralho voltem para Sevilla. Essa casa é minha! Miguel é meu!”.
   No início ela imaginava que Miguel não se arriscaria a encontrá-la, enquanto a enteada estivesse por perto. Era só uma questão de tempo até tirar a rival de seu caminho e tudo voltaria a ser como antes. Ou até para melhor. Agora que o marido estava morto, Miguel cumpriria sua palavra e os dois deixariam o país para começarem uma nova vida longe dali. Mesmo assim ela os vigiava de perto. E sempre que tinha oportunidade se juntava aos dois nas longas conversas que tinha após a ceia, sentados na varanda aproveitando a brisa fresca da noite. Esforçava-se por demonstrar interesse na vida dos santos que eles sempre usavam como exemplos, assim como os ensinamentos do Nazareno. Mas tudo lhe parecia tão descabido! Os santos que eles tanto exaltavam tinham vidas de pobreza e sacrifício, muito diferente da que ela desejava para ela.   Miguel não podia estar sendo sincero quando falava de pobreza e castidade. Castidade? Logo ele, um amante ardente e apaixonado com quem, muitas e muitas noites, compartilhou sua cama. Toda aquela conversa só poderia ser um despiste, uma artimanha dele para manter as aparências. Pensar nisso acendia nela o desejo de tê-lo novamente. De se entregar, de se sentir amada e desejada por aquele homem belo e sedutor a sua frente. Porém, ele parecia tão distante. Tão convicto de suas palavras. Onde estaria o Miguel por quem tinha se apaixonado?
   Imaginá-lo interessado por aquela menina feia e mal vestida era algo que Constanza não podia conceber. Não podia ser verdade. Mas a doença do ciúme começava a consumi-la e cada vez que eles se afastavam, sua mente criava as mais nefastas cenas. Colorindo com cores febris os dois amantes deliciando-se enquanto se escarneciam dela, que começava a envelhecer e ficar murcha e sem atrativos.
   Certa manhã, antes que todos na casa se levantassem, Constanza, decidida e cheia de raiva e rancor, entrou no quarto ocupado pelo padre:
   _Levante-se Miguel. Precisamos ter uma conversa.
   Aturdido com a presença dela, o beneditino pulou da cama antes mesmo de acordar por completo:
   _Aconteceu alguma coisa? Leonora está bem?
   _Leonora! – disse com raiva  quase aos berros - sempre Leonora.
   _Fiz um juramento que tomaria conta dela... – tentou argumentar até ser interrompido.
   _Fizestes muitos juramentos D. Miguel de Navarra. Chegou a hora de cumpri-los.
   _O que quer dizer? – Miguel pressentiu algo na voz dela que lhe causou arrepios.
   _Eu estou grávida! – e antes que ele pudesse dizer alguma coisa concluiu:
   _E não perca teu tempo tentando convencer-me a tirá-lo como das outras vezes. Isso eu não farei. Tens duas alternativas: ou cumpre tua palavra e larga a batina para ficar comigo, criar nosso filho como uma família bem longe daqui. Ou serei obrigada a contar a todos quem é o pai dessa criança quando meu ventre começar a crescer. Há de perder tudo. Ser condenado pela Igreja, ser apedrejado pelos pobres diabos por quem tens tanto apreço. Já pensaste o que fará tua pupila quando ela souber que o santo homem a quem ela tanto admira deitava-se com sua madrasta debaixo do teto de seu pai? Para onde correrá? Para debaixo das asas de seu protetor, o Rei Carlos? Já me disseste que ele jamais acobertaria sua desonra. 
   E já deixando o aposento completou:
   _Mas esse não é problema meu. Direi a todos que se aproveitaste da hospitalidade de meu finado marido. Atacou-me sabendo que, doente, D. Alonso não poderia defender-me a honra. E que foi essa pérfida traição o que apressou-lhe a morte.
   _Não podes estar falando sério. Isso desgraçaria tua vida!
   Ela se virou, encarou-o com os olhos chispando de raiva antes de dizer:
   _Não me preocupo com meu destino se o seu também for a desgraça. Pagarás caro por mentir e depois abandonar-me! Acaso pensas que não percebo como olhas para a freirinha? Antes que destruas a vida dela como fez com a minha, acabarei contigo primeiro. Mas como disse, a escolha é tua. Tens até o fim da semana para dar-me uma resposta. Logo não poderei mais esconder essa gravidez.
    Assim que a porta bateu atrás da mulher, D. Miguel deixou-se cair na cama, totalmente atônito. Ele estava perdido.

                                              # # # Continua na próxima semana # # #

Conto em Gotas

                                                        Contos da Andaluzia
                                              Fé e Pecado

                                                                    - Parte I -

   A velha carroça rangia ao enfrentar a estrada que levava a propriedade de San José, embalando os pensamentos de D. Miguel. O sol escaldante do verão na Andaluzia incidia sobre o hábito preto da Ordem dos Beneditinos, aumentando o desconforto.
   Ele precisava cumprir com seus deveres sacerdotais, rezando a missa dominical na pequena capela erguida em homenagem a Nuestra Señora de Los Reys, ouvir seu rebanho em confissão e socorrer os doentes.
   Seguia com os olhos perdidos no imenso vinhedo que se estendia por todos os lados.
   Ainda sentia dores nas costas a lembrá-lo que deveria ficar longe de Constanza. Passara os últimos dias jejuando e se penitenciando contra o grave pecado que cometera contra Deus e seus votos.
   Estava cheio de fé que esse dia era a grande oportunidade para provar que poderia vencer a carne, o desejo de ter aquela bela e jovem mulher em seus braços.
   Tinha consciência de que não estava só cavando sua entrada no inferno, mas arrastando junto com ele a mulher que amava, fazendo-a cometer adultério. Prometera a ela largar a batina e lhe dar uma vida nova longe dali, onde poderiam ficar juntos. Mas sabia que isso nunca aconteceria. Ele era um padre, amava o sacerdócio, cuidar dos seus doentes e menos afortunados, ensinar o evangelho aos pequeninos e levar paz e conforto as almas sofredoras. Paz essa que ele mesmo nunca teve.
   Estava com quarenta e três anos e, embora fosse clara sua  inclinação para a vida clerical, D. Miguel de Navarra era um homem ardente, sedutor e voluntarioso, não conseguindo escapar das armadilhas do desejo. 

   Nascera em Pamplona. Sua mãe, umas das aias de Branca I de Navarra, morreu no parto, enquanto retornavam da Sicília. De pai desconhecido, o pobre órfão caiu nas graças da rainha que acabava de perder seu filho Martin, de apenas 2 anos de idade. Quando Branca teve seu primeiro filho de João, Duque de Peñafiel, seu segundo marido, que viria a ser o rei consorte de Navarra, Miguel foi mandado para o mosteiro Beneditino de San Millán de Yuso. De onde só saiu quando completou 18 anos, chamado pela própria rainha que acabava de perder sua segunda filha, Joana.
   Acabou sendo um dos preceptores de Carlos, o Príncipe de Viana, filho mais velho de Branca e João.
   No Palácio Real de Olite, Miguel dividia-se entre a educação do príncipe e a fugir do assédio das damas. Ele era muito jovem e nada conhecia da vida fora dos muros do mosteiro. Rapidamente se deixou enredar pelos sedutores apelos das mulheres da corte.
   “Belo Apolo” diziam elas. De pele morena ressaltando seus olhos claros, fartos cabelos escuros e um corpo másculo, de boa estatura, que nem o escapulário negro conseguia disfarçar.
   Carlos logo se afeiçoou a Miguel tendo-o como um irmão mais velho. Fazia questão que todos na corte  o tratassem  por Miguel de Navarra, apiedado pelo fato de seu tutor, por ser um bastardo, não ter um sobrenome para ostentar. Com ele, o príncipe aprendeu muitas coisas além de latim e religião, principalmente o gosto pelas artes, em especial as sacras que tanto emocionavam Miguel, fazendo vibrar as fibras mais sensíveis de sua alma.
   Inés de Cléves, filha do Duque Adolfo I de Cléves, e sobrinha de Filipe III, da Borgonha, foi aquela que, como a imagem da Virgem, encheu seu coração de júbilo. Miguel tinha então 23 anos e apesar de já conhecer o prazer nos braços de uma mulher, se apaixonara pela primeira vez.
   Estava decidido a não seguir mais a vida monástica, afinal, ainda não tinha feito seus votos quando retornara à Pamplona. Ele queria se casar e ter filhos.
   Porém, a rainha não se agradou de seus planos. Apesar de ser tratado como um membro da família real, Miguel era um pária e Inês uma nobre. Branca então o mandou de volta ao mosteiro afim que fizesse seus votos alegando que esse era o último pedido de sua aia, que ao colocá-lo em seus braços, rogou que ela tivesse piedade daquela criança indefesa e o entregasse a Deus para que assim ele fosse livre do pecado de sua concepção.
Pouco tempo Miguel passou em San Millán de Yuso. Branca I tinha planos mais auspiciosos para ele: transformá-lo nos olhos e ouvidos de seu país junto ao Papa Nicolau V. Miguel foi para Roma sob os cuidados do Cardeal de Navarra. Lá Soube que Inés se casara com Carlos, com as bênçãos da rainha e decidiu esquecê-la. 
   Já ordenado sacerdote ele voltou para a Espanha depois se envolver vários em escândalos amorosos, abafados por seu preceptor. Descontente com o comportamento de Miguel, a rainha simplesmente passou a ignorá-lo, deixando a sua própria sorte.
    Seguindo o lema da Ordem dos Beneditinos, “Ora ET Labora”, enlevado pelo desejo de espalhar a caridade, levando assistência aos necessitados e instrução a fidalguia, percorreu toda a Espanha,  sem se fixar em nenhum lugar por muito tempo, pois, onde parava, sempre encontrava uma bela mulher a tirar-lhe a paz a incitá-lo ao pecado.
   Sua carne era fraca, ele sabia, e sempre que cedia aos desejos se castigava, fustigando um chicote de nove tiras de couro em suas costas enquanto rezava o rosário, trancado em seu claustro antes de se deitar.
   Prazer da carne, dor da carne; esse era o modo que Miguel tinha para se penitenciar por pecar contra a castidade que exigiam seus votos.
   Chegara a Andaluzia há dois anos atrás, dividindo-se em atender as várias propriedade do local. Porém, estava sempre em San José. Não só pelo fato de que D. Alonso, dono daquelas terras, estava doente, exigindo dele mais atenção, mas, sobretudo, porque se apaixonara terrivelmente por Constanza, a segunda esposa de D. Alonso.
   E essa situação martirizava ainda mais a consciência do padre. Ele não podia deixar Andaluzia agora, afeiçoara-se ao velho enfermo. Tinha consciência de que, em breve, teria que oferecer conforto e o sacramento da Extrema Unção àquela alma na hora derradeira. Entretanto, Constanza ficaria viúva, livre, e iria exigir que cumprisse sua promessa de fugirem para viverem juntos. Ele tinha a certeza de que ela o amava, estaria disposta a enfrentar todos por causa dele. Mas ele não estava tão certo de que abandonar o hábito lhe traria paz. Tinha feitos outros votos, outras promessas além do celibato, e essas, ele fazia questão de cumprir.
   Os pensamentos de D. Miguel fervilhavam mais do que o sol em sua cabeça. Ele precisava se afastar de San José. Ir para outro lugar. Dedicar-se a oração e ao trabalho junto ao povo de Deus. Mas não tinha forças para abrir mão de Constanza. Por mais que se penitenciasse, ele sempre acabava cedendo aos apelos daquela mulher vaidosa, de temperamento forte que, frente a qualquer contrariedade, ficava extremamente vingativa. Ela tinha consciência do quanto era bela e sedutora e não tinha nenhum pudor ao usar isso para conseguir tudo o que queria. E nesses dois últimos anos de tórrido romance, a única coisa que a interessava era fazer D. Miguel abandonar a Igreja e fugir com ela. 
   Logo que apeou da carroça em frente ao grande casario da vila, um rapazote veio lhe beijar as mãos e levar o velho cavalo para a cocheira.
   Subiu as escadarias e foi abordado por uma serva.
   _Sua benção, D. Miguel – a mulher de meia idade se curvou humilde, mas jubilosa ao ver o santo homem que cuidava não só da alma, mas do corpo de todos ali naquelas paragens.
    _Deus te abençoe, Joana! Como vai o pequeno Pablo, seu neto?
   _Graças a Deus e ao senhor não teve mais febre. Ele está tão esperto! – derreteu-se a avó – ontem mesmo ensaiou os primeiros passinhos.
   _Que Deus seja louvado!
   _O senhor se assente que eu venho logo trazer um refresco. Vou avisar Dona Constanza de que já chegou.
   _Obrigado, Joana. Estou mesmo precisando tirar o pó da garganta.
   O padre se sentou na poltrona onde costumava ficar palestrando com D. Alonso nos tempos que ele ainda deixava o quarto e arriscava alguns passos pela casa e ficou admirando o óleo que retratava Constanza, presente que ela exigira do marido logo após o casamento para colocar na parede no lugar do retrato da antiga dona da propriedade. Ela se casara muito jovem com um homem trinta e cinco anos mais velho. Viúvo e sem um herdeiro varão, D. Alonso depositou nesse casamento, e aos pés de Constanza, todos os seus sonhos. Ele precisava de um filho e a caprichosa moça, alguém para atender-lhe em todos os seus caprichos. E o primeiro deles, antes mesmo de se casar, foi que o noivo mandasse sua única filha, de seu primeiro casamento, para um convento. Ela não queria outra mulher em seus domínios, interferindo e dividindo seu pequeno reino.
   Leonor, a filha de D. Alonso, tinha então 11 anos. Ela nunca mais voltou para a casa do pai. Mas em todas as cartas que mandava, dizia-se muito feliz, certa de que seguiria a vida religiosa, bendizendo o pai por lhe permitir servir a Deus.
   Miguel, admirando o retrato na parede, chegou a conclusão de que Constanza não mudara nada nesses 13 anos de casada. O mesmo porte, o mesmo olhar apaixonado, arrebatador, quase febril que o artista soube tão bem imortalizar.
   _A sua benção, D. Miguel – a voz rouca e sensual de Constanza fez seu corpo fremir.
_Deus a abençoe, minha filha – levantou-se para cumprimentá-la formalmente.
   Ofereceu a mão para que ela a beijasse, e não deixou de perceber o leve sorriso que ela tinha no canto da boca denotando seus não tão puros pensamentos. Seus olhos eram puro ardor que não desgrudavam dos dele. Há muitos dias não se viam e a saudade estava estampada no rosto dela.
   O padre aceitou o refresco que a criada lhe trouxe e sentou-se novamente tentando disfarçar a dor que sentiu assim que suas costas encostaram no espaldar da poltrona. Bendita dor que o tirou daquele joguinho de sedução de Constanza a lhe mandar olhares lascivos enquanto mordiscava os lábios a encará-lo.
   _Como está D. Alonso? – perguntou fingindo não perceber as caras e bocas que ela fazia.
   _Piora a cada dia – respondeu dando os ombros – ele não pára de falar daquela filha freirinha que ele tem.
   E aproveitando-se que a criada deixava a sala, pulou para cima de Miguel, sentando-se no colo dele e alisando-lhes os cabelos.
   _Precisas fazer alguma coisa, Miguel. Eu sei que Alonso vai lhe pedir que escreva para o convento afim de que a Abadessa mande a freirinha de volta. O velho enlouqueceu! Quer casá-la. Insiste que não pode morrer sem deixar um herdeiro para essas terras.
E achegando-se ainda mais para cima do beneditino, sussurrou:
   _Se ao menos eu não tivesse tirado nosso filho! Naquela época Alonso não desconfiaria que não era dele.
   _Enlouqueceste mulher?! – o padre tapou sua boca com as mãos – esse é um assunto morto e enterrado.
   _Morta e enterrada sinto-me aqui nessa casa! Presa a um marido decrépito, que não pode cumprir com seus deveres – a mulher se levantou furiosa – e para quê? Se D. Alonso realmente casar a freirinha e ela lhe der um neto, um sucessor, todos esses anos tendo de suportar a presença desse velho nojento, terá sido em vão. Perderei tudo. Ele deixará toda sua fortuna, suas terras, tudo, para esse bastardinho. O que será de mim, Miguel? Até quando terei que esperar que tomes uma atitude? Que cumpra tuas promessas e me tire desse cativeiro? Por ti eu largo tudo. Não me interessam os bens de D. Alonso se for para ficar ao teu lado.
   Constanza lançou-lhe um olhar desesperado.
   _Vamos fugir, meu amor. Iremos embora para o mais longe possível daqui. Poderemos atravessar o Mediterrâneo até o Marrocos. Lá poderás se livrar do peso desse hábito. Ficarás fora do alcance das mãos vingativas da Santa Sé.
   _Conversaremos mais tarde, Constanza – respondeu fugindo aos carinhos dela – preciso ir ver meus doentes e ouvir os colonos em confissão antes da missa das seis.
   _Vou esperá-lo em meu quarto essa noite – disse ao vê-lo sair – dispensarei a criada.
   _Não me espere – respondeu sem se virar – depois da missa pretendo partir imediatamente. Quero estar bem cedo amanhã nas terras de D. Fernando. Lá há muitos pagãozinhos que precisam ser batizados.
   _O esperarei mesmo assim – disse certa de que ele não se furtaria a mais um encontro amoroso. Ele nunca conseguia resistir a ela, mesmo jurando por todos os santos que não mais a veria – e não te esqueças, santo padre, que uma hora antes da missa espero o senhor na capela para me confessar. Tenho muitos pecados a corroer-me a alma.
   Sua última frase foi quase um deboche. Ela sempre usava suas horas de confissão para levar o pobre homem à loucura, contando, detalhadamente, todos os seus fetiches e desejos. Até que Miguel não mais resistisse e a tomasse nos braços. Muitas vezes o pequeno confessionário foi palco das mais tórridas trocas de carícias. Constanza não era uma mulher que temesse o fogo do inferno. A religião para ela era somente a maneira que alguns homens espertos encontraram para enriquecer em nome de Deus. Desprezava o clero, irritava-se em ter que viver de acordo com os preceitos de Roma. Conhecer Miguel somente aumentou sua aversão pela Igreja. Miguel era dela. Era aos pés dela que ele deveria se ajoelhar. Era para ela que ele deveria fazer votos de fidelidade. E nem que Roma viesse a consentir no casamento de seus ordenados, ela não aceitaria. Nada de ofícios, orações, jejuns, pobre e doentes a sua volta. Miguel só teria um compromisso na vida: fazê-la feliz.
   O beneditino concentrou-se em seus afazeres e por algumas horas esqueceu-se das exigências de sua amante. Aliviar o sofrimento de seu rebanho lhe trazia satisfação, um acalento a sua alma tão conturbada. Era no sorriso dos pequeninos que o rodeavam, no ato de contrição sincero daquela gente humilde que queria alcançar o Reino dos Céus, que Miguel sentia-se mais próximo de Deus. Cada palavra de conforto e consolo que ele proferia aos necessitados de toda sorte, era como se falasse para si mesmo: tu ainda tens salvação, Miguel. Esse é o caminho para chegar até o Cristo. “Bem Aventurado os que sofrem, pois eles herdarão o Reino dos Céus”.
    E Miguel sofria. Sofria por amar, por desejar algo que não lhe pertencia. Sofria por sucumbir a esse desejo e pecar contra Deus. As dores que infligia a sua carne, penitenciando-se, não era o suficiente para amenizar a dor de sua alma. Ele sabia-se pecador, e fraco demais para vencer a si mesmo.
   “Que Deus tenha misericórdia de minha alma”, era o que sempre rogava, cada vez que sucumbia ao desejo.
   Quando finalmente acabou de percorrer as casas onde deveria visitar seus doentes, o sol já estava se pondo. Só então se deu conta de que não havia se alimentado. Mas não sentia fome. Alimentara sua alma, fortalecera seu espírito e sentia-se pronto para consagrar a hóstia no sacramento da Eucaristia.
   Constanza certamente havia se cansado de esperá-lo para a confissão. Mas ele conhecia muito bem cada um dos pecados dela. E de nada adiantaria absorvê-la, aplicar-lhe uma penitência de milhões de Pai-Nosso e Ave-Maria se ela insistisse em atormentá-lo, continuar vivendo em pecado e fazendo-o pecar também.
   Durante a missa, a senhora da propriedade não se cansou de lançar olhares cheios de ódio ao padre, que inspirado, passou todo o sermão falando sobre pecado, especialmente o da carne. Era uma tentativa de convencê-la e, principalmente, de se convencer, que tudo estava acabado entre os dois.
   Após o ofício, D. Miguel foi pessoalmente levar a comunhão a D. Alonso. Mas o enfermo pediu para se confessar, então dispensou o coroinha que o acompanhava.
   _Perdão padre, pois eu pequei contra Deus – disse D. Alonso com a voz tão fraca quanto seu corpo doente.
   _Fale, meu filho. O que o atormenta?
  _Tantos erros que cometi em minha vida – o velho suspirou – perdoa-me padre e ajude-me a repará-los.
   _Deus sempre perdoa aqueles que se arrependem. Mas o que posso fazer pelo senhor?
   _Minha filha Leonor, D. Miguel. Pelo amor da Virgem, atenda o pedido de um velho prestes a deixar esse mundo.  Vá a Sevilla ter com a Superiora do Convento de Santa Inés e traga minha Leonor para casa. Não posso morrer sem ter um herdeiro!
   _Mas D. Alonso – interveio ternamente diante do estado febril do velho – sua filha é uma serva de Cristo. Foi ao Senhor que ela consagrou sua vida. Não poderá mais se casar.
   Reunindo todas as suas débis forças, D. Alonso começou a falar sôfrego:
   _Durante todos esses anos troquei correspondências com Monja Guilerma, e com o consentimento dela, Leonor nunca realizou seus votos. A vida religiosa não foi o que sonhei para minha Nora. Sempre tive esperanças de trazê-la de volta. Imaginava que se Constanza me desse um herdeiro, não se sentiria mais ameaçada com a presença de minha filha nessa casa. Apaixonei-me loucamente quando vi minha esposa pela primeira vez, fiz de tudo para agradá-la. Cometi o maior pecado que se pode cometer contra uma filha, tirando-a de casa com tão pouca idade. Hoje me arrependo. Mas Nora ainda é jovem, ainda pode se casar e dar-me um herdeiro. Preciso de minha filha ao meu lado. Aqui ela também poderá servir a Deus. Tenho medo de morrer antes de vê-la mais uma vez. Antes de pedir-lhe perdão por tê-la afastado de mim. Digas que vais a Sevilla e trará Nora para casa. Prometa-me D. Miguel!
   O padre olhou para o rosto enrugado e abatido do homem banhado em lágrimas de puro arrependimento e não teve como se negar.
   _Eu irei D. Alonso. Prometo-lhe em nome de todos os anjos do Senhor.
   D. Alonso tocou a pequena sineta de prata que tinha ao alcance de suas mãos, no criado ao lado da cama, e imediatamente um homem entrou no aposento.
   _Ramón, providencie tudo para que D. Miguel parta amanhã, logo cedo, para Sevilla. Apronte a carruagem e provisões para a viagem. Acompanhe o santo padre para que nada aconteça a ele e a minha filha até que regressem.
   O alto e corpulento homem acatou as ordens e saiu em seguida. E antes que o padre também se despedisse, logo após lhe dar a comunhão, o velho pediu:
   _Só mais uma coisa D. Miguel. Estando em Sevilla, peço-te que vá ter com meu velho amigo José Ruello Diáz, Creio que ele, com toda a influência que possui junto ao rei, possa arranjar um vantajoso casamento para minha filha. E não se esqueça também de mencionar Constanza. Não quero deixá-la só neste mundo. Ela é jovem e bela. Não será difícil encontrar um rico nobre que se interesse por minha viúva. Fui egoísta mantendo-a ao meu lado por todos esses anos. Constanza merece um esposo a altura dela, que possa dar-lhe tudo que ela merece. Creio que assim posso morrer em paz, sabendo que as duas mulheres que mais amei na vida estarão amparadas e felizes.
   Um nó se formou na garganta de Miguel ao ouvir o pedido de D. Alonso. Em sua mente, arrumar um novo esposo para Constanza seria a melhor solução para todos, mas seu coração, ao contrário, pulsava mais e mais forte ao imaginá-la nos braços de outro homem.
   Deixou o quarto secando a testa marejada de suor. Teve que se amparar na parede para não cair. Uma vertigem lhe acometeu escurecendo a visão. Ódio. Sentia profundo ódio de tudo. De D. Alonso, de Constanza e de si mesmo.
   Cambaleante foi se arrastando até o quarto onde, sabia, ocuparia naquela noite. Precisava se deitar. Acalmar seu coração e sua mente que era invadida pela lembrança das ardentes noites de amor que tivera com ela. “Maldita! Maldita!”. Repetia para si mesmo tentando afastar as imagens que faziam pulsar todo seu corpo já fragilizado pelo mal súbito. Respirou fundo e engoliu seco quando alcançou a porta do quarto. Deteve-se por mais alguns instantes ao ouvir o farfalhar de saias e anáguas vindo em sua direção.
   _Miguel! O que houve, meu amor? – Constanza correu para ampará-lo.
   _Estais fraco e febril – ela constatou – também não voltaste para o almoço. Certamente esses pobres diabos não lhe ofereceram uma decente refeição.
   Ela o ajudou a entrar no quarto e a se sentar na enorme cama enquanto falava sem parar.
   _Não podes continuar a jejuar e se penitenciar deste modo. Ninguém vive só de oração.
   E antes que ele pudesse dizer alguma coisa, ainda amargurado com seus pensamentos mais íntimos, ela chamou pela criada, pedindo a ela que providenciasse uma sopa para o padre que não se sentia bem. Descalçou-lhe as sandálias, fazendo-o se deitar, e secava seu rosto empapado de suor com uma toalha de linho úmida.
   Recostado na cama e em silêncio, D. Miguel tomou a sopa que a própria Constanza lhe oferecia as colheradas.
   _Estou muito magoada contigo, Miguel. Relegaste-me. Não vieste me ver à tarde. Mas dói meu coração vê-lo assim tão fraco. Sonho com o dia em que poderei cuidar de ti como mereces. Sofro ao sabê-lo por essas estradas, dividindo o pouco que possuis com esses miseráveis. Privado de toda sorte de conforto.
   Ela afagou-lhe os cabelos ainda molhados de suor.
   _Amo-te tanto! Sei que Ramón prepara sua viagem para Sevilha. Alonso o convenceu mesmo a buscar a freirinha, não foi? Mas tudo pode ser diferente, meu amor – ela se achegou para mais perto de seu rosto.
   _Fujamos nós. Tenho muitas jóias. Elas nos proverão por algum tempo longe daqui. Talvez pudéssemos procurar por Carlos de Navarra, em Pamplona. O rei certamente nos acolheria. Disseste-me que ele sempre o tratou como a um irmão.
  _Não sabes o que dizes mulher – o padre finalmente a interrompeu, afastado-a – Carlos jamais aceitaria que eu quebrasse meus votos. E eu não o envergonharia com a minha desonra.  
   _É desonra me amar, Miguel? É isso o que pensas? – Constanza deixou a cama visivelmente exaltada – acaso mataste teu coração quando fizestes teus votos? Deixas-te de ser homem?
   _Meu coração deveria estar cheio de amor. Mas amor por Cristo. Não cheio de pecado e podridão!
   _Culpas-me por tua desgraça?
  _Não. Sou um desgraçado desde o dia que nasci. Vago desgraçadamente procurando pela paz de espírito que um dia perdi, em vão. O conforto e o carinho que meu corpo encontra em seus braços dilaceram-me a alma. Sou duas vezes pecador, porque deveria levar os homens para o caminho da salvação e insisto em andar de encontro ao inferno. Sou o único culpado por nossa desdita. Mas isso terá um fim. Vou a Sevilla com a incumbência de lhe arranjar um ditoso casamento assim que enviuvares, a pedido de D. Alonso. Terás finalmente um homem que a mereça e poderá lhe dar o amor e a segurança que necessitas.
   _Não podes estar falando a verdade – ela o encarou arregalando os olhos, indignada com a revelação e se jogou aos pés da cama chorando em desespero:
   _É a ti que amo! É contigo que quero passar o resto de meus dias. Não terás coragem de me jogar nos braços de outro homem. Terás Miguel? Prometeu-me largar a batina. Casar-te comigo. Não podes simplesmente se livrar de mim agora me prendendo a outro casamento. Não posso acreditar que mentias para mim todo esse tempo.
   A jovem senhora deixou-se cair sobre a cama e chorava convulsivamente. Todos os seus sonhos de ventura ao lado de Miguel estavam se esvaindo. Era triste constatar que ele havia mentido e se aproveitado de seu amor todos esses anos. O silêncio dele era mais cortante que o fio de uma espada, retalhando-lhe o coração ao vê-lo impassível diante da dor e do sofrimento que sentia.
   Depois de algum tempo, já refeita, ela se levantou para deixar o quarto readquirindo o porte altivo que sempre possuiu. De seus olhos saiam faíscas quando ela o encarou:
   _Eu o amei Miguel. Mas agora aprenderei a odiá-lo. Há de se arrepender amargamente por tudo o que me fez sofrer. Há de desejar o inferno só para escapar de minha ira!
  _Constanza! – Miguel assustou-se com o rancor e o ódio que ela imprimiu em suas palavras.
   _Senhora Constanza de Averne Y Cortéz para vós, Dom Miguel – e bateu a porta atrás de si.
   Ele deixou-se cair na cama, exausto. Não era assim que ele desejava acabar. Ela precisava perdoá-lo. Como seu confessor era seu dever ensinar-lhe o perdão, mostrar que os caminhos de Deus sempre nos conduzem com segurança para a felicidade plena. O que pode parecer o fim se descortinará mais adiante como obra da Providência Divina. Ele mesmo se esforçava para crer nisso. A verdade era que estava completamente desatinado com a idéia de vê-la nos braços de outro homem. Um novo casamento, um novo marido. E se ela viesse a se apaixonar por esse outro? Ele poderia conviver com o ódio dela, mas não com outro amor em sua vida. Constanza era sua. Ela lhe pertencia. Era a ele que ela amava. E nada, nem ninguém, poderiam mudar isso.
   Era madrugada e ainda não tinha conseguido conciliar o sono. A imagem de Constanza, bela e sedutora, nos braços de outro homem, o atormentava. Ele precisava fazer alguma coisa antes que enlouquecesse. Não conseguia se concentrar em suas orações. Seu corpo ardia de desejo justificando-se que seria só mais uma vez. A derradeira antes que seus caminhos se separassem. E se penitenciaria pelo resto de seus dias por mais um deslize. Aliás, já estava mesmo fadado ao fogo do inferno. Deixou o quarto em direção ao fim do corredor. Forçou a fechadura e ela não estava trancada. Deliciou-se ao ver os contornos do corpo de mulher sobre a cama, através da pálida claridade da lua que entrava pelas janelas abertas, filtrada pelas finas cortinas.
   Enfiou-se sob as cobertas procurando pelo calor do corpo dela. Beijou-lhe a nuca e a ouviu suspirar. Sussurrou em seu ouvido: és minha e para sempre será. Desejo-lhe mais que a vida.
Constanza se virou e ele pode ver que ela sorria antes de se perderem em longos beijos cheios de desejo e volúpia.



                                                     # # # continua na próxima semana # # #