Conto em Gotas


       Dívidas do Passado
 
O dia amanheceu e Amanda sentiu-se aliviada. Estava chegando a hora de deixar tudo para trás: a cidade, a faculdade, a tristeza... “Quem sabe se esses dias na fazenda não sirvam para que eu esqueça o Bruno e consiga voltar a dormir em paz?!”
Porém, apesar de todo o esforço que fazia para acreditar em suas palavras, ela sabia que não seria tão simples. Sentimentos confusos a perturbavam.  
Desde que deixara o hospital, passava as noites insones, relembrando cada detalhe do acidente que sobrevivera em sua mente, em uma tentativa inútil de odiá-lo. As brigas, as discussões, as terríveis cenas de ciúmes, as humilhações, tudo isso lhe dava a certeza de que era a hora de dar um basta, colocar um fim definitivo aquele namoro, mas algo dentro dela resistia. Acreditava que ainda sentia um enorme amor por ele, mas estava claro que, dessa vez, Bruno ultrapassara todos os limites. Perder a direção do carro durante umas de suas acaloradas discussões, não deixava dúvidas de que ele passara a ser um perigo para ela, e para ele mesmo.
Felizmente, o choque do carro contra a mureta de proteção da pista, rendeu ao namorado apenas algumas escoriações e um braço quebrado. Amanda, por sua vez, foi obrigada a passar algum tempo internada por conta de duas costelas quebradas e um profundo corte na cabeça que a deixou desacordada por muitas horas e, quando recobrou a consciência, estava confusa e reclamava de fortes dores de cabeça. Muitos exames foram feitos para encontrar a causa das dores. Entretanto, os exames revelaram que seu sistema neurológico não havia sofrido danos significativos, e com uma medicação e tratamento adequados, elas certamente desapareceriam. As dores realmente amenizaram e todos tinham a certeza de que em pouco tempo elas sumiriam definitivamente.
Mas isso é passado. Ou era assim que ela queria pensar. Bruno e seu ciúme doentio eram página virada, e aquela viagem serviria para isso: virar a página e ficar fora do alcance dele nos próximos dias, na tentativa de que, com o tempo, ele acabasse aceitando o rompimento e parasse de procurá-la.
Ainda faltavam algumas horas para que seus tios viessem buscá-la, e ela aproveitou esse tempo para conferir a bagagem e melhorar a aparência. Estava horrível! As noites mal dormidas e o choro incessante haviam deixado profundas marcas sob seus olhos.
Foi até a cozinha e ligou a cafeteira. Certamente um café lhe daria mais ânimo. Tomou um banho como se quisesse lavar até a alma. Poderia ficar debaixo daquela água quente pelo resto da vida, mas o café já estava pronto.
Quando chegou a cozinha, Leda, sua mãe, já estava sorvendo sua fumegante xícara:
_Não dormiu de novo, filha? Ou caiu da cama por que está louca para se embrenhar no mato? – Leda brincou, pois sabia que ela não apreciava a vida no campo e estava se esforçando para aceitar que aqueles dias longe da cidade era a melhor opção que elas tinham no momento.
_Talvez não seja tão ruim quanto a gente imagina. E eu preciso ir. A senhora não disse que pode contornar as coisas aqui se eu ficar longe?
_Quanto a isso não se preocupe. Posso dar conta desse fedelho. Ele que não me irrite ou ainda dou queixa dele por tentativa de homicídio culposo. Tenho todos os laudos da perícia e do hospital. Se ele não nos deixar em paz por bem, será do meu modo.
_Mãe! A senhora me prometeu...
_E me arrependo dessa promessa – interrompeu a mãe, visivelmente irritada – se eu tivesse feito isso logo naquela noite, o Bruno não estaria te mantendo acuada dentro de sua própria casa. Ligando o dia todo, aparecendo na portaria nas horas mais inconvenientes...
E mudando o tom, vendo os olhos de Amanda se enxerem de lágrimas, Leda se levantou da mesa e foi abraçar a filha que estava apoiada na pia da cozinha:
_Ah, Amanda! Não fique assim, tudo isso vai passar. Vá viajar com seus tios, seus primos. Esqueça esse Bruno que não serve para você. Que vida pretende ter ao lado de um homem que não a deixa nem olhar para os lados? Que não confia em você? Que não é capaz de valorizar a moça maravilhosa que é?
Leda pretendia recomeçar a velha ladainha de que Bruno não servia, mas foi interrompida pelo telefone. “Será que é o Bruno de novo?” E por mais que tentasse esconder sua preocupação e se mostrar forte diante a situação, o som da campainha a fez tremer assim como a filha ainda em seus braços. Respirou fundo, beijou a testa da moça, passando-lhe confiança, e foi atender.
_Oi, Marise! – disse em voz alta para que a filha ouvisse e se acalmasse.
Amanda, por sua vez, soltou a respiração que mantinha suspensa e foi para a varanda acender um cigarro. “Preciso parar de fumar”. Sempre repetia isso a si mesma cada vez que acendia o isqueiro. Mas acabava se conformando com sua fraqueza diante do vício. O cigarro havia se tornado o companheiro de suas horas alegres, e estava lá quando ninguém mais estava. Quando o mundo parecia tê-la esquecido. E mesmo sabendo o mal que ele causava, tentava se convencer que o vício era uma doença, no seu caso, genética, pois todas as mulheres de sua família fumavam.
O dia estava lindo. A cerração da manhã se dissipando e o sol avançando pela varanda do apartamento. Com o pouco trânsito lá em baixo, podia-se ouvir o mar batendo e sentir a maresia.
_Vou sentir falta dessa vista. Desse cheiro. Até do barulho dos carros lá em baixo!
_Ah! O que eu não daria por um pouco de silêncio! – respondeu a mãe que chegava e também ascendia seu cigarro – não quer trocar?
_A senhora na fazenda?! – estranhou Amanda – sei que detesta mato tanto quanto eu. Só vou para que o... a senhora sabe quem, me deixe em paz. E também tem as meninas. A Rafaela disse que há uma cidade próxima. E lá deve haver vida inteligente.  Além do mais, se eu não gostar, pego um ônibus e volto.
E depois de apagar o cigarro no cinzeiro, perguntou?
_E o que a tia Marise queria? Não me diga que desistiram de viajar?
_Sua tia disse que vai se atrasar. A casa dela está um pandemônio. Seu primo vai levar uns amigos e aquelas vizinhas do andar debaixo também vão.
_É melhor assim mamãe. Quanto mais gente melhor. Seria deprimente ficar todos esses dias afastada do mundo.
_Ainda não entendi o que deu no seu tio para investir tanto dinheiro em uma fazenda no meio do nada – Leda deu os ombros – não seria bem melhor que ele tivesse levado a esposa para um tour pela Europa? Não conheço modo melhor para descansar e recarregar as baterias. Fazenda?!? O que o Carlos entende disso?  Surpreenderia-me se soubesse a diferença entre uma cabra e um bezerro.
Amanda não pode segurar o riso. Realmente era difícil imaginar o tio, um conceituado cirurgião, que passou a vida toda entre livros, congressos e universidades, desdobrando-se entres várias clínicas e hospitais até finalmente afirmasse na carreira e abrir a própria clínica, sentado sobre um cavalo, apartando gado.
_Não posso perder o tio Carlos, sempre tão limpinho e engomado, com os pés afundados em bosta de cavalo.
_Tenho é pena de sua tia que agora vai ser obrigada a passar seus fins de semana, suas férias no meio do nada. E pelo visto, com a casa cheia. Poderíamos ter investido na expansão e modernização da clínica, mas esse meu irmão foi muito egoísta. Só pensou nele.
_A senhora que também precisa parar de pensar só em trabalho. Tirar umas férias. E a tia Marise me parece bem animada com essa viagem e curiosa para conhecer a tal fazenda dos sonhos que o tio Carlos não se cansa de falar.
_Ou está louca para que o Carlos caia logo em si e perceba a besteira que fez. Uma fazenda tombada pelo patrimônio histórico! Desde quando seu tio se preocupa com isso?
Amanda desistiu de argumentar com a mãe. Era inútil. Ela própria não teria aceitado o convite se tivesse outro lugar para se esconder até as coisas se acalmarem. Bruno a acharia com facilidade se fosse para a casa que tinham na serra, e sair do país estava fora de cogitação. Não poderia se ausentar por muito tempo, pois logo as férias acabariam e já havia perdido muitas matérias do semestre passado por conta de sua internação e recuperação. Sua mãe costumava brincar que esse período tinha sido um ótimo estágio como paciente, assim, quando se formasse, saberia exatamente o que seus próprios pacientes estariam passando. E todo bom médico deve tratar o paciente como um ser complexo e não só se limitar a tratar doenças. E era exatamente o modo como a mãe encarava o exercício da medicina que a havia feito se apaixonar pela carreira. Mesmo sabendo o quanto ela é feita de abdicações e sacrifícios.
Duas horas mais tarde, Rafaela interfona avisando que a estavam esperando lá em baixo. Leda acompanhou Amanda ajudando a carregar uma das enormes mochilas que a filha levava. “Nunca se sabe o tempo que encontrariam no interior”.
Depois de todas aquelas recomendações que só as mães sabem fazer, o irmão partiu, seguido por outra pick-up, guiada por Maurício, levando o filho de Marise, Júnior, seu colega, Adriano, e as duas irmãs, Luíza e Ana Clara, vizinhas de prédio.  
Amanda, Rafaela e a caçula Renata, viajavam no banco de trás conversando animadamente, enquanto Carlos e Marise discutiam por causa do trânsito que estava infernal naquela manhã de sábado.
_Parece que todo mundo resolveu viajar hoje. Olha esse engarrafamento! – Inconformado, batia os punhos no volante – eu disse que queria sair cedo.
_Não tenho culpa se seus filhos não colaboraram. Não foi uma boa idéia concordar que esses meninos dormissem lá em casa. O que eu pensei que agilizaria, acabou por atrasar tudo. Você não viu a bagunça que eles fizeram?
_Não ponha a culpa nas crianças. Você deixou para fazer as malas hoje – tamborilava os dedos esperando o carro da frente se movimentar.
_Mentira. Faltavam apenas as coisas que ainda usaríamos agora pela manhã. E você que passou horas no banho?
_Estava me barbeando.
_Pra quê? Não precisa se barbear com tanto esmero pra ir a uma fazenda. Lá só tem vaca e elas não reparam nisso.
_Barbeasse é questão de higiene. E não demorei mais no banho que você. E o tempo que levou para secar esse cabelo?!? Isso era mesmo necessário?
_Meu cabelo sem um secador fica horrível!
_As vacas não reparariam nisso, Marise!
E assim prosseguiram por mais de cem quilômetros até entrarem em uma estrada vicinal de terra.
_Tem certeza de que a estrada é essa? Não vi nenhuma placa – Marise procurava pelo mapa do estado no porta-luvas.
_Acha que eu não sei o caminho de minha própria fazenda?
_Você só veio aqui uma vez. E nem acha sua maleta pela manhã.
_Culpa dessa sua empregada que esconde tudo. Sempre deixo sobre a mesa da sala de jantar. No dia seguinte ela já sumiu.
_Ela tem que arrumar a mesa do café. Você que passe a deixá-la em outro lugar.
Carlos continuou a falar e a esposa simplesmente não mais o respondeu. Voltou-se para a janela do carro e distraiu-se com a paisagem.
Depois de tantos solavancos e poeira que não mais permitia ver o carro da trás, Amanda começou a se arrepender de ter vindo. Renata, de cinco em cinco minutos, perguntava se já estavam chegando. Rafaela implicava com a impaciência da irmã e o pai reclamava com a mãe do comportamento das filhas. Diante de todo aquele stress, ela resolveu ficar calada e rezar para que pudesse sair logo de dentro daquele carro. Perguntou-se se não seria mais divertido ter vindo no outro carro. Mas lembrou-se de quanto o Júnior e aquele seu colega eram imaturos, e as bobagens que não estariam falando para se exibirem. Começou a sentir pena de Maurício, que deveria estar com vontade de jogar o carro contra o barranco só para os fazerem calar. Ele deveria mesmo gostar muito da Rafaela para se sujeitar aquele programa de índio, pena que ela não dava a mínima para ele. 
O carro parou de repente e Renata saltou do banco.
_Chegamos?! Até que enfim!
_Seu pai foi abrir a porteira – respondeu a mãe abrindo o vidro – tenha um pouco mais de paciência.

# Continua na próxima semana #

1 comentários:

O texto é otimo pena que só continue semana que vem, pois quando é gostosa a leitura não gosto de parar de ler por imposição da autora, que agora me deixou curioso e aflito por ter que aguardar a proxima semana.

 

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