Conto em Gotas


          Dívidas do Passado -  3ª parte

    A sala de jantar, que ficava separada da sala de visita apenas por
grossos e um tanto surrados tapetes que delimitavam o espaço, possuía
uma mesa de doze lugares, com cadeiras de espaldar alto entalhados em
madeira. A cristaleira, contra a parede que fazia divisória com a
cozinha, exibia belas e raras peças de cristal de diversas cores,
formatos e utilidades, mas que no momento serviam apenas para mostrar
o bom gosto, o luxo e a opulência que aquela fazenda viveu no século
passado, sendo a residência de um dos mais abastados barões do café,
senhor de muitos escravos e terras a perder de vista. E ele estava lá.
     Do outro lado da sala, retratado em óleo sobre tela, como a tomar
conta de tudo que já tinha sido seu um dia. Rosto angular de maçãs
salientes, lábios finos escondidos por um longo e bem aparado bigode.
Porém, nem suas roupas, nem o fundo da tela que parecia ser a fachada
da própria casa chamavam mais atenção que seus olhos. Profundos,
escuros, que constrangedoramente, pareciam seguir os movimentos de
qualquer um que ousasse adentrar seus domínios.
     _Não gosto desse homem me olhando – reclamou Marise assim que se viu
de frente ao retrato.
     _Bobagem, Marise! – reclamou Carlos – é só um quadro. E pelo que andei
sondando, é um antigo proprietário da fazenda. Barão de Taguariuna, se
não me engano. Essa pintura aí foi feita por um artista francês famoso
na época. Deve valer mais que meu carro lá fora.
     _Caro ou não, famoso ou não. Não quero esse homem mal encarado me
olhando pra onde quer que eu vá. Peça então para guardarem seu valioso
barão em outro lugar, bem longe de mim.
     O assunto foi encerrado pela algazarra dos meninos que entravam e
começavam a tomar seus lugares a mesas.
     Amanda voltou da cozinha e se sentou calmamente ao lado da prima.
     _Onde você estava?
     _Na cozinha tomando um copo d’agua.
     _Você está bem? – perguntou desconfiada. Amanda estava muito diferente
de minutos atrás. Calma, serena, como se nada tivesse acontecido.
     _Com fome. E doida para acabar o almoço e poder sair por aí para
conhecer o lugar. Você vem comigo?
     _Pode ter certeza, Amanda, serei sua sombra a partir de agora. Você
não vai fazer nada, ir a lugar nenhum, sem que eu esteja grudada em
você. E a propósito, levei suas coisas para o meu quarto. Não quero
você naquele mausoléu assombrado sozinha.
     _Que mausoléu? – Amanda riu das palavras da outra.
     Rafaela continuaria aquela conversa se Maurício, que acabava de tomar
seu lugar a mesa, não tivesse interferido balançando a cabeça
negativamente para que ela não levasse aquele assunto à diante. Não
era do feitio dela aceitar ordens assim tão mansamente, mas diante da
situação totalmente inusitada, ela preferiu esperar o almoço terminar
para saber dele o que mais tinha conhecido. O que ele havia feito para
que a prima aparecesse assim tão calma e aparentemente normal.
     Júnior e Adriano sentaram-se entre Ana Clara e Luíza, amigas de
Renata. Além de vizinhas, estudavam no mesmo colégio. Ana Clara era a
mais velha que as outras duas, não sendo assim tão próxima a elas, mas
tinha decidido vir porque via nessa viagem sua grande chance de se
aproximar de Júnior, que havia se tornado um rapaz bonito e despontava
como um ótimo partido.
     Adriano era disputado lealmente por Renata e Luíza, o que deixava
aquele rapaz já metido e mimado, ainda mais envaidecido. E como nunca
se decidia por nenhuma das duas, estava livre para todas as outras
garotas.
     Maurício, bem mais velho que todos os outros, aceitou o convite por
dois motivos: primeiro porque foi um pedido da Drª Leda, chefe de sua
equipe de residentes, para que ele acompanhasse Amanda de perto.
Depois do acidente e de todas as suas complicações ela se sentiria
mais segura sabendo que o melhor de seus pupilos cuidaria da filha.
Embora seu irmão também fosse médico, a relação dos dois estava um
tanto estremecida com as constantes discussões sobre a compra da
fazenda, que ela sempre foi contra, ou a modernização da clínica. E
orgulhosa, não queria pedir esse favor ao irmão. Ele por sua vez
também alardeava aos quatro ventos que estava saindo de férias, queria
descansar e esquecer o resto do mundo. Leda sempre viu nesses avisos,
um recado para que ela não jogasse a responsabilidade pela saúde da
filha sobre ele.
     E segundo porque Rafaela estaria lá. Desde que passou a trabalhar na
clínica do pai dela, cada vez que se cruzavam nos corredores seu
coração batia mais forte. Nunca tentou se aproximar dela ou se
declarar. Sabia que ela tinha um namorado e que era apaixonada por
ele, Ao ponto de manter esse relacionamento mesmo a contra gosto dos
pais que viam no tal Julinho um aspirante a marginal. E era justamente
por esse motivo que resolveu esperar calado. Uma hora a própria
Rafaela veria que merecia mais que aquele cara sem estudo, sem
trabalho, que vivia à custa da família, pegando onda pela manhã e
circulando pela noite, muitas vezes, com outras garotas.
     Marise estava preocupada. Eram muitos hormônios em ebulição para dar
conta. Tinha que mantê-lo sob vigilância. Começava a se arrepender por
ter permitido que todos viessem. Era muita responsabilidade tomar
conta dos filhos dos outros. E principalmente de Ana Clara. Percebia o
interesse da moça por seu filho nos últimos tempos. As caras e bocas
que fazia para chamar sua atenção. O jeito matreiro com que se
insinuava para ele, e isso não a agradava. Júnior só tinha dezenove
anos para ser enredado por uma garota tão ardilosa e interesseira. Seu
coração de mãe apertava-se cada vez que ouvia a moça chamar pelo
filho.
     Carlos, alheio a toda essa confusão, só pensava em curtir cada
momento. Aquela fazenda era a realização de um sonho. Um sonho que
havia surgido de repente é bem verdade, mas que havia dado um novo
rumo a sua vida que já lhe parecia monótona. Trabalho, esposa, filhos.
Ele havia se empenhado tanto, estudado e trabalhado tanto, que
acreditava merecer realizar todos os seus caprichos.
     Depois do almoço os mais novos foram para a sala. Haviam trazido
alguns jogos de tabuleiro. Costumavam passar as tardes jogando e
aquela tarde não seria diferente. Estavam muito cansados para um tour
pela fazenda, e não havia pressa em fazer isso já que teriam muitos
dias para conhecerem tudo por lá. Maurício também foi para a sala,
tendo um livro como álibi, podendo assim vigiar os passos de Rafaela e
da prima.
     Carlos e a esposa foram chamados até a varanda, onde conversavam com o
administrador sobre algumas pendências.
Amanda e Rafaela foram para o quarto com a intenção de trocarem de
roupa e dar uma volta pelas redondezas, mas acabaram deitando para
conversar e o cansaço as dominou.
     O burburinho da água escorrendo por entre as pedras só era quebrado
pelo canto de algum pássaro nas proximidades. Mas a ansiedade não
permitia admirar toda a exuberância da paisagem ao redor. O imenso
bambuzal, os delicados e coloridos Beijinhos que nasciam na beira do
riacho.
     A cada minuto que se passava mais oprimido ficava seu coração: “ele já
devia ter chegado”.
     Olhava ao redor e nada mexia a não ser a água se esgueirando por entre
as pedras.
     _Onde estais, meu amor?
     Dizendo isso, Amanda acabou acordando assustada.
     _Esperando pelo “você sabe quem”? – perguntou Rafaela ainda sonolenta.
     _Não estou esperando por ninguém. Acho que sonhei - E sentando-se na
cama – continuou querendo reter as imagens do sonho em sua memória.
     _Que lugar lindo! Uma cachoeira, flores, passarinhos cantando... eu
esperava por alguém.
     _Pelo Bruno... sei...
     _Que Bruno que nada! – irritou-se com a insistência da outra, mas logo
voltou a divagar com as reminiscências do sonho – era alguém muito
especial. Mas eu estava aflita. Sinto meu peito doer até agora. Uma
queimação estranha no estômago, um vazio. Não sei explicar.
     _Todo esse ar puro não está te fazendo muito bem. Por que não dá umas
tragadinhas naquele seu cigarro fedorento? Seu mal é falta de nicotina
no cérebro. Mas faz isso lá fora. Não vai empestear todo o quarto.
     _Você tem razão. Preciso sair. Fumo no caminho da cachoeira.
     _Que cachoeira?! Você tá doida?!
     _Tem uma cachoeira aqui, Rafaela. Em algum lugar eu sei que tem um
caminho cheio de bambus e eu vou achar!
     Levantou-se, pegou o maço de cigarros dentro da bolsa e foi saindo.
     _Você está me assustando – disse a prima ao vê-la decidida em frente à porta.
     _Também estou assustada – respondeu dando alguns passos de volta – vêm comigo?
     Ao cruzarem a sala, Maurício as interpelou:
     _Aonde vão com tanta pressa?
     _Procurar uma cachoeira – respondeu Rafaela sem se deter, sendo
arrastada pela prima.
     _Posso ir também?
     _Por favor, Maurício! Amanda enlouqueceu de vez!
     Circularam a casa enquanto Amanda parecia procurar por um ponto de partida.
     _Onde é? Onde é? – perguntava-se.
     _Afinal, o que estamos procurando mesmo? – perguntou o jovem médico.
     _Um bambuzal. Tem um bambuzal no caminho, eu sei – Respondia andando
em círculos.
     _Tem um bambuzal atrás daquela construção – respondeu apontando para a
esquerda - a antiga senzala.
     Maurício sentiu-se ligeiramente desconcertado com o que havia dito.
Ele ainda não havia passeado pelo local. Como poderia saber disso? Mas
era algo de que ele tinha certeza. Um bambuzal atrás da senzala. E ao
repetir isso mentalmente sentiu um arrepio correr-lhe pela espinha.
     Rafaela não parava de olhar, hora para a prima, hora para o rapaz,
totalmente confusa. “O que está acontecendo com todo mundo?
Enlouqueceram?”.
     Amanda ofereceu sua mão a Maurício e seguiram na direção apontada por
ele, deixando Rafaela para trás sem saber o que fazer. Seguia os dois
malucos mato adentro, ou voltava e pedia ajuda dos pais? Na dúvida,
correu para alcançá-los. Eles precisariam de alguém com juízo por
perto.
     Pararam em frente a uma construção de pedra que ficava mais de um
metro longe do chão sustentada por grossas pilastras de pedra e barro.
Sob ela, terra batida, e presa as pilastras, correntes e argolas que
certamente serviram para prender e castigar escravos rebeldes. Com o
mato alto circundando o local, foram obrigados a se abaixarem e passar
por baixo do assoalho de madeira apodrecido.
     Logo avistaram os enormes bambus. Eles margeavam uma estradinha de
terra, formando um verdadeiro túnel de bambus gigantes, cobrindo o
chão com suas folhas secas. Abaixo deles, mal se podia ver o céu.
     Amanda só conseguia ouvir o som de seu coração batendo forte e
descompassado. Apertou ainda mais a mão de Maurício, recebendo um
tímido sorriso dele encorajando a prosseguir.
     Andaram por uns dez minutos até chegarem à cachoeira. Era, na verdade,
algumas grandes pedras no leito do riacho por onde a água tinha que
esgueirar-se. Nos dias de chuva, o volume d'água aumentava e se precipitava das pedras, formando um belo espetáculo. Mas Rafaela estava
satisfeita com que via. Finalmente chegaram e nada de assustador havia
acontecido. Isso para ela já era motivo de júbilo.
     _Olha que lindo isso! Não é que a doida tinha razão?! – disse a
     Maurício que parou a certa distancia deixando Amanda livre para que
ela encontrasse o que procurava. O caminho ali se estreitava ainda
mais mostrando que não havia nada além. Eles certamente haviam chegado
ao lugar certo. Agora era esperar para ver o que acontecia.
     Livre das mãos do médico, Amanda caminhou quase que em transe até se
sentar em uma pedra na beira d’água.
     _Ele não veio - disse debilmente.
     _Ele? – Rafaela se adiantou – ele quem?
     Diante do silencio da prima, ela buscou pelo apoio de Maurício que
finalmente se aproximou das duas ajoelhando-se diante de Amanda.
     _Por quem esperas? – perguntou docemente, chamado a atenção dela.
     _Álvaro – duas lágrimas correram pelo rosto dela que continuava a
olhar para o nada.
     Um vento forte varreu o chão coberto de folhas e um calafrio
percorreu o corpo de Rafaela que puxou a prima pelos braços querendo
tirá-la daquele lugar funesto.
     _Vem, Amanda. Levanta daí.
     Maurício ameaçou a se levantar para ajudá-la quando uma mão o deteve,
tocando-lhe o ombro.
     _Leva a moça de vorta. E quando vortarem aqui, num tragam mais ninguém com ocês.
     Ele não teve tempo de ver quem era, mas reconheceu a voz de Dona Diva
e sua maneira peculiar de falar. Não saberia dizer se foi o tempo que
demorou para fazer Amanda voltar a si, ou a noite que caía, o fato que
a velha empregada não estava mais ali quando se voltou em direção à
estrada.
     Alheia, Amanda deixou-se ser levada pelos dois, que com passos
apressados e em silêncio, rumavam de volta à sede com a cabeça cheia
de interrogações e por que não, com um pouco de medo. 

                                     # continua na próxima semana #

1 comentários:

Parabéns!
muito bom esse conto, estou curioso para saber o final.

 

Enviar um comentário