Morte, Sangue e Solidão
- Uma História de Vampiro -
Epílogo
A última lembrança que tenho daquela malfadada noite é de minha casa em chamas. Eu assisti ela ser consumida pelo fogo sentada em um telhado próximo, na esperança de ver que Filipe havia escapado. Mas a aurora me surpreendeu e fui obrigada a buscar por um abrigo. Tudo levava a crer que ele finalmente tinha encontrado seu fim, mas eu não podia nem queria acreditar nisso. Eu o sentia próximo, mesmo que em silêncio. E por esse motivo não consegui deixar Paris. Ele precisava saber que eu estava vivendo muito bem longe dele. Fui acolhida por amigos. A pobre viúva, vitimada pela tragédia. Era divertido passar pela jovem sofredora. Enquanto lágrimas escorriam de meus olhos, cada vez que alguém vinha me prestar suas condolências, eu gargalhava por dentro. Pobres tolos! Não demoraria muito iriam encontrar com meu “finado marido” no campo santo. Eu me encarregaria disso. E foi numa dessas ocasiões, depois de acompanhar um cortejo fúnebre até o Cemitério dos Inocentes, retribuindo a gentileza da nova viúva, que descobri finalmente o paradeiro de Filipe. Que ironia! Foi se enterrar onde repousavam a maioria de nossas vítimas. A diferença que eles estavam em paz.
Logo Paris tinha perdido seu encanto, ou, na verdade, começava a ficar perigosa. Admito que comecei a ficar relapsa ,matando, um a um, todos que se aproximavam de mim, levantando assim, suspeitas sobre meu comportamento. Então ganhei o mundo novamente.
Também tenho que confessar que criei novos vampiros. Rapazes e moças que durante algum tempo me fizeram companhia. Eu era poderosa demais para não ter alguém por perto para admirar-me. A verdade é que eu me sentia sozinha. Filipe foi a única família que conheci, e longe dele tudo parecia tão sem sentido. Porém, logo eu descobria que meus “filhos” não eram bem como eu gostaria e não saciavam meu desejo de ter alguém ao meu lado. Com o passar do tempo ficavam distantes, preocupados apenas com suas próprias vidas, então eu os destruía ou, simplesmente, os deixava partir.
Conheci alguns outros vampiros. A maioria deles também se escondia em cemitérios ou viviam pelos guetos caçando os fracassados. Muitos se revoltaram, acreditando que eu era um perigo expondo-me, insistindo em viver como os humanos, fingindo ser um deles. Eu dizia que não era fingimento, eu estava viva e devia viver como tal. Nunca acreditei nas histórias fantasiosas sobre demônios, cruzes de prata e estacas no coração. Tudo isso não passava de lendas para pessoas ignorantes. E a maioria deles era.
Alguns, às vezes, me traziam notícias de Filipe que se tornou uma verdadeira lenda entre nós, conhecido por Filipe, o primogênito. Falavam dele como se ele fosse o messias, aquele que retornaria trazendo a cura e a libertação para nossa raça, o que acabaria com a “Maldição de Amom-Rá". E eu ria deles. Eu não era nenhuma amaldiçoada nem uma doente que precisasse de cura. Era fato que Filipe havia conseguido influenciar muitos de nós com suas idéias tacanhas e cheias de misticismo. Diziam que ele havia ido para a África, para o Egito, atrás de Otias. Irritava-me ouvi-los tratar a tal egípcia de ‘Grande Mãe”, e a reverência e a submissão que nutriam por ela. Por outro lado, toda essa devoção à ela e ao seu mais famoso “filho”, acabava me beneficiando. Salvou-me algumas vezes de ser destruídas por esses loucos maltrapilhos. Na visão deles eu infringia todas as regras vivendo de modo totalmente contrário aos ensinamentos de Filipe, tornando-me uma proscrita. Mas ao saberem que fui criada por Filipe, acabavam me deixando em paz temendo alguma represália, acreditando que ele próprio se incumbiria de meu fim. Ninguém que conheci ousava desafiá-lo. Mesmos os raros que não compartilhavam de suas idéias, reconheciam seu poder, capaz de destruir a todos nós.
E eu continuava meu caminho acreditando que Filipe estava feliz com sua egípcia. Afinal, eles se entendiam, eram iguais, e eu os desprezava.
Em meados do século XVII, conheci um vampiro chamado Dmitri. Ele não era um dos fanáticos seguidores de Filipe. Ao contrário, demonstrava um profundo rancor e desprezo por ele. Pleiteava para si o título de “O Primogênito”, embora não fosse filho direto de Otias e sim transformado por outro filho dela que não mais existia há alguns séculos. Dizia-se muito mais velho que Filipe e com isso, bem mais poderoso.
Cheguei até ele após receber um convite através de um enviado, também vampiro, quando eu ainda morava em Viena. E curiosa para conhecer alguém tão ou mais poderoso que Filipe, fui ao seu encontro.
Ele vivia em um castelo em ruínas nos Bálcãs, assombrando os camponeses da região. De sua antiga vida restara-lhe um pouco de polidez, já que suas roupas não passavam de trapos puídos ,cheirando a mofo. Tentava imaginar o porquê tinha uma vida tão miserável já que se dizia tão poderoso. Aparentava ter sido transformado já no auge dos seus cinqüentas anos, o que ele dizia ter sido um prêmio por bons serviços prestados.
Apesar de nunca deixar suas terras, mantinha-se informado sobre tudo que acontecia no mundo. Sabia muito sobre Filipe, e para minha surpresa, sobre mim.
O que Dmitri desejava era voltar ao mundo, à sociedade. Ele queria saber como era viver como eu. O que me deixou exultante. Finalmente eu começava a ter meus próprios seguidores. E um seguidor, diga-se de passagem, muito especial. Imaginei o quanto excitante seria aquela experiência. Levei-o para Paris, pois, se ele queria conhecer a fina flor da sociedade, não existia no mundo lugar melhor. Mas antes nos instalamos em Budapeste onde lhe comprei belas roupas e lhe dei um treinamento básico de como viver em sociedade, no mundo dos humanos, sem sermos notados.
Descobri nesse período que ele já não necessitava se alimentar com a periodicidade que eu ainda fazia e que dias nublados eram, para ele, perfeitos para passeios ao ar livre. Ele também nunca tinha se enterrado, e embora, a meu ver, tivesse hábitos bem extravagantes, essa falta de descanso não afetara sua sanidade. Mas o que realmente me deixou pasma foi descobrir que sexo não fazia parte de sua vida de transformado.
Não é preciso que eu diga o quanto ele ficou grato com tal descoberta. O que me foi também muito proveitoso, pois ele se transformou em um amante magnífico e adorava participar de minhas festinhas.
Creio que nunca fui tão feliz. Eu tinha alguém para partilhar meus segredos e meus prazeres. Alguém que me protegia, pois, depois que passei a viver com Dmitri, nunca mais fui importunada pelos ratos de Filipe. Eu gostava até de seu sotaque que lhe dava um charme ainda maior. Ele, por sua vez, sentia-se muito bem com sua nova vida, tornando-se cada dia mais conhecido entre os nossos, diminuindo assim, a fama do primogênito, o que eu intimamente também adorava. Além de ser tratada como uma princesa, cercada de todo o luxo e conforto que eu pudesse imaginar, tudo parecia perfeito até que descobri a verdade: o que Dmitri realmente queria era matar Filipe. E eu não passava de uma isca.
Dmitri, durante todo o tempo que vivemos juntos, caçava e torturava os simpatizantes de Filipe, sem que eu suspeitasse. Os que sobreviviam eram incumbidos de levar mensagens ao Egito ou onde quer que ele estivesse, dizendo que me tinha como refém, e que não me pouparia se ele não se entregasse.
E eu que me considerava muito esperta! Não passei de uma isca, uma criança tola que, enquanto preenchia meu tempo com futilidades, era traída. Que ódio senti quando interceptei a mensagem de um de seus lacaios! Nela, ele dizia ter se encontrado com meu Filipe nas terras além do Atlântico. Começava a fazer sentido o convite de Dmitri para uma viagem à America.
Mas o que eu poderia fazer contra um vampiro tão poderoso e seus asseclas? No bilhete ficava claro que Filipe aceitara se entregar com a condição de que eu fosse libertada e deixada na América longe de perigo. Não sei o porquê me surpreendi com a postura dele, eu deveria conhecer seu caráter nobre e seus princípios. Dmitri os conhecia e contava com eles para pegá-lo.
Talvez Filipe ainda me amasse o suficiente para tentar salvar minha vida. Entretanto, ele precisava saber que tudo aquilo era um blefe. Que eu não era uma prisioneira. Ou era? Será que dessa vez eu era o ratinho na gaiola?
Eu me sentia sozinha, desamparada e perdida. Então tive a idéia de procurar pelos simpatizantes de Filipe. Eles agora me odiavam ainda mais por viver ao lado de Dmitri, mas eu esperava que passassem por cima de nossas diferenças no intuito de salvar aquele que eles tanto admiravam.
Infelizmente nenhum deles acreditou em mim. Estavam certos de que não passava de mais um estratagema de Dmitri para exterminar todos os vampiros de uma vez só, colocando-os em um navio e ateando fogo a ele. Sem ajuda, decidi fugir. Voltar para a Inglaterra e esconder-me nas ruínas de Trajano ou quem sabe me enterrar na floresta de carvalhos. Lá eu certamente estaria segura, pois Dmitri não conhecia esse refúgio, e Filipe escaparia da emboscada, já que Dmitri não teria com o que barganhar.
Não tive mais notícias de Dmitri nem de Filipe por muito tempo vivendo escondida naquelas ruínas. Perdi o contato com o resto do mundo. Mas eu tinha uma certeza: Filipe ainda estava sobre a Terra, isso eu podia sentir. E era esse sentimento que me dava forças e resignação para continuar. Voltei para a cidade, não Londres ou Paris, mas uma cidadezinha aos arredores da ruína onde comprei uma bela casa. Minha esperança era retomar minha vida, voltar a ser o que eu era. E depois de tanto tempo afastada, achei melhor me readaptar primeiro. A Regra número 1 de se viver no meio dos humanos e agir como eles. E eles haviam mudado muito, o mundo já não era igual ao que eu conhecera. Porém, nada mais conseguia encantar-me. Nem o luxo, nem as jovens presas, as festas. Só a sede fazia com que eu saísse de meu repouso. Repouso esse que era cada vez maior: semanas, meses e depois anos.
Minha casa, abandonada e sem cuidados, começou a ruir e os antigos do lugar me chamavam de assombração. Eu havia me tornado o fantasma da antiga proprietária que viveu ali há mais de um século. Ninguém mais, ninguém menos, do que eu mesma. Não os recrimino. Minha aparência era realmente aterradora: roupas sujas e esfarrapadas, cabelos desgrenhados e enrugada como uma centenária. Só então me dei conta de quanto tempo havia passado. Nascia o século XIX.
Um dia, alguns homens começaram a demolir o que restou de minha vivenda e eu fui obrigada a deixar o lugar. Eu não sabia para onde ir, perdida no meio de tantas construções e tanta gente. Definitivamente muito pouco sobrara do mundo que eu conhecia, mas o bastante para eu ter um lugar onde ficar: o cemitério.
Assim que senti a terra sobre meu corpo uma onda de tristeza tomou conta de mim. Revi toda a minha existência: minha infância, os bailes de aniversário. Lembrei-me do Conde e de minha pobre Amélie. Tive a certeza de que daria toda minha eternidade para estar com eles novamente, pois foi ao lado deles que eu me sentia verdadeiramente amada. E descobri também que morreria tantas vezes fossem necessárias para ter Filipe outra vez comigo. Onde estaria ele? Ainda no Egito? Ainda procurando a cura? Lembrei-me do deus que ele tanto invocava a fim de me convencer que éramos demônios e rezei na esperança de que ele existisse e que fosse piedoso o suficiente para por um fim ao meu sofrimento e a minha solidão.
Ah Filipe! Que saudade de seus olhos azuis que me velaram por toda a vida! Olhos que me amaram e me desejaram, mas aos quais eu só retribuí com egoísmo, inveja e ingratidão. Não foram só as lembranças de minha vida humana que me tiravam a paz. Uma fila interminável de vítimas resolveu desfilar em minha mente, acusando-me e amaldiçoando-me por toda sorte de dor e sofrimentos que lhes causei.
Eu não suportava mais aquilo. Enlouqueceria se aquelas vozes não parassem de me atormentar. Pedi, implorei por perdão, porém nada os fazia calar. Talvez o Deus de Filipe realmente exista, porque foi o primeiro pensamento são que tive antes que começassem a cavar minha cova, despertando-me de minha loucura.
Eu estava fraca demais para impedir que me tirassem dali, então colocaram o que restava de meu corpo murcho e seco em uma urna.
Senti o deslocar da urna por longas distancias, sendo, vez ou outra, tirada de um lugar para outro. Mas tarde soube que eram carros o que me transportava. Até que fui colocada em um navio onde atravessei o mediterrâneo, sentindo a agradável dança das marés. Quando aportei em terra firme foi que eu o ouvi pela primeira vez em muitos séculos: “Bem vinda ao Egito, Anne”. Sua voz em minha mente foi como um bálsamo. Então enfrentei uma longa viagem nas caravanas do deserto. Mas ele estava perto, e minha vontade de revê-lo aumentava a cada metro.
Subimos o Nilo até Aswan, no sul do Egito. E em uma ilha submersa nas proximidades, ele estava a minha espera.
O templo de Ísis, na ilha de Philae, ficava submerso grande parte do ano, por conta da construção da barragem de Aswan. Mas no período de vazante do Nilo era ali que Filipe ficava, escondido em câmaras secretas, que nem os mais famosos arqueólogos foram capaz de descobrir, a espera de seus convertidos, para lhes mostrar o caminho da salvação. No restante do ano ele percorria o mundo levando a todos os vampiros a promessas de que poderia lhes dar uma vida melhor.
No interior de uma dessas câmaras minha urna foi finalmente aberta. Fecharia meus olhos se ainda pudesse mover minhas pálpebras para não ter que encará-lo. Eu sentia muita vergonha, nem tanto por minha aparência, que eu tinha conhecimento, eram das piores, mas por todas as coisas que tinha feito até ali e sabia, ele desaprovava.
_Não se envergonhe – ele disse com a suavidade capaz de adormecer as feras – estamos sozinhos e estás em casa. Desculpe-me por quebrar minha promessa e tê-la trago para cá sem seu consentimento. Mas era preciso.
A cada palavra dele, seus olhos azuis pareciam mais ternos, mais doces e envolventes. Ele ainda era o mesmo homem que havia criado com tanto amor sua sobrinha ingrata.
_Passaste tempo demais sob a terra – continuou sua explicação – precisas voltar ao mundo. Quero muito que conheças a verdade para que se liberte, Anne.
Ele passou as mãos pelos mesmos longos cabelos que agora estavam sob um chapéu feito de brim cáqui e prosseguiu eufórico:
_Otias finalmente descobriu toda a verdade. Ela própria morreu e renasceu, atestando que todos são eternos. Que não precisamos desses corpos para continuar vivos. Nem matar pessoas, nem animais, nada disso. Nossas almas, ou princípio inteligente, sempre existirão, habitando corpos ou não. Podemos sempre recomeçar de onde paramos. Sempre reencontrar aqueles que amamos. Pois não há laço mais forte do que o verdadeiro amor. E o melhor de tudo isso, podemos ser bem melhores do que éramos antes.
Os vampiros é que são seres que se prenderam a tudo que é passageiro. Á nomes, terras, títulos e riquezas. Tudo que temos que aprender a deixar para trás para seguir em frente.
Precisamos morrer para nascer de novo, Anne. Tudo que não conseguimos fazer em uma existência podemos tentar novamente. Nada se perde, tudo um dia volta ao seu lugar. Os bons serão sempre melhores, os maus, um dia deixarão de sê-lo. Nós somos a prova de que a morte não existe. Passamos por ela e continuamos a existir. Mas pagamos um preço muito alto por tentar manter esse corpo. Agarrando-nos as coisas desse mundo que, ele sim, é passageiro. Existem outros mundos além desse que conhecemos, e alguns bem melhores do que esse também.
Eu havia passado muito tempo enterrada, perseguida e enlouquecida pelos meus fantasmas, mas tudo que Filipe me dizia parecia muito mais confuso. Ou era ele quem estava irremediavelmente louco? Morrer para nascer? Outros mundos?
Mas ele continuava a falar inflamado, debruçado sobre a urna onde eu estava.
_Estamos sempre fugindo da podridão, mas tudo que colocamos a mão morre. E a única coisa que conseguimos é aprisionar nossa alma em um corpo já sem vida. Que seca sem sangue, deteriorando tudo o que de bom aprendemos antes de morrer. Somos obrigados a viver nas sombras para não secar e virar pó. Matar inocentes para sentir o calor da vida novamente. Quanto sofrimento desnecessário! Já poderíamos estar livres se quiséssemos. Mas a vaidade, a ilusão de poder nos mantém presos a essa vida de miséria, onde só se conhece a dor, a solidão e a morte que tanto nos apavora. Jamais seremos realmente felizes. Para que prolongar essa agonia? Para que disseminar essa verdadeira maldição pelo mundo?
Filipe se aproximou ainda mais de meu rosto, tocou levemente no que um dia tinha sido meus longos e sedosos cabelos castanhos, e continuou quase num apelo:
_Só poderemos estar realmente juntos se abdicarmos desse corpo! Preciso saber se é o que desejas: abdicar dessa ilusória eternidade para ficar comigo. Quero que saibas que nunca a abandonei ou a esqueci. Apenas dei-lhe tempo para que aprendesse o necessário. Tempo para que estivesse pronta a me seguir. Gostaria de ter evitado todo o sofrimento pelo qual passamos, mas para conseguir aceitar a mim e a minha missão, tive que aprender a aceitá-la primeiro. Entender que precisavas percorrer teu próprio caminho.
_Perdoaste-me? – tentei mandar uma mensagem mental no que creio que fui bem sucedida porque ele logo me respondeu:
_Sim, quando perdoei a mim mesmo.
_Ah, meu amado Filipe! Como senti sua falta! – teria me jogado nos braços dele se pudesse me mover - Diga-me o que preciso fazer para ficar ao teu lado.
_Não podes continuar desse modo – ele se referia ao meu corpo, um amontoado de ossos recoberto por um couro seco.
Filipe se levantou, deu uma volta em torno de si mesmo e voltando-se para mim novamente, sentenciou:
_Espero que Otias me perdoe por quebrar outra vez uma promessa. Antes de partir ela me deu todo o seu sangue para que eu não precisasse mais me alimentar e pudesse andar sem perigo sob o sol, facilitando assim minha missão. Então lhe prometi que não mais derramaria uma gota de sangue, nem mesmo o meu.
Olhou-me profundamente enquanto segurava minha mão.
_Não sairás mais do meu lado? Promete?
_Jamais – nem por todo o ouro e prazeres do mundo eu abandonaria aqueles olhos azuis.
Com sua unha, cortou a carne de seu pulso e levou-o a minha boca. Algumas gotas de seu poderoso sangue foram o suficiente para que eu me restabelecesse por completo em pouquíssimo tempo. Como uma bomba de ar, inflando meu corpo murcho.
A partir daquele dia eu percorri, junto com ele, o mundo levando a Boa Nova da Grande Mãe. Filipe falava a verdade. Eu a reconheci vivendo, já em idade bem avançada, uma nova vida, com outro corpo. Estivemos juntos ao seu funeral, sabendo que em breve ela retornaria novamente, para continuar sua evolução e rever os amigos que ainda caminhavam sobre a Terra, esperando que um dia não existissem mais vampiros. O dia que todos aceitassem que a vida é eterna, mas o corpo tem que perecer. Juventude eterna gera imaturidade eterna. A velhice e a morte do corpo trás importantes lições que todos têm que aprender. Esperando pelo dia que nós dois, eu e meu amado Filipe, poderemos também deixar essa Terra e continuar nossa caminhada. Não para a eternidade inerte, mas para o eterno aprendizado e crescimento.







