Conto em Gotas



 Morte, Sangue e Solidão 
       - Uma História de Vampiro - 
                                   Epílogo


A última lembrança que tenho daquela malfadada noite é de minha casa em chamas. Eu assisti ela ser consumida pelo fogo sentada em um telhado próximo, na esperança de ver que Filipe havia escapado. Mas a aurora me surpreendeu e fui obrigada a buscar por um abrigo. Tudo levava a crer que ele finalmente tinha encontrado seu fim, mas eu não podia nem queria acreditar nisso. Eu o sentia próximo, mesmo que em silêncio. E por esse motivo não consegui deixar Paris. Ele precisava saber que eu estava vivendo muito bem longe dele. Fui acolhida por amigos. A pobre viúva, vitimada pela tragédia. Era divertido passar pela jovem sofredora. Enquanto lágrimas escorriam de meus olhos, cada vez que alguém vinha me prestar suas condolências, eu gargalhava por dentro. Pobres tolos! Não demoraria muito iriam encontrar com meu “finado marido” no campo santo. Eu me encarregaria disso. E foi numa dessas ocasiões, depois de acompanhar um cortejo fúnebre até o Cemitério dos Inocentes, retribuindo a gentileza da nova viúva, que descobri finalmente o paradeiro de Filipe. Que ironia! Foi se enterrar onde repousavam a maioria de nossas vítimas. A diferença que eles estavam em paz. 
Logo Paris tinha perdido seu encanto, ou, na verdade, começava a ficar perigosa. Admito que comecei a ficar relapsa ,matando, um a um, todos que se aproximavam de mim, levantando assim, suspeitas sobre meu comportamento. Então ganhei o mundo novamente.
Também tenho que confessar que criei novos vampiros. Rapazes e moças que durante algum tempo me fizeram companhia. Eu era poderosa demais para não ter alguém por perto para admirar-me. A verdade é que eu me sentia sozinha. Filipe foi a única família que conheci, e longe dele tudo parecia tão sem sentido. Porém, logo eu descobria que meus “filhos” não eram bem como eu gostaria e não saciavam meu desejo de ter alguém ao meu lado. Com o passar do tempo ficavam distantes, preocupados apenas com suas próprias vidas, então eu os destruía ou, simplesmente, os deixava partir.
Conheci alguns outros vampiros. A maioria deles também se escondia em cemitérios ou viviam pelos guetos caçando os fracassados. Muitos se revoltaram, acreditando que eu era um perigo expondo-me, insistindo em viver como os humanos, fingindo ser um deles. Eu dizia que não era fingimento, eu estava viva e devia viver como tal. Nunca acreditei nas histórias fantasiosas sobre demônios, cruzes de prata e estacas no coração.  Tudo isso não passava de lendas para pessoas ignorantes. E a maioria deles era.
Alguns, às vezes, me traziam notícias de Filipe que se tornou uma verdadeira lenda entre nós, conhecido por Filipe, o primogênito. Falavam dele como se ele fosse o messias, aquele que retornaria trazendo a cura e a libertação para nossa raça, o que acabaria com a “Maldição de Amom-Rá". E eu ria deles. Eu não era nenhuma amaldiçoada nem uma doente que precisasse de cura. Era fato que Filipe havia conseguido influenciar muitos de nós com suas idéias tacanhas e cheias de misticismo. Diziam que ele havia ido para a África, para o Egito, atrás de Otias. Irritava-me ouvi-los tratar a tal egípcia de ‘Grande Mãe”, e a reverência e a submissão que nutriam por ela. Por outro lado, toda essa devoção à ela e ao seu mais famoso “filho”, acabava me beneficiando.  Salvou-me algumas vezes de ser destruídas por esses loucos maltrapilhos. Na visão deles eu infringia todas as regras vivendo de modo totalmente contrário aos ensinamentos de Filipe, tornando-me uma proscrita. Mas ao saberem que fui criada por Filipe, acabavam me deixando em paz temendo alguma represália, acreditando que ele próprio se incumbiria de meu fim. Ninguém que conheci ousava desafiá-lo. Mesmos os raros que não compartilhavam de suas idéias, reconheciam seu poder, capaz de destruir a todos nós.
E eu continuava meu caminho acreditando que Filipe estava feliz com sua egípcia. Afinal, eles se entendiam, eram iguais, e eu os desprezava.
Em meados do século XVII, conheci um vampiro chamado Dmitri. Ele não era um dos fanáticos seguidores de Filipe. Ao contrário, demonstrava um profundo rancor e desprezo por ele. Pleiteava para si o título de “O Primogênito”, embora não fosse filho direto de Otias e sim transformado por outro filho dela que não mais existia há alguns séculos. Dizia-se muito mais velho que Filipe e com isso, bem mais poderoso.
Cheguei até ele após receber um convite através de um enviado, também vampiro, quando eu ainda morava em Viena. E curiosa para conhecer alguém tão ou mais poderoso que Filipe, fui ao seu encontro.
Ele vivia em um castelo em ruínas nos Bálcãs, assombrando os camponeses da região. De sua antiga vida restara-lhe um pouco de polidez, já que suas roupas não passavam de trapos puídos ,cheirando a mofo. Tentava imaginar o porquê tinha uma vida tão miserável já que se dizia tão poderoso. Aparentava ter sido transformado já no auge dos seus cinqüentas anos, o que ele dizia ter sido um prêmio por bons serviços prestados.
Apesar de nunca deixar suas terras, mantinha-se informado sobre tudo que acontecia no mundo. Sabia muito sobre Filipe, e para minha surpresa, sobre mim.
O que Dmitri desejava era voltar ao mundo, à sociedade. Ele queria saber como era viver como eu. O que me deixou exultante. Finalmente eu começava a ter meus próprios seguidores. E um seguidor, diga-se de passagem, muito especial. Imaginei o quanto excitante seria aquela experiência. Levei-o para Paris, pois, se ele queria conhecer a fina flor da sociedade, não existia no mundo lugar melhor. Mas antes nos instalamos em Budapeste onde lhe comprei belas roupas e lhe dei um treinamento básico de como viver em sociedade, no mundo dos humanos, sem sermos notados.
Descobri nesse período que ele já não necessitava se alimentar com a periodicidade que eu ainda fazia e que dias nublados eram, para ele, perfeitos para passeios ao ar livre. Ele também nunca tinha se enterrado, e embora, a meu ver, tivesse hábitos bem extravagantes, essa falta de descanso não afetara sua sanidade. Mas o que realmente me deixou pasma foi descobrir que sexo não fazia parte de sua vida de transformado.
Não é preciso que eu diga o quanto ele ficou grato com tal descoberta. O que me foi também muito proveitoso, pois ele se transformou em um amante magnífico e adorava participar de minhas festinhas.
Creio que nunca fui tão feliz. Eu tinha alguém para partilhar meus segredos e meus prazeres.  Alguém que me protegia, pois, depois que passei a viver com Dmitri, nunca mais fui importunada pelos ratos de Filipe. Eu gostava até de seu sotaque que lhe dava um charme ainda maior. Ele, por sua vez, sentia-se muito bem com sua nova vida, tornando-se cada dia mais conhecido entre os nossos, diminuindo assim, a fama do primogênito, o que eu intimamente também adorava. Além de ser tratada como uma princesa, cercada de todo o luxo e conforto que eu pudesse imaginar, tudo parecia perfeito até que descobri a verdade: o que Dmitri realmente queria era matar Filipe. E eu não passava de uma isca.
Dmitri, durante todo o tempo que vivemos juntos, caçava e torturava os simpatizantes de Filipe, sem que eu suspeitasse. Os que sobreviviam eram incumbidos de levar mensagens ao Egito ou onde quer que ele estivesse, dizendo que me tinha como refém, e que não me pouparia se ele não se entregasse.
 E eu que me considerava muito esperta! Não passei de uma isca, uma criança tola que, enquanto preenchia meu tempo com futilidades, era traída. Que ódio senti quando interceptei a mensagem de um de seus lacaios! Nela, ele dizia ter se encontrado com meu Filipe nas terras além do Atlântico. Começava a fazer sentido o convite de Dmitri para uma viagem à America.
 Mas o que eu poderia fazer contra um vampiro tão poderoso e seus asseclas? No bilhete ficava claro que Filipe aceitara se entregar com a condição de que eu fosse libertada e deixada na América longe de perigo. Não sei o porquê me surpreendi com a postura dele, eu deveria conhecer seu caráter nobre e seus princípios. Dmitri os conhecia e contava com eles para pegá-lo.
Talvez Filipe ainda me amasse o suficiente para tentar salvar minha vida. Entretanto, ele precisava saber que tudo aquilo era um blefe. Que eu não era uma prisioneira. Ou era? Será que dessa vez eu era o ratinho na gaiola?
Eu me sentia sozinha, desamparada e perdida. Então tive a idéia de procurar pelos simpatizantes de Filipe. Eles agora me odiavam ainda mais por viver ao lado de Dmitri, mas eu esperava que passassem por cima de nossas diferenças no intuito de salvar aquele que eles tanto admiravam.
Infelizmente nenhum deles acreditou em mim. Estavam certos de que não passava de mais um estratagema de Dmitri para exterminar todos os vampiros de uma vez só, colocando-os em um navio e ateando fogo a ele. Sem ajuda, decidi fugir. Voltar para a Inglaterra e esconder-me nas ruínas de Trajano ou quem sabe me enterrar na floresta de carvalhos. Lá eu certamente estaria segura, pois Dmitri não conhecia esse refúgio, e Filipe escaparia da emboscada, já que Dmitri não teria com o que barganhar.
Não tive mais notícias de Dmitri nem de Filipe por muito tempo vivendo escondida naquelas ruínas. Perdi o contato com o resto do mundo. Mas eu tinha uma certeza: Filipe ainda estava sobre a Terra, isso eu podia sentir. E era esse sentimento que me dava forças e resignação para continuar. Voltei para a cidade, não Londres ou Paris, mas uma cidadezinha aos arredores da ruína onde comprei uma bela casa. Minha esperança era retomar minha vida, voltar a ser o que eu era. E depois de tanto tempo afastada, achei melhor me readaptar primeiro. A Regra número 1 de se viver no meio dos humanos e agir como eles. E eles haviam mudado muito, o mundo já não era igual ao que eu conhecera. Porém, nada mais conseguia encantar-me. Nem o luxo, nem as jovens presas, as festas. Só a sede fazia com que eu saísse de meu repouso. Repouso esse que era cada vez maior: semanas, meses e depois anos.
Minha casa, abandonada e sem cuidados, começou a ruir e os antigos do lugar me chamavam de assombração. Eu havia me tornado o fantasma da antiga proprietária que viveu ali há mais de um século. Ninguém mais, ninguém menos, do que eu mesma. Não os recrimino. Minha aparência era realmente aterradora: roupas sujas e esfarrapadas, cabelos desgrenhados e enrugada como uma centenária. Só então me dei conta de quanto tempo havia passado. Nascia o século XIX.
Um dia, alguns homens começaram a demolir o que restou de minha vivenda e eu fui obrigada a deixar o lugar. Eu não sabia para onde ir, perdida no meio de tantas construções e tanta gente. Definitivamente muito pouco sobrara do mundo que eu conhecia, mas o bastante para eu ter um lugar onde ficar: o cemitério.
Assim que senti a terra sobre meu corpo uma onda de tristeza tomou conta de mim. Revi toda a minha existência: minha infância, os bailes de aniversário. Lembrei-me do Conde e de minha pobre Amélie. Tive a certeza de que daria toda minha eternidade para estar com eles novamente, pois foi ao lado deles que eu me sentia verdadeiramente amada. E descobri também que morreria tantas vezes fossem necessárias para ter Filipe outra vez comigo. Onde estaria ele? Ainda no Egito? Ainda procurando a cura? Lembrei-me do deus que ele tanto invocava a fim de me convencer que éramos demônios e rezei na esperança de que ele existisse e que fosse piedoso o suficiente para por um fim ao meu sofrimento e a minha solidão.
Ah Filipe! Que saudade de seus olhos azuis que me velaram por toda a vida! Olhos que me amaram e me desejaram, mas aos quais eu só retribuí com egoísmo, inveja e ingratidão. Não foram só as lembranças de minha vida humana que me tiravam a paz. Uma fila interminável de vítimas resolveu desfilar em minha mente, acusando-me e amaldiçoando-me por toda sorte de dor e sofrimentos que lhes causei.
Eu não suportava mais aquilo. Enlouqueceria se aquelas vozes não parassem de me atormentar. Pedi, implorei por perdão, porém nada os fazia calar. Talvez o Deus de Filipe realmente exista, porque foi o primeiro pensamento são que tive antes que começassem a cavar minha cova, despertando-me de minha loucura.
Eu estava fraca demais para impedir que me tirassem dali, então colocaram o que restava de meu corpo murcho e seco em uma urna.
Senti o deslocar da urna por longas distancias, sendo, vez ou outra, tirada de um lugar para outro. Mas tarde soube que eram carros o que me transportava.  Até que fui colocada em um navio onde atravessei o mediterrâneo, sentindo a agradável dança das marés. Quando aportei em terra firme foi que eu o ouvi pela primeira vez em muitos séculos: “Bem vinda ao Egito, Anne”. Sua voz em minha mente foi como um bálsamo. Então enfrentei uma longa viagem nas caravanas do deserto. Mas ele estava perto, e minha vontade de revê-lo aumentava a cada metro. 
Subimos o Nilo até Aswan, no sul do Egito. E em uma ilha submersa nas proximidades, ele estava a minha espera.
O templo de Ísis, na ilha de Philae, ficava submerso grande parte do ano, por conta da construção da barragem de Aswan. Mas no período de vazante do Nilo era ali que Filipe ficava, escondido em câmaras secretas, que nem os mais famosos arqueólogos foram capaz de descobrir,  a espera de seus convertidos, para lhes mostrar o caminho da salvação. No restante do ano ele percorria o mundo levando a todos os vampiros a promessas de que poderia lhes dar uma vida melhor.
No interior de uma dessas câmaras minha urna foi finalmente aberta. Fecharia meus olhos se ainda pudesse mover minhas pálpebras para não ter que encará-lo. Eu sentia muita vergonha, nem tanto por minha aparência, que eu tinha conhecimento, eram das piores, mas por todas as coisas que tinha feito até ali e sabia, ele desaprovava.
_Não se envergonhe – ele disse com a suavidade capaz de adormecer as feras – estamos sozinhos e estás em casa.  Desculpe-me por quebrar minha promessa e tê-la trago para cá sem seu consentimento. Mas era preciso.
A cada palavra dele, seus olhos azuis pareciam mais ternos, mais doces e envolventes. Ele ainda era o mesmo homem que havia criado com tanto amor sua sobrinha ingrata.
_Passaste tempo demais sob a terra – continuou sua explicação – precisas voltar ao mundo. Quero muito que conheças a verdade para que se liberte, Anne.
Ele passou as mãos pelos mesmos longos cabelos que agora estavam sob um chapéu feito de brim cáqui e prosseguiu eufórico:
_Otias finalmente descobriu toda a verdade. Ela própria morreu e renasceu, atestando que todos são eternos. Que não precisamos desses corpos para continuar vivos. Nem matar pessoas, nem animais, nada disso. Nossas almas, ou princípio inteligente, sempre existirão, habitando corpos ou não. Podemos sempre recomeçar de onde paramos. Sempre reencontrar aqueles que amamos. Pois não há laço mais forte do que o verdadeiro amor. E o melhor de tudo isso, podemos ser bem melhores do que éramos antes.
Os vampiros é que são seres que se prenderam a tudo que é passageiro. Á nomes, terras, títulos e riquezas. Tudo que temos que aprender a deixar para trás para seguir em frente.
Precisamos morrer para nascer de novo, Anne. Tudo que não conseguimos fazer em uma existência podemos tentar novamente. Nada se perde, tudo um dia volta ao seu lugar. Os bons serão sempre melhores, os maus, um dia deixarão de sê-lo. Nós somos a prova de que a morte não existe. Passamos por ela e continuamos a existir. Mas pagamos um preço muito alto por tentar manter esse corpo. Agarrando-nos as coisas desse mundo que, ele sim, é passageiro. Existem outros mundos além desse que conhecemos, e alguns bem melhores do que esse também.
Eu havia passado muito tempo enterrada, perseguida e enlouquecida pelos meus fantasmas, mas tudo que Filipe me dizia parecia muito mais confuso. Ou era ele quem estava irremediavelmente louco? Morrer para nascer? Outros mundos?
Mas ele continuava a falar inflamado, debruçado sobre a urna onde eu estava.
_Estamos sempre fugindo da podridão, mas tudo que colocamos a mão morre. E a única coisa que conseguimos é aprisionar nossa alma em um corpo já sem vida. Que seca sem sangue, deteriorando tudo o que de bom aprendemos antes de morrer. Somos obrigados a viver nas sombras para não secar e virar pó. Matar inocentes para sentir o calor da vida novamente. Quanto sofrimento desnecessário! Já poderíamos estar livres se quiséssemos. Mas a vaidade, a ilusão de poder nos mantém presos a essa vida de miséria, onde só se conhece a dor, a solidão e a morte que tanto nos apavora. Jamais seremos realmente felizes. Para que prolongar essa agonia? Para que disseminar essa verdadeira maldição pelo mundo?
Filipe se aproximou ainda mais de meu rosto, tocou levemente no que um dia tinha sido meus longos e sedosos cabelos castanhos, e continuou quase num apelo:
_Só poderemos estar realmente juntos se abdicarmos desse corpo! Preciso saber se é o que desejas: abdicar dessa ilusória eternidade para ficar comigo. Quero que saibas que nunca a abandonei ou a esqueci. Apenas dei-lhe tempo para que aprendesse o necessário. Tempo para que estivesse pronta a me seguir. Gostaria de ter evitado todo o sofrimento pelo qual passamos, mas para conseguir aceitar a mim e a minha missão, tive que aprender a aceitá-la primeiro. Entender que precisavas percorrer teu próprio caminho.
_Perdoaste-me? – tentei mandar uma mensagem mental no que creio que fui bem sucedida porque ele logo me respondeu:
_Sim, quando perdoei a mim mesmo.
_Ah, meu amado Filipe! Como senti sua falta! – teria me jogado nos braços dele se pudesse me mover - Diga-me o que preciso fazer para ficar ao teu lado.
_Não podes continuar desse modo – ele se referia ao meu corpo, um amontoado de ossos recoberto por um couro seco.
Filipe se levantou, deu uma volta em torno de si mesmo e voltando-se para mim novamente, sentenciou:
_Espero que Otias me perdoe por quebrar outra vez uma promessa. Antes de partir ela me deu todo o seu sangue para que eu não precisasse mais me alimentar e pudesse andar sem perigo sob o sol, facilitando assim minha missão. Então lhe prometi que não mais derramaria uma gota de sangue, nem mesmo o meu.
Olhou-me profundamente enquanto segurava minha mão.
_Não sairás mais do meu lado? Promete?
_Jamais – nem por todo o ouro e prazeres do mundo eu abandonaria aqueles olhos azuis.
Com sua unha, cortou a carne de seu pulso e levou-o a minha boca. Algumas gotas de seu poderoso sangue foram o suficiente para que eu me restabelecesse por completo em pouquíssimo tempo. Como uma bomba de ar, inflando meu corpo murcho.
               A partir daquele dia eu percorri, junto com ele, o mundo levando a Boa Nova da Grande Mãe. Filipe falava a verdade. Eu a reconheci vivendo, já em idade bem avançada, uma nova vida, com outro corpo. Estivemos juntos ao seu funeral, sabendo que em breve ela retornaria novamente, para continuar sua evolução e rever os amigos que ainda caminhavam sobre a Terra, esperando que um dia não existissem mais vampiros.  O dia que todos aceitassem que a vida é eterna, mas o corpo tem que perecer. Juventude eterna gera imaturidade eterna. A velhice e a morte do corpo trás importantes lições que todos têm que aprender.  Esperando pelo dia que nós dois, eu e meu amado Filipe, poderemos também deixar essa Terra e continuar nossa caminhada. Não para a eternidade inerte, mas para o eterno aprendizado e crescimento. 

Conto em Gotas

 Morte, Sangue e Solidão 
    - Uma História de Vampiro -
                                        3ª parte

Convenci Filipe a buscar sua fortuna antes de nos instalarmos em algum lugar. Ela estava em uma antiga ruína romana dos tempos do imperador Trajano, as margens do rio Avon. Perto dali havia uma cidade conhecida como cidade das termas, aonde toda sorte de doentes vinha à procura de cura. Contra minha vontade, Filipe fixou nossa residência nos arredores. Era uma construção antiga que não me surpreenderia se fosse tão velha quanto as ruínas romanas, mas ele insistia que era confortável e segura. Tínhamos poucos servos de que fui proibida de tocá-los e obrigada a passar a fazer a maldita “dieta selvagem”. Em poucas semanas eu estava tão debilitada que nem mesmo tinha condições de sair para caçar. Eu era uma nova vampira, não tinha a mesma força e resistência que os mais de duzentos anos deram a Filipe. Ele que me alimentava, trazendo-me, todas as noites, uma grande taça de sangue fresco que eu nem me atrevia a perguntar sua origem. Passava a maior parte do tempo no quarto com as cortinas cerradas, dormindo, sem forças para deixar o leito. Para todos na casa eu estava extremamente doente, o que reforçava a história sobre nossa chegada: o jovem casal francês se mudara em busca da cura para a pobre esposa enferma. Esposa! Grande mentira. Filipe continuava a me tratar como a sobrinha órfã e desamparada. E eu o odiava por isso. Odiava-o por me manter presa naquele quarto, por me alimentar de bichos e por não me dar o amor que eu tanto desejava. Até que, certo dia, recusei a taça de sangue. Eu me sentia enterrada viva, do mesmo modo que ele nos trinta anos que passou na floresta. Pude ver nos olhos dele o desespero quando eu disse que para viver assim preferia que me jogasse na fogueira ou me deixasse no pátio quando amanhecesse. Depois de inúmeras tentativas sem sucesso de me fazer beber aquele sangue fraco e ruim, ele deixou o quarto. Cheguei a imaginar que tivesse ido recolher a lenha para o grande crematório, mas algumas horas depois ele estava de volta e não estava sozinho. Com ele estavam dois camponeses visivelmente embriagados, porém jovens e fortes.
Assim que entraram no quarto pude ver o modo que me olhavam, desejando-me. Aqueles olhares lascivos e o cheiro de sangue humano reacenderam minhas forças, e eu os convidei para se aconchegarem na cama ao meu lado, enquanto Filipe, de pé, no canto do aposento, sorria um tanto constrangido e afirmava que eles eram um presente.
Os dois homens começaram a me beijar e alisar o meu corpo. Fechei os olhos imaginando o quanto seriam apetitosos e o quanto eu desejava que fossem as mãos de Filipe a deslizar pela minha pele. Não sei quanto tempo durou, ou o quanto eu resisti antes de cravar meus dentes no pescoço mais próximo, enquanto o outro enfiava a cabeça entre minhas pernas.
Indescritível o que senti ao começar a sugar aquele néctar e ser acariciada tão intimamente. Quanto mais eu sugava, mais intenso era o prazer que eu sentia. Porém, antes que minha presa desfalecesse em meus braços, senti o outro homem ser retirado violentamente de cima de mim. Quando empurrei o homem já sem vida para o lado, vi Filipe a deslizar por sobre meu abdome. Suas faces coradas, suas mãos quentes não deixavam dúvidas: ele também tinha se alimentado.
Quando alcançou o meu rosto, sussurrou em meus ouvidos:
_Sou todo seu, minha amada Anne – esticando seu pescoço para que eu o sugasse.
Nos amamos até o dia raiar e cairmos em um sono reparador. Eu finalmente lhe pertencia e ele a mim. Nós nos amávamos, e eu agora tinha a certeza de que seríamos felizes pela eternidade.
Depois dessa noite esquecemos definitivamente a “dieta selvagem”. A cidade próxima vivia cheia de romeiros, indo e vindo o tempo todo, presas fáceis pelo caminho. Caçávamos aqueles que deixavam a cidade, retornando a seus lares, pois assim ninguém daria pela falta deles nas redondezas. Depois de um lauto banquete, nos amávamos pelos campos até a aurora. Inebriados de amor e luxúria, começamos a ficar desatentos e deixar os corpos pelo caminho. Até que a população local, temendo novos ataques da “besta da estrada”, como nos chamávamos, se reuniram e formaram grupos de caça. Munidos de toda sorte de ferramentas e tochas, chegaram até nosso castelo aliciando nossos servos para a caçada. Resolvemos partir o quanto antes. Aquele lugar não era mais seguro. E alegando também estarmos com medo da “besta”, contratamos alguns homens e partimos de mudança rumo à corte.
Em Londres tudo mudou, pois eu não queria mais vítimas feias e mal cheirosas. Gostava das festas, de estar no meio da nobreza. Eu era jovem, bela, rica, e imortal, por que deveria viver me esgueirando por entre vielas e becos imundos? Mas Filipe não concordava comigo. E começava a se afastar. Eu não me importava. Vivia cercada de belos e apetitosos jovens que me proporcionavam todos os tipos de prazer. Comia e bebia com eles, mesmo que depois tivesse que vomitar tudo antes que a comida começasse a apodrecer dentro de mim. Mas valia a pena pelo prazer de me sentir viva, atraente e desejada. Ia a todos os lugares que tivesse vontade. Servia-me de quem me despertasse mais apetite. E Filipe, nos raros encontros que tínhamos, pois ele vivia pelos guetos imundos enquanto eu desfilava pelos salões, dizia-se enojado da minha crueldade e falta de critérios. Critérios!
_Eu sou uma vampira. Estou acima dessas convenções humanas hipócritas – dizia-lhe com desdém – não vou viver como tu, feito um rato nos esgotos.
E mais uma vez tínhamos que nos mudar. Creio que ele imaginava que em outro lugar eu mudasse meus hábitos. Voltasse a ser a tola Anne que se deixou ser guiada como um cordeirinho, a ponto de ser alimentada de lixo. Nunca mais eu ficaria sobre uma cama, fraca e debilitada para agir de acordo com a consciência pesada de Filipe. Que a meu ver, amava mais as ideias da egípcia simplória e ignorante do que a mim. Era a ela que ele vivia para agradar. A devoção que ele ainda nutria por Otias me deixava morta de ciúmes e com uma vontade ainda maior de afrontá-lo. Ela o abandonou. Enterrou-o para sumir sem deixar rastros. Eu, ao contrário, dei minha vida para salvá-lo, para viver ao lado dele, por que era tão difícil que ele a esquecesse de uma vez por todas e aproveitasse ao meu lado todas as delícias que a vida eterna podia nos dar?
Certa vez disse que me odiava, mas que entendia que eu era apenas um reflexo dele mesmo: um demônio. Um demônio capaz de transformar uma moça pura e ingênua em uma assassina implacável. Que ninguém mais, além dele, era o responsável por minha desgraça.
_Deixe de sentimentalismo tolo, Filipe – eu lhe respondi após uma deliciosa e provocativa gargalhada – não sou um demônio. Somos o que somos: donos do mundo. Todos passarão, mas nós ficaremos aproveitando de tudo e todos até a última gota de sangue azul!
_Falas como se os homens não passassem de gado para o abate, criadas com o único intuito de nos alimentar e divertir. Tu os usas como ratinhos em gaiolas – ele falava sem esconder todo o nojo que sentia de mim – não somos criação de Deus, Anne, somos uma aberração da natureza.
_Deus?! Desconheço esse deus de que de uns tempos para cá resolveste desenterrar para se punir. E se ele realmente existe e é como dizem, também deve ser o responsável por nossa existência. Não dizem que foi ele quem criou tudo que está sobre a Terra? Ele deveria ter um propósito. Talvez sejamos nós os escolhidos para manter essas pobres criaturas humanas sob seu julgo. Quando eles se sentem ameaçados e com medo, recorrem a esse deus, que, dependendo da quantidade de orações e indultos, decide se eles cruzarão nossos caminhos ou não.
_Não blasfeme, Anne! – ele me deu as costas parecendo derrotado – somos a personificação do demônio. Enganamos a morte, tentamos enganar a Deus, e Ele nos castigou nos mantendo sobre a Terra, matando tudo que colocamos as mãos. Olhe para si mesma. Não és mais a Anne que eu amava. Essa eu também matei. Criá-la era minha chance de fazer algo bom em meio a tanta desgraça que espalhei. Transformá-la em uma mulher culta, educada, dar-lhe uma família, fazê-la feliz. Mas não fui capaz de dominar meu ciúme, aceitar que uma hora eu teria que deixá-la partir. Tirei de ti toda e qualquer chance de ser feliz. De ter uma boa vida. És a constatação de que falhei. De que sou mesmo um monstro e de que não há mais salvação para mim.
        _ Por que és tão cruel? – eu estava sensibilizada com a dor dele, mas não podia aceitar que ele me visse como o "troféu do derrotado". Eu o amava. Tudo o que fiz foi para ficar ao lado dele – eu sempre lhe serei grata por tudo o que fez por mim. Mataste meus pais, mas me deste uma família. Mataste meu futuro noivo, mas me aceitaste como tua esposa. Nem por um segundo eu o acusei ou cobrei o que quer que tenhas feito. Sou feliz porque existes, porque és o que é. Porque me deste o maior presente que alguém poderia me dar: a vida sem ressalvas, sem medo. Deste-me a liberdade.  
         Eu me aproximei dele, o abracei e o beijei. Ele não me repeliu como das últimas vezes, então me encorajei a continuar:
       _Mude sua forma de ver o mundo, Filipe. De nos ver. Só assim poderemos ser felizes. Deixaste se contaminar pelas superstições daquela egípcia. Ela estava errada. Não somos doentes que precisam de cura. Somos o topo da cadeia alimentar. Predadores de homens. O Deus que tanto temes, os deuses daquela egípcia, não passa de imaginação desses humanos ignorantes, que precisam acreditar em alguma coisa para terem a quem culpar por suas mazelas. Mas nós não. Nós somos reais. Existimos.
_Fazes tudo parecer tão simples – ele me disse enquanto jogava meus cabelos para trás do ombro, desnudando-me o colo.
_Porque a vida é simples – respondi deleitando-me com sua boca roçando meu pescoço – um falcão caça e se alimenta de lebres. Que podem parecer indefesas, mas são o alimento da ave. Ela precisa deles para viver e criar seus filhotes. Nós caçamos e nos alimentamos de homens. Que estão longe de serem seres indefesos. Quantas vezes já não fomos perseguidos e caçados por eles? Teriam nos matado se tivessem chances. E não sentiriam nenhum remorso.
 Teria ficado ali argumentando com ele a noite toda, mas lembrei-me que uma maravilhosa festa me aguardava. E o deixei parado no meio do aposento assim que minha serva entrou para ajudar a vestir-me.
_Aonde vais, Anne? – ele parecia decepcionado e insatisfeito ao me ver na dúvida entre o vestido azul e o dourado que a serva me estendia.
_A uma festa na residência dos Bordenoux – a essa altura tínhamos voltado para a França depois de viver em praticamente todos os cantos da Europa – Não quer acompanhar-me? Estou farta de inventar viagens e doenças para justificar a ausência de meu amado esposo nessas ocasiões.
E cerquei-o beijando-lhe, numa espécie de incentivo para que aceitasse meu convite.
_Por favor, Filipe! – encarei-o suplicante – é só uma festa. Prometo-lhe comportar-me como uma virginal.
Ele se rendeu as minhas súplicas e até parecia estar contente ao entrar de braços dados comigo na magnífica mansão dos Bordenoux. E a festa transcorreu tranquila, mesmo com todas as advertências dele ,tentando me fazer parar de comer e beber. Ele sabia que logo eu teria que por tudo para fora e me sentiria fraca, o que, certamente, aumentaria a minha sede e as chances de que nem todos os convidados voltassem para suas residências aquela noite. Mas que graça teria as festas se eu não pudesse aproveitá-las ao máximo? 
Porém, Filipe não concordava comigo. Achava que deveríamos manter a discrição. Não chamar a atenção sobre nós e nossos hábitos. E logo quis voltar para a casa. O que fiz, não sem antes convidar meia dúzia de jovens para nos acompanhar. Acenando-lhes com uma festinha particular com muita comida, bebia e orgia. Escolhi duas jovens a dedo pensando em oferecê-las a meu amado esposo como presente. Ele precisava se lembrar do quanto a vida poderia ser bem mais prazerosa longe dos subúrbios fétidos. Mas ele sequer nos acompanhou até nossa casa. Deixou-nos no meio do caminho e eu sabia que ele iria cumprir com sua “missão religiosa”: limpar o mundo da escória, dos malfeitores e doentes.
Minhas festinhas costumavam durar dias. Pois eu não matava meus acompanhantes. Sugava-lhes apenas o necessário para prolongar ao máximo meu prazer, controlando minha sede. Ficavam tão excitados, inebriados pelo vinho e anestesiados pelas mordidas, que normalmente eu fazia entre suas coxas, que a única coisa que pediam era mais e mais. Na maioria das vezes, o mais difícil era mandá-los embora, para desespero de Filipe, que temia que fôssemos descobertos. Tolice. Eles deixavam minha casa esperando ansiosamente por minhas próximas festinhas. E meus admiradores aumentavam a cada reunião. Talvez o que Filipe sentisse mesmo fosse ciúme. Saber que eu deleitava-me com outros pares, homens e mulheres. Mas eu sempre o convidava na esperança de vê-lo desfrutando de todo o prazer que nossos brinquedinhos podiam nos ofertar. Imaginava o quanto aquela visão seria excitante, o quanto essas experiências nos uniria, compartilhando, juntos, daquele banquete de cheiros, gostos e sensações. Mas ele nunca participava e acusava-me de pervertida e vagabunda. Creio que a criação que ele teve, baseada na culpa, recheadas de fábulas de pecados e punições, amputaram-lhe o prazer de saciar todos seus desejos sem reservas. Pode-se imaginar uma criatura que já nasce carregando a culpa de ser fruto de um pecado que nem cometeu e que lhe será cobrado por toda a sua vida? Tolo Filipe! Insistia em carregar toda a culpa do mundo em suas costas. Talvez minha missão fosse aliviar-lhe esse fardo. Mostrar-lhe a verdade. Mas ele estava cego.
E aquela noite eu descobri que jamais iria conseguir mudá-lo.
Ele invadiu a saleta que ficava dentro de meus aposentos, onde eu estava com meus apetitosos convidados e arrancou-me violentamente do meio dos corpos que deslizavam, uns sobre os outros, na ardente busca por mais prazer. Arrastou-me para o quarto, me jogando contra a parede. Manteve-me imóvel só com a força de sua vontade. Foi  quando descobri o quanto ele era poderoso.
_Vou fazê-la parar! – gritou raivoso – por um fim aos seus desvairos.
Eu sabia o que ele planejava. Mesmo não conseguindo entrar na mente dele como ele fazia com a minha, Filipe fez questão de me mostrar meu fim: faria-me arder no fogo até que só restassem cinzas.
Tentei me debater inutilmente. Praguejei. E então coloquei para fora toda a minha revolta:
_Abandonaste-me, Filipe! Odeia-me porque vivo bem sem ti, deleito-me no que repudias. Gosto de ser o que sou, uma vampira. Enquanto enojas-te de ti mesmo. Mas matar-me não vai fazê-lo diferente, melhor do que realmente és. Preferir os decadentes e inúteis, não diminui sua culpa nem o torna melhor do que eu. Não sou um verme para limpar a podridão do mundo. Maldita seja Otias, que o escolheste entre tantos. Deveria ser uma fracassada como tu!
De seus olhos saiam faíscas. Minhas palavras vibravam em todo seu corpo, aumentando ainda mais seu ódio.
_Otias já teria acabado contigo! És uma vergonha para a deusa dela.
_O que me importa essa tua egípcia e suas fantasias?! Mas se é no que realmente acreditas, faça o que planejas. Termine logo com isso. Mate-me e volte a se enterrar no buraco de onde veio. Eu não tenho medo da morte, do inferno e nem de nenhum desses seus demônios idiotas!
Lentamente senti meu corpo despregar da parede e voltar a ter controle sobre ele. Filipe não teve coragem de acabar comigo embora não duvidasse que tivesse poder para tal. Talvez seu amor ainda fosse maior do que a raiva que sentia de mim, dele e do mundo todo.
_Saias daqui! Vá embora – disse depois de me dar as costas.
_Para onde? – perguntei atônita. Não esperava por esse desfecho.
_Para onde quiseres. Podes levar tudo: dinheiro, jóias e até a mobília. Vá para qualquer lugar levar a vida que desejar. Mas bem longe de mim.
_E quanto a ti? O que fará?
_Não importa. Mas prometo-lhe nunca mais cruzar teu caminho.
_Vais procurar por ela, não? Por Otias – senti o ciúme a atravessar-me o peito. Ele queria se livrar de mim para ir atrás da mulher careca e ignorante. Eu não podia deixar que isso acontecesse. Tola! Ele conhecia meus pensamentos. E mais rápido do que eu pude perceber, ele jogou o castiçal de nove velas contra as cortinas que rapidamente se incendiaram, espalhando suas labaredas pela tapeçaria e a mobília, enquanto eu olhava aquele espetáculo paralisada de horror.
                      _Vá embora, Anne! Não olhe para trás.


                              ## continua na próxima semana ##

Conto em Gotas


Morte, Sangue e Solidão
      - Uma história de Vampiros -  2ª parte

Minha boca estava úmida. Um líquido quente e doce inundava-a. E eu deixei que ele vagarosamente invadisse meu corpo. De repente cessou. E fiquei ali imóvel por um tempo que me pareceu uma eternidade. Não conseguia me mover como se pesasse uma tonelada. Cada membro de meu corpo começou a enrijecesse e a doer violentamente. Não conseguia pensar em nada além da dor enlouquecedora de minha carne sendo lentamente contorcida por violentos espasmos que eu não conseguia evitar. Minhas entranhas queimavam feito brasa, como se algo as corroesse. Minhas veias latejavam parecendo que a qualquer momento explodiriam rasgando minha carne. Gritaria se tivesse voz. Pensei em Filipe. Onde estaria ele que não me ajudava? Esforcei-me para concentrar-me e lhe implorar por ajuda, mas não consegui ou ele simplesmente havia me abandonado. Teria ele morrido no fogo?
Um golfo quente encheu-me a boca e meu corpo foi sacudindo para se livrar daquele líquido acre. Por um instante eu vi um vulto enegrecido ao meu lado. Faria parte de meu pesadelo ou era ele que viera ao meu socorro? Não sei. Só conseguia sentir o cheiro forte que fazia minhas veias e minha garganta doerem ainda mais. Logo senti o peso de seu corpo sobre mim e o cheiro cada vez mais forte, agora aliado ao som de seus batimentos cardíacos, deixando-me enlouquecida. Soltei um profundo suspiro de prazer quando minha boca se encheu daquele vinho maravilhoso, encorpado, doce e inebriante.
_Tenhas calma. A dor vai passar e tudo ficará bem – aquelas palavras me soaram como música. Filipe não tinha me abandonado. Estava ali ao meu lado. Ficaríamos juntos para sempre.
Quando ele se afastou senti como se o mundo tivesse sido sugado entorno de mim. Aonde ele foi? Para onde levaram o bálsamo doce que aplacava minha dor?
Ainda consegui balbuciar seu nome. Ou imaginei que tivesse dito isso. Mas ele me respondeu em seguida então tive a certeza de que não fazia parte de minhas alucinações.
_Eu preciso ir. Não me demoro. Verás que logo estará se sentindo bem melhor. Mas em hipótese nenhuma deixe esse quarto.
Quis me levantar e segui-lo, mas meu corpo não me obedecia.
Aos poucos percebi que a dor desaparecera. Sentia minha respiração tranqüila e começava a sentir a leveza de meu corpo. Via tudo a minha volta, embora meus olhos permanecessem cerrados. O sol estava alto, na lareira só restara cinzas. A casa estava em silêncio, mas além dos vidros da janela havia uma infinidade de sons que nunca imaginei que ouviria. Peguei-me a acompanhar uma libélula que voava há uns cinqüenta metros da construção. Percebia nitidamente o bater de suas asas a dar rasantes sobre a fonte do jardim. Isso fazia com que eu me esquecesse do som ensurdecedor do canto de um pássaro posado no parapeito de minha janela.
Alguém subia as escadas. Ele estava de volta. Então me esqueci da libélula e do pássaro desafinado. Quando me tocou, eu finalmente abri meus olhos. Ele parecia ter envelhecido uns mil anos com a pele macilenta e enrugada, mas sem nenhuma marca de queimadura. Sua voz também parecia mais grave e rouca quando sentenciou:
_Precisamos deixar esse lugar. Como se sente? Já consegue se levantar?
_Creio que sim - E esforcei-me para recostar-me na cama onde estava.
_Então se levante. Junte tudo de valor que puder carregar. Partiremos assim que anoitecer – ele parecia calmo, porém sua voz o traía. Tive medo de que tivesse se arrependido de não ter me deixado morrer.
_Onde estão os criados? – curiosamente eu sabia a resposta de minha pergunta: mortos. Pobre Amelie, sentirei sua falta!
Já na carruagem, eu olhava o fogo a consumir a casa onde cresci e vivi os anos mais maravilhosos de minha vida, transformando em cinzas o meu passado. Nunca mais seria a mesma Anne, meu tio também deixara de existir. Agora ele era Filipe, o homem que eu amava e por quem havia morrido e nascido outra vez, apenas para tê-lo ao meu lado. Eu ainda não sabia nada sobre o que ele era e que eu havia me transformado. Mas o que importava? Estávamos juntos e para sempre.
Quando finalmente cruzamos os portões da propriedade perguntei:
_Para onde vamos? Para Paris?
_Sim, por algum tempo – ele me respondeu secamente sem tirar os olhos da estrada a nossa frente. Senti um aperto em meu coração. Nunca o havia sentido tão distante de mim como naquela hora. Então procurei pensar que teria muito tempo para convencê-lo de que tinha feito a coisa certa. Pertencíamos um ao outro, nosso destino era ficarmos juntos.
O silêncio que nos cercava apunhalava-me a alma. Nenhuma palavra, nenhum pensamento vindo dele preenchia o vazio que eu sentia. Tentei entrar em sua mente, mas talvez não fosse isso tão fácil como ele fazia parecer, e eu não consegui saber o que pensava ou mesmo ver seu rosto coberto pelo capuz da capa que vestia. Continuava concentrado guiando os cavalos na escuridão. Imaginei que agisse assim, esquivando-se de mim, envergonhado por sua aparência. Mas eu não me importava com isso. Nem o fogo fora capaz de destruir seus olhos azuis, e eram eles que me trazia paz e segurança.  De repente ele puxou as rédeas e parou os cavalos.
_Por que paramos?
_O dia logo vai amanhecer. Precisamos nos proteger! - sua voz rouca saia de dentro do capuz e tomava todo o ambiente.
_Mas falta tão pouco! – retruquei – vamos continuar.
_Não resistirias ao mais fraco raio de sol – disse descendo do coche e ordenando-me a ajudá-lo a tirar nossos baús da carruagem e escondê-los no meio dos arbustos. Depois desatrelou os cavalos e bateu neles assustando-os, para que fossem embora.
 Eu por algum tempo deixei de me perguntar o porquê Filipe agia assim, encantada com a facilidade com que carregava os baús como se fossem delicados porta-jóias. Nunca tinha me sentido tão forte e vigorosa. Só me dei conta de que ele continuava a agir estranhamente quando o peguei cavando rapidamente atrás de uma árvore longe da estrada, logo depois de incendiar nossa carruagem.
_O que está fazendo?
_Sua cama.
Eu tremi. Ele cavava a terra com tanta agilidade e rapidez que eu mal via suas mãos. Precisei me concentrar para perceber que era capaz de acompanhar seus movimentos se assim quisesse.
_Venha – ele me disse assim que parou de cavar ainda de joelhos sobre a terra – não tenhas medo.
Apesar da voz rouca, pude perceber que era a primeira vez, desde que eu me atirara na lareira com ele, que me falava com candura. E foi por saber que ele ainda se preocupava comigo, que tentava me proteger que tomei coragem para me deitar naquela cova. E antes que começasse a me cobrir, disse-me:
_Não será tão ruim quanto imaginas. Todo vampiro que se preza passa pela prova da terra. Mas ainda estas enfraquecida, não sabes nada sobre o que é agora. Mas não tenhas medo. Virei tirá-la daqui amanhã assim que o sol se por. Estarei aqui bem ao seu lado.
 A sensação de terra sobre meu rosto não era das mais agradáveis. Imaginei que sufocaria assim que ele terminasse de me cobrir, mas nada disso aconteceu. Senti-me como um bebê no útero da mãe, aconchegada e protegida. E os sons que vinham do seio da Terra, que ficaram mais nítidos assim que Filipe terminou de se cobrir em seu buraco ao lado, pareceu me ninar e eu acabei dormindo.
Na noite seguinte chegamos a Paris. E ao invés de irmos para a casa que tínhamos na corte. Ele me levou para o subúrbio de vielas estreitas e imundas. Eu não conseguia imaginar o que ele pretendia. Sentia uma fome a me devorar por dentro, estava inebriada pelos cheiros que exalavam daquele lugar, mas minha cabeça parecia que explodiria com a imensidade de sons que chegavam aos meus ouvidos, martelando a minha cabeça, como se pudesse ouvir todos os habitantes daquele lugar gritando ao mesmo tempo.
Coloquei as mãos nos ouvidos instintivamente deixando meu corpo escorregar contra a parede atrás de mim, quando Filipe me abraçou e disse:
_Não deixes que eles a dominem. Na sua mente só deve entrar o que permitir. És tu quem manda. Seja forte e se domine ou vais enlouquecer em pouco tempo.
Fechei os olhos e concentrei-me nas batidas aceleradas de meu coração. Logo as vozes diminuíram até sumirem e o que restou foi a sensação de que minhas veias se transformavam em raízes grossas e contorcidas a esmagar meu corpo. Era a fome, ou a sede como Filipe me disse mais tarde. Eu precisava me alimentar. Sabia que essa hora chegaria, mas não se seria capaz de fazê-lo. O que eu não daria para ver o rosto dele agora a me encher de coragem! Mas ele insistia em se esconder debaixo daquela capa escura. Quando pegou em minha mão para que o seguisse, pude ver que suas veias também pareciam cordas a se enroscar pelo seu braço. Ele também tinha sede. E mais do que eu, ele precisava se alimentar para regenerar-se.
O segui até entrarmos em uma taverna cheia de bêbados e prostitutas. Não me importei com a aparência bestial e imunda deles, era o cheiro doce que eles exalavam, que talvez apenas seres como nós pudesse sentir, que me embriagou. Sentamos em um canto e pedimos vinho que nem chegamos a tocar, e ficamos ali observando. Não demoraria para que o sol raiasse e muitos já dormiam sobre as toscas mesas, outros se esfregavam no fundo do salão, quando dois homens cambaleantes, visivelmente bêbados, deixaram o lugar.
_Estais pronta? – era a primeira coisa que ele me dizia em horas.
_Estou - respondi tentando parecer forte e decidida. Passar as noites com ele em lugares imundos e mal cheirosos não eram bem o que eu havia imaginado que seria nossa vida juntos, mas não reclamaria se ele ao menos não fingisse que eu não estava ali. Talvez ele precisasse ter a certeza que eu poderia ser como ele, que não fracassaria. Eu não podia desapontá-lo. Eu tremia assim que ganhamos a rua atrás de nossas vítimas, mas não de frio. Era medo. Medo de não conseguir. Eu já acompanhara muitas caçadas, mas aquilo era diferente, não eram cervos ou coelhos, eram homens. Gente como eu. Ou será que, o que eu me tornara, não me classificava mais como gente?
_Eu não vou conseguir fazer isso! – parei no meio do caminho.
Filipe arregaçou a manga de sua capa e mostrando as marcas que tinha em seu braço me disse:
_Não será a primeira vez, Anne.
Naquele instante recordei-me da sensação maravilhosa que foi ter seu sangue em minha boca, aplacando-me a dor. Essa sensação turvou-me a visão. O cheiro de sangue que exalava daqueles homens alguns passos a nossa frente era só no que eu conseguia pensar. Saltei sobre um deles com a agilidade e fúria que eu nunca imaginei que possuísse. O pobre nem teve tempo de gritar. Foi Filipe quem arrancou aquele corpo já sem vida de minhas mãos. E quando finalmente abri os olhos e me dei conta do que aconteceu e de onde estava, percebi que havia outro corpo do outro lado da viela.
_Nunca bebas até o final. É um sangue ruim que lhe fará muito mal – a voz dele estava menos rouca e as mãos que ele me estendeu mais viçosas e rejuvenescidas, embora ainda não fosse como antigamente.
Algum tempo depois eu descobri finalmente o porquê não se devia beber até esvaziar o corpo. O excesso de adrenalina que o medo e a morte causam, envenena o sangue deixando-nos com uma maldita ressaca por dias.
Voltamos para nosso buraco no bosque nas cercanias da cidade, e nas três noites seguintes a mesma cena se repetiu, apenas os lugares mudavam.
Filipe abandonara a capa que sempre usava. Sua aparência finalmente tinha voltado ao normal, jovem e belo. Estava até mais disposto e falante. Pensei que finalmente começaríamos a nos entender, principalmente, quando naquela noite, antes de sairmos para caçar, ele me chamou para conversar:
_Precisamos de um lugar para viver. Voltar a ter uma identidade.
_Como? – indaguei – pensam que estamos mortos.
_Criança, não há nada que não possamos fazer. Nada que algumas moedas não comprem – ele riu largamente ao perceber que eu não entendia o poder que tínhamos.
Foi maravilhoso ouvi-lo gargalhar. Era como se nada tivesse acontecido e ainda estivéssemos em casa brincando alegres depois de mais uma de suas viagens a corte em que ele voltava bem disposto e cheio de vida. Agora eu compreendia o motivo: ele voltava bem alimentado.
_E quem seremos então? Teremos que ir para bem longe da França. Aqui poderemos ser reconhecidos facilmente.
_Escolha um lugar. Iremos para onde quiser – ele parecia tão feliz, cheio de planos onde, agora eu tinha certeza, me incluía. Não resisti, me aproximei dele e o beijei pela primeira vez. E fiz isso com tanto ardor, tanta paixão, tanto desespero que pensei que desfaleceria.
_Poderei então ser sua mulher? – sussurrei em seu ouvido.
_É o que sempre serás, minha doce Anne, para todo o sempre – dessa vez foi ele quem me beijou com tanto desejo quanto eu.
Eu tinha sede, mas não queria deixar aquele lugar. Interromper os planos que ele não se cansava de repetir, me tendo em seu colo, assim como ficávamos quando eu ainda era uma criança. Ele dizia como seria belo e imponente o castelo que compraria. Que em algum lugar no interior da Inglaterra possuía uma imensa fortuna em ouro e jóias, escondida nem uma ruína. Chegou a sugerir a Áustria ou as terras quentes da Espanha. Sonhava em uma vivenda no campo, longe das cidades, onde ficaríamos seguros, teríamos uma dieta “selvagem”, no que ele insistia, eu acabaria por me acostumar.
Entretanto, não era essa vida que eu desejava levar. Se éramos tão ricos e poderosos, capaz de enganar até a morte, por que viver escondidos sem poder desfrutar de todas as coisas boas que o mundo poderia nos oferecer?
_Não somos deuses que tem o mundo aos seus pés – ele se irritou e me afastou de seu colo – somos monstros, uma doença que espalha dor e morte. Não podemos andar livres nos servindo da vida dos homens. Nosso dever é ficar afastado, reclusos, até encontrar uma cura. Um meio de por fim a essa maldição. É isso que Otias espera de mim, de todos nós.
_Otias... – deixei escapar sem saber bem o que significava. Mas eu me lembrava de já ter ouvido esse nome antes.
_Sim, Otias – ele repetiu solenemente – a sacerdotisa da deusa Ìsis, a mãe de todos nós.
Uma mulher. Senti o ciúme me cortar o peito ao ver os olhos dele brilharem como eu nunca tinha visto antes. E naquele brilho havia uma mistura de devoção, respeito e saudade. E mais do que isso, era amor que faiscavam de seus olhos.
Tentando esconder o despeito que eu passei a nutrir imediatamente por aquela mulher, pedi que ele me falasse sobre ela. Precisava saber mais sobre a minha rival. O que ele passou a fazer imediatamente quase em um transe.
_Conheci Otias no interior da Inglaterra. Ela foi a responsável por eu ter me tornado isso – e apontou para si mesmo com desdém – mas não a culpo. Eu estava morrendo e implorei que ela me salvasse. Não teria feito isso se soubesse o alto preço. Mas eu era jovem e tolo. 
Para mim ele continuava jovem. Quantos anos ele teria? Nem precisei perguntar. Nesse exato momento ele começou a me contar toda a sua vida.
_Nasci aqui mesmo na França, no dia em que o rei Luís IX estava sendo coroado. Meus pais eram nobres, mas eu era seu quinto filho e estava muito distante de herdar o título e as propriedades de meu pai. Só me restava ser um vassalo de meu irmão primogênito ou, como queria minha mãe, entrar para a Igreja.
Enquanto ele falava, eu tentava me lembrar quando Luís IX havia reinado. Assustei-me ao lembrar a data de sua coroação: 29 de novembro 1226 e ao chegar ao resultado daquela operação matemática que fazia mentalmente. Estávamos no dia 3 de novembro do ano de 1498 o que fazia com que meu Filipe tivesse para completar 272 anos. Mas eu não queria perder nem um detalhe de sua história, então continuei calada ouvindo-o falar:
_Aos 18 anos vendi as terras que me caberiam na partilha e ganhei o mundo. O rei organizava a sétima cruzada e eu tinha medo de ser recrutado e forçado a ir à Terra Santa. Fui para a Inglaterra onde gastei boa parte de minha pequena fortuna com festas, bebidas e mulheres. Fiz amizade com um nobre e durante mais de dois anos viajamos juntos conhecendo o mundo e nos divertindo. Até que ele foi chamado de volta, porque a mãe estava muito doente e me convidou para acompanhá-lo. Pensei em voltar para casa, mas há muito meu dinheiro havia acabado e eu vivia à custa dele. Não tive escolha senão voltar para a Inglaterra. Foram anos bons, até ele se casar e eu começar a me sentir um intruso naquela casa. Decidi ir para Londres, viver na corte e quem sabe encontrar uma boa moça para me casar também. Meu pai não fecharia as portas de nossa casa para uma bela nora e um netinho. Era primavera de 1251, eu estava então com 24 anos, quando tudo aconteceu.
Filipe se calou por um momento. Levantou-se. Deu uma volta em torno de mim e continuou parecendo-me cansado e abatido.
_Richard Nevile, barão de Warwick, era o nome de meu amigo. Ele havia me dado um belo cavalo e uma pequena quantia para que eu tentasse a sorte na corte, além de uma carta de apresentação ao Duque de York, a quem eu deveria procurar assim que chegasse. Mas nada disso aconteceu. Por viajar sozinho tornei-me alvo fácil de ladrões. Fui atacado na estrada por três homens que me assaltaram, levaram meu cavalo e esfaquearam-me, abandonando meu corpo no meio da floresta que o caminho cortava.
Eu estava lá deitado no chão, semi consciente, com meu sangue esvaindo-se rapidamente quando ela apareceu. Não consegui ver no momento quem era, só uma imagem distorcida, um borrão a se aproximar de mim.
_Me ajude, por favor! Não me deixe morrer aqui. Meu pai é um nobre de França, poderá recompensar-lhe muito bem.
Ela examinou meu ferimento e sentenciou:
_Só há uma maneira de continuares nesse mundo. Mas se conheceres o preço, talvez deseje morrer – sua voz era metálica, como o soar de um sino, e me assustou. Mas eu estava só e morrendo no meio da floresta, ela era a única chance que eu tinha.
_Não importa. Se eu sobreviver levantarei qualquer quantia que me pedir. Tenho amigos influentes na corte inglesa. Salve-me, eu lhe imploro!
_Não quero seu dinheiro ou de seus amigos. Aceitarei como pagamento a sua companhia.
E antes que pudesse dizer mais alguma coisa eu desmaiei. O que me lembro depois disso é só da terrível dor que tu bem conheces. Quando finalmente recobrei minha consciência é que pude ver que minha salvadora era uma mulher. Alta, esguia, de pele morena, e de cabelos negros e compridos cortados na testa como uma franja. Na verdade era uma peruca. Ela tinha os cabelos raspados, mas o que não lhe diminuía sua beleza. Tinha os mais belos olhos negros que já encontrei, que pareciam me tragar para dentro deles.
O modo como ele a descrevia me fez ficar ainda mais intrigada. Como ele poderia achar bela uma mulher sem cabelos e pele maculada pelo sol? Logo ele que sempre insistiu para que eu me protegesse com chapéus de abas largas para que o sol não queimasse minha pele?
Mas ele não parecia se importar com meus sentimentos, continuava a falar dela como se descrevesse a Vênus de Milos.
_Bem vindo ao mundo dos mortos! - foi o que me disse assim que abri os olhos e pude ver onde estava. Era uma cabana pequena, fria e úmida, com o telhado coberto por galhos e sapê. Suas paredes de pedra abrigavam várias prateleiras cheias de rolos de pergaminho. Além disso, só havia uma cadeira, a cama de peles em que eu estava deitado e uma lareira.
_Eu estou vivo e me sentindo muito bem. Preciso agradecer-lhe por salvar minha vida.
_Não está vivo – disse secamente – sua alma está consciente, mas presa em um corpo sem vida. Enquanto ele existir, estarás preso a essa terra. E é por isso que precisa alimentá-lo de maneira especial. Seu corpo não tem mais condições de digerir o alimento e prover a energia necessária, então precisa ingerir essa energia já processada.
_E como faço isso? – perguntei sem compreender bem o que ela dizia.
_Alimentando-se com sangue. Fresco. Humano preferencialmente.
Eu mal acreditei no que meus ouvidos registraram. Eu teria entendido bem? Teria que beber sangue humano? Fresco? Só agora eu me dava conta de que aquela mulher de aparência incomum era totalmente louca. Meu primeiro pensamento foi deixar aquele lugar o mais rapidamente possível, o que me pareceu mais fácil do que eu imaginava. Foi a própria Otias quem me convidou para sairmos. Imaginei que lá fora não seria difícil despistá-la e voltar à estrada rumo à corte.
Não muito longe ficava uma estalagem. Era noite e ela me apontou o telhado da construção de dois andares. Num só pulo alcançou o beiral de uma janela e sumiu dentro dela. Eu fiquei impressionado com a agilidade dela. Mas não tanto quanto fiquei quando descobri que podia fazer o mesmo assim que ela me acenou lá de cima.
_Isso é fantástico! Viu o que eu fiz? – exclamei maravilhado apalpando minhas pernas que não pareciam ter feio qualquer esforço.
_Podes fazer muito mais do que isso. Enganou a morte. És capaz de qualquer proeza.
_Está dizendo que não vou morrer mais? Que posso viver para sempre?
_Não se pode matar o que já está morto. E o que temos não é vida. É a maldição de ver o mundo se modificar, ver as pessoas que amamos envelhecerem e morrerem. É a solidão da forma mais cruel: no meio do mundo e sozinhos. Sendo odiados, temidos – ela se calou enquanto eu tentava digerir o que ouvia sem compreender, até então, a profundidade de suas palavras. Mas logo chamou minha atenção para a mesa que havia no quarto.
Sobre ela eu reconheci meus pertences. E enquanto eu tocava na bolsa e ouvia o som das moedas chacoalharem dentro dela e rever os últimos momentos em que lutei pela minha vida, ela tocou levemente em meus ombros e disse:
_Vamos esperar. A hora da vingança chegará em breve.
Não sei quanto tempo passamos em silêncio nas sombras daquele quarto a espera de meus assassinos, mas sei que foram horas terríveis. Uma sensação desesperada de algo que eu não compreendia. Ou melhor, sabia, mas não queria crer que fosse verdade. E a sede alucinante alimentava ainda mais o ódio que eu sentia por aqueles bandidos. Olhava para meus pertences sobre a mesa e pensava: minha vida não valia quase nada!
Quando ouvi sons, vindo do lado de fora da porta, eu já estava totalmente tomado pela sede e pelo ódio.   
Foi indescritível. Quando a matança acabou, sentei-me no chão e chorei como uma criança. Eu havia me vingado e aplacado minhas dores, meu corpo reagia aquele sangue de maneira surpreendente e começava a ter uma percepção das coisas ao meu redor como nunca tivera antes. Percepção suficiente para entender o que eu tinha feito e o que agora era: um monstro.
Foi quando ela se aproximou de mim ajoelhou-se e colocou minha cabeça em seu colo:
_Chore se isso lhe fizer sentir-se melhor – sua voz estava suave sem aquele timbre metálico que tanto me assustava. Lembrei-me de minha mãe naquela hora imaginando se ela oferecer-me-ia conforto se soubesse o que fiz.
_Esqueça o passado – disse e eu pude perceber que ela conhecia meus pensamentos – ele só lhe trará dor e arrependimentos. Vamos voltar para a floresta. O sol já vai nascer e ele é seu pior inimigo.
Levantei minha cabeça para olhá-la tão doce a alisar-me os cabelos desalinhados e sujos. Minha cabeça latejava de perguntas e meu peito era estrangulado pelo remorso. Eu só queria que ela me dissesse que aquilo tudo foi só um pesadelo, eu iria acordar e tudo ficaria bem. Mas ao contrário disso, ela se limitou a me puxar pelas mãos e sentenciar:
_Vamos. Tens muito que aprender sobre sua nova condição. E tempo é o que não nos faltará nunca mais.
E foi mesmo um tempo enorme que passei naquela floresta em sua companhia. Longe de tudo e todos. Conformei-me quando descobri que poderia sobreviver sem ter que matar pessoas. Alimentávamos basicamente de animais que caçávamos durante a noite. Só abandonávamos a nossa “dieta selvagem” quando algum viajante se perdia por aqueles caminhos. Sentíamos a léguas o cheiro de sangue humano como os cães de caça farejam suas presas, e ficávamos quase enlouquecidos. Fracos com estávamos era muito difícil nos conter. A sede latejava forte, sentíamos dores e vertigens. Não havia como resistir. E depois voltávamos à leitura dos pergaminhos a procura de uma cura, de alguma esperança para nós. Esse era o nosso maior desejo: encontrar um modo de por fim ao que ela chamava de “maldição de Amom-Rá”, o deus egípcio do sol. Eu sempre perguntava sobre sua vida passada, sobre a terra de onde vinha, mas ela raramente deixava escapar alguma coisa. Sempre me mandava continuar a leitura e não perder tempo com curiosidades tolas.
Certa noite, depois de nos fartar com um pequeno grupo de viajantes incautos, eu explodi:
_Chega! Tudo isso é inútil! Jamais poderemos sair desse lugar, seremos esses monstros que matam mulheres e crianças para todo o sempre. Vou subir a colina e esperar o sol nascer. O inferno não pode ser pior que esse lugar!
_Não vais a lugar nenhum, Filipe – ela gritou com sua voz metálica, e com uma velocidade impressionante, se colocou entre a porta da cabana e eu. Com uma das mãos em minha garganta ergueu-me – se existe uma saída, ela está aqui, nesses pergaminhos.
Eu que me julgava extremamente forte após um lauto banquete de viajantes, pude perceber, para meu espanto, que ela era infinitamente mais forte do que eu.
_É mais sensato colocarmos um fim em nossos corpos antes de matarmos mais alguém - ainda tentei argumentar, tentando invadir a mente dela, enquanto meus pés se debatiam a dois palmos longe do chão
_Sensato é encontrar a cura para os outros – ela finalmente me colocou de volta ao chão - Se morremos, eles continuarão sobre a Terra espalhando a morte, e ninguém poderá detê-los. Ficamos mais fortes com o passar das eras, chegará o dia que nem o sol os deterá. Reinarão soberanos e terão toda a humanidade aos seus pés.
Espantado, eu perguntei mesmo já sabendo a resposta:
_Há outros como nós?
_Sim, muitos. Espalhados pelo mundo. E nem todos tão escrupulosos quanto tu. Imaginas o que pode acontecer se esse poder cair nas mãos de déspotas?
Ela não esperou por qualquer resposta minha. Saiu da frente da porta e voltou a se sentar limitando-se a dizer:
_Deixe essa sua autopiedade de lado. Volte à leitura. Ainda é a melhor opção.

E assim continuamos na floresta acompanhando de longe o mundo se modificar a nossa volta. E ele cada vez mais parecia bem pior do que aquela cabana úmida e uma lebre por refeição. Os homens mesmo se encarregavam de se matarem uns aos outros, e nós não tínhamos qualquer participação nisso. Aos poucos, o respeito que eu tinha pela humanidade ia se acabando. Eu sofria mais a cada dia lutando contra a sede, contra meus instintos, e para quê? Os que eu tentava proteger se jogavam uns contra os outros por títulos, ouro e terras que nem poderiam desfrutar por muito tempo. Logo a morte os ceifaria e outros viriam se matar, lutando por seus despojos.
Por que não eu? Já estava cansado de ler sobre faraós, lendas do oriente sem nunca achar nada que explicasse o que éramos ou como poderíamos voltar ao normal. Se é que existia mesmo um modo de se fazer isso, além de torrar sob o sol.
O mundo começava a me chamar de volta. Oferecendo-me toda a sorte de prazeres. Poderia viver minha juventude para todo o sempre sem ter que me preocupar em adoecer pelos excessos, em envelhecer. Tudo agora me parecia tão mais atrativo. Explodia as primeiras batalhas entre a Inglaterra e a França de que ficariam conhecidas como Guerra dos Cem anos. E que cenário melhor do que uma guerra para eu poder andar livremente pelo mundo? Quem daria falta de mais algumas centenas de soldados?
Eu sabia que ela conhecia meus desejos, embora nunca conseguisse entrar na mente dela com ela fazia com a minha. Tinha certeza de que jamais concordaria com a minha partida, muito menos estaria disposta a seguir-me. E eu desejava muito que ela estivesse sempre ao meu lado. Queria poder lhe mostrar o mundo que ela não conhecia, depois de tantos séculos naquela floresta como um de seus carvalhos enraizados na terra. Poderíamos ter sido felizes juntos. Éramos iguais, compartilhávamos de um segredo que ninguém, jamais poderia saber. Naquela vida de miséria e dor que vivíamos, meu único prazer era poder, todos os dias quando amanhecia, deitar-me junto a ela, sob as peles de animais que forravam a cama, e ficarmos juntos até a noite descer novamente. No início, ela me deixava só na cabana, sumindo entre as árvores minutos antes do alvorecer. Com o tempo, minha devoção e respeito por ela aumentaram à medida que meu desejo diminuía. Olhava para ela e não conseguia mais ver somente a mulher bela de traços exóticos a povoar minha mente de lascívia. Era ela minha mentora, algo mais próximo de uma mãe que minha nova condição permitia.

Filipe se calou. E embora agora eu tivesse a certeza de que ele nunca a tocou, o devotamento que ele nutria pelas lembranças daquela mulher não diminuiu meu ciúme, ao contrário. Ela possuía um lugar na vida dele que eu jamais alcançaria.
 _Ela o deixou partir? – perguntei para tirá-lo daquele transe que me incomodava.
_De certo modo – ele continuava com o olhar perdido ruminando sua solidão – Otias me disse que precisava descansar. Mas não do modo como fazíamos. Ela precisava voltar para a terra. E me fez uma proposta: que eu deveria segui-la. E se meu desejo de voltar ao mundo fosse tão forte quanto eu imaginava, conseguiria deixar a terra e então poderia partir que ela não se oporia.
Irritei-me por ela não me julgar capaz de vencer aquele desafio. No fundo queria evitar que insistisse em tal idéia. Ser enterrado vivo parecia-me algo insuportável. Mas Otias garantiu-me que me faria bem, me fortaleceria e me deixaria pronto para vencer qualquer obstáculo que a nova vida que eu desejava me impusesse. Que eu precisava aprender a vencer a sede e usá-la ao meu favor. Aceitei. Deitei-me numa cova recém aberta ao lado da antiga que a pertencia. Foi ela própria quem me cobriu.
Descobri que depois de certo tempo a sede deixa de nos atormentar e nosso maior desafio e vencer a falta dela. Voltar a ter algum motivo para deixar a terra e voltar ao mundo. Sem sede, nada parece ter mais sentido. Nos tornamos um corpo seco, sem vontade, tentados a viver eternamente como uma raiz enterrada na terra.
Se foi esse o grande desafio que eu teria de vencer, eu venci. Lentamente eu voltei a me mover e a cavar a terra sobre mim. E ao chegar à superfície, depois de muitas tentativas, consegui me alimentar de um filhote de cervo doente que a mãe deixara para trás. Não é fácil conseguir uma boa presa quanto se movimenta com a desenvoltura de um caramujo
Essa foi a primeira gargalhada que Filipe dera desde que começara sua narrativa. Eu não consegui rir junto com ele, aterrorizada com o que ele dizia.
Muitas e muitas noites eu voltei para aquele buraco até ter forças de voltar à cabana. Não havia nenhum sinal de Otias na cova ao lado. Ela certamente me esperava lá para parabenizar-me pela vitória.
Mas ela partiu. Deixou-me apenas uma carta e esse anel – apontando para meu dedo - segurei-me para não arrancá-lo e atirá-lo longe quando soube que essa jóia bizarra a pertenceu.
_E para onde ela foi?
_Para o Egito.
_E o que fez?
_Eu não passava de uma enorme uva-passa, cego como uma toupeira, arrastando-me pelo chão. O que mais eu poderia fazer? Mas precisava me recuperar rápido, deixar aquele lugar e ir atrás dela. Precisava me arriscar na beira da estrada. Com sorte, conseguira chegar até lá antes do sol nascer, e talvez, algum pobre diabo aparecesse. Foi o que fiz na noite seguinte. Um cocheiro, uma velha e sua acompanhante me serviram de jantar. Teria matado os cavalos também, mas precisava deles para deixar aquele lugar antes do amanhecer. No lugar que havia aquela estalagem, crescia uma vila próspera e com comida abundante. Depois de algumas noites não passava de um lugar deserto e mal assombrado. Eu estava recuperado, pronto para ganhar o mundo, levando todas as riquezas daquelas pobres almas comigo. Já em Londres surpreendi-me ao saber que estávamos no ano de 1335, havia passado mais de oitenta anos escondido na floresta, uns trinta deles debaixo da terra.
Comprei boas roupas, aluguei um quarto em uma respeitosa estalagem e comecei a invadir festas da nobreza usando o nome de família de minha mãe. Descobri que meu pai e meus irmãos perderam tudo com a cruzada. E com e eminência da guerra entre a Inglaterra e a França, não consegui aproximar-me de ninguém. Olhavam-me como se eu fosse um infiltrado francês a serviço do rei. Tolos. Eu era apenas o demônio que iria matá-los assim que as luzes se apagassem, mas mesmo assim resolvi deixar o país. Estava cheio de todos eles: franceses e ingleses. Eu só queria naquele momento me divertir e descobrir tudo que minha nova vida no velho mundo poderia me proporcionar. Escondi em um castelo abandonado grande parte da fortuna que amealhei naquele ano e fui para Florença. Lá se respirava beleza. Nada de títulos, monarcas, o que abria as portas para o prazer era o dinheiro, que pude distribuir nas várias casas bancárias, abrindo-se assim, as portas de todas as outras casas. Em pouco tempo aumentei meu crédito nas mesas de jogo, onde eu aprendera a usar meus dons de ler a mente para ganhar na maioria das vezes.
Cheguei a me casar algumas vezes com ricas burguesas, mas logo enviuvava, e culpava a peste. Mas eu era a peste, já que minhas esposas exigiam que eu cumprisse meus deveres de marido, e isso não era possível sem que eu matasse minha sede. Antes mesmo que eu acalcasse o clímax, elas jaziam mortas em meus braços. Mudei-me para Pisa, Siena, e tantas outras cidades argumentando para as pessoas o medo de contágio. Entretanto os lugares começaram a ficar pequenos demais para minha cobiça e luxúria.
Apesar de ter tudo o que sempre quis nas mãos, dono de um poder incomparável, eu me sentia só. Os anos passavam as pessoas envelheciam e eu precisava me mudar, assumir outra identidade em um lugar distante, começar tudo novamente. Comecei a odiar-me, a odiar o mundo, odiar Otias que não me deixou morrer só para depois me abandonar.
Naquela noite, em especial, eu me sentia o próprio demônio que minha mãe não se cansava de falar para que o repelisse com orações, quando eu e meus irmãos éramos pequenos. Cheguei a acreditar que minha desdita era um castigo por não ter seguido seus conselhos, rezado pouco e não ter entrado para a vida religiosa ou partido nas cruzadas para salvar a Terra Santa.
Eu havia saído a cavalo, correndo em disparada sem destino, como se pudesse correr de mim mesmo. Até que me vi nos arredores de uma pequena propriedade vinícola. Invadi a casa e matei, por puro ódio, o casal que ali morava, já que acabava de me fartar com um grupo de jovens bêbados na cercania da cidade. Enquanto eu ainda tinha a jovem mulher entre minhas mãos, ouvi o som mais maravilhoso e, ao mesmo tempo, mais assustador que tinha ouvido no último século. Era o choro de um bebê. Abandonei o corpo sem vida sobre a cama e fui caminhando em direção ao som do outro lado do quarto. Não tinha mais do que uns cinco meses. Pensei em beber aquele sangue tão novo, tão puro, ou simplesmente estrangulá-lo para que se calasse e não atraísse a atenção dos criados. Tirei seu pequeno corpinho de dentro do cesto e apertei-o junto ao meu peito sentindo as batidas aceleradas de seu coraçãzinho. Não tive coragem de matá-lo. E minhas lágrimas se juntaram as dele até que um barulho vindo de fora do quarto despertou-me e eu pulei novamente a janela com ele ainda nos braços.
Passei todo o caminho de volta tentando não pensar na grande besteira que eu havia feito. Quando dessem falta da criança viriam atrás dela. Onde eu a esconderia? Se não tive coragem de matá-la enquanto estava tomado pela raiva, não seria agora, depois que ela havia tocado as fibras mais delicadas de meu coração que, até então, imaginava nem possuir mais. Ainda havia algo de humano em mim. Talvez ainda existisse salvação. Talvez Otias tivesse encontrado nossa cura e logo apareceria para me buscar. Por que mesmo não tendo nenhuma notícia dela desde que deixei a floresta na Inglaterra, eu sabia que ela ainda estava sobre a Terra, eu podia sentir.
Na noite seguinte peguei todos os meus pertences de valor e fui embora, não sem antes matar todos os servos e incendiar a propriedade, apagando assim meu rastro.
Refugiei-me no sul da França, em um lugar próximo ao que eu tinha nascido. Era bom estar de volta. Não havia lugar melhor para se criar uma criança. Era uma menina e dei-lhe o nome de minha mãe, Anne.
                           ## continua na próxima senama ##