Conto em Gotas




Dívidas do Passado - epílogo



Era mais uma noite de sábado de plantão na emergência. Amanda se desdobrava para dar conta de tantos feridos de toda espécie. Acidentes de carro, balas perdidas, brigas, overdoses. Sempre tinha alguém que lhe perguntava por que não trabalhava na clínica da família, com pacientes com hora marcada, fins de semana de folga. Por que insistia em ser uma funcionária pública ganhando uma ninharia para se matar naquela emergência? E Amanda sempre respondia a mesma coisa: aqui sou mais útil. Foi para isso que me formei, para salvar vidas, não para ter um consultório bonito com um letreiro dourado na porta. Aquela emergência era a vida dela. Não tinha se casado, não tinha filhos, nem mesmo um namorado ocasional. Havia se mudado para um apartamento pequeno porque não suportava mais as cobranças da mãe a respeito da vida que levava e das coisas que não tinha. E por esse mesmo motivo acabara se afastando da família também. Seus únicos amigos eram Maurício e Rafaela, que se casaram e tinha um filhinho do qual era madrinha. Mas ela não se sentia solitária ou se queixava da vida. Ela sabia que ele estava sempre por perto, desde sua formatura, quando o vira pela primeira vez depois da noite que o reencontrou na cachoeira, Álvaro era uma presença constante a ampará-la e consolá-la quando por ventura se sentia triste e pensava que o mundo a havia abandonado, que ninguém a compreendia. Toda aquela história, a noite na fazenda, havia se tornado um segredo. Um segredo dela e Maurício, mas que ela evitava ficar relembrando mesmo só entre eles. E quando soube que o tio havia vendido as terras, sentiu-se leve, livre, como se todo o passado sombrio e doloroso houvesse ficado definitivamente para trás. Amanda só havia voltado lá mais uma  única vez para o velório e enterro de D. Diva que faleceu poucos meses depois.
Mas não era hora de remexer no passado. O resgate acabava de chegar com mais uma vítima de acidente automobilístico. Estava se preparando para o atendimento de emergência quando alguém entra no alojamento a sua procura.
_Maurício?! O que faz aqui há essa hora? Está todo ensangüentado. O que houve? Está ferido? – foi falando sem parar assustada com a aparência do compadre.
_Presenciei uma acidente. Tentei socorrer a vítima e como ela foi trazida para cá e eu sabia que estaria de plantão, decidi vim ajudar. Acho melhor você se preparar. O estado dele é muito grave.
Estranhando a atitude do amigo, Amanda sentiu um ligeiro mal estar. Algo de muito sério estava acontecendo. Seria a vítima alguém conhecido? Porém, ela não tinha tempo para isso, as sirenes da ambulância se calaram, eles já haviam entrado com o acidentado.
As pernas dela bambearam quando reconheceu, debaixo da poça de sangue que tinha se reduzido aquele rosto, Bruno. Há muitos anos que não o via, mas apesar do rosto disforme, ela sabia que era ele. Cheiro de álcool, gasolina e sangue exalavam de seu corpo dilacerado pelas ferragens do carro onde ficara preso. Era realmente um milagre que tivesse chegado ao hospital com vida.
Apressou-se em tomar as primeiras providências. Ele vivia, ainda havia esperanças. Maurício, mesmo não fazendo parte do quadro daquele hospital, pois ainda trabalhava na clínica, agora como cirurgião, tomou-lhe a frente, percebendo o quanto suas mãos estavam trêmulas.
Amanda não fez objeções, ela não estava sentindo-se bem. Não era a gravidade do quadro dele que a assustava, eram as lembranças que lhe tomavam de assalto. A fazenda, Álvaro, Leonora...
_Tenha calma, meu amor! – ela suspirou profundamente ao percebê-lo ao seu lado – hoje a nossa história triste chega ao fim. Terei finalmente a oportunidade de pedir perdão ao Barão e me redimir socorrendo-o em seu desenlace.
_O Bruno vai... - não conseguiu terminar a frase com os olhos fixos no acidentado sobre a maca.
_Chegou a hora dele.
Amanda sentiu o leve tocar dos lábios dele em seu rosto, enquanto via vários homens em volta da maca, aos quais Álvaro se juntou atarefado em algo que ela não compreendia, embora não fosse a primeira vez que assistia aquela cena. Podia ver Maurício e outros enfermeiros entre eles, se misturando, se sobrepondo àqueles seres, que sabia, eram irreais, pelo menos para esse mundo. Viu quando outro corpo surgiu sobre a maca. Uma duplicata de Bruno desacordado sobre seu corpo já sem vida enquanto o bip do monitor disparava em um som contínuo, demonstrando o fim da atividade cardíaca. Alguns minutos se passaram até que finalmente a equipe desistiu de tentar ressuscitá-lo e anunciaram a hora do óbito.
Antes de desaparecerem com aquele corpo ainda inerte, Álvaro veio se despedir.
_Leonora, meu amor, creio que minha tarefa como socorrista tenha fim hoje. Ainda há muita coisa que preciso fazer e aprender. Não sei quando poderei estar contigo outra vez. Mas onde quer que eu esteja, meu coração e pensamento estarão aqui. Não desanime. Continue com sua tarefa de salvar vidas. Olhe cada um que aqui entrar como se fosse eu, ainda ferido e sofrendo, e logo poderemos estar finalmente juntos. Que Deus abençoe nosso amor para que ele possa vencer as barreiras do tempo e da distância.
Ela tentou dizer alguma coisa, se despedir como achava que deveria, mas o pranto não permitiu. Apenas balançou a cabeça concordando e tentou sorrir. O que ficou mais fácil ao ver que ele também chorava. Porque não era um choro de tristeza, de despedida. Era uma renovação dos votos, de esperança, de alegria por saberem que toda a eternidade os esperava. E que a verdadeira felicidade se encontra no que é eterno. O mundo ilusório que lhes causou tanta dor e sofrimento um dia ficaria para trás e só levariam dele o que é real. O amor é real. Supera tudo, perdoa, espera, confia.
Álvaro e Leonora venceram a paixão, os desatinos de um sentimento egoísta e inconseqüente. Tiveram que aprender da maneira mais difícil que amor exige renúncias. Que respeita o próximo. Que não faz sofrer quem nos cerca. Que cada sofrimento que causamos tem que ser reparado, que cada lei que infringimos tem uma pena. E eles causaram muito sofrimento, quebraram muitas leis e pagaram com sangue e lágrimas todas elas. Mas como nada, além do amor é eterno, eles venceram.


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2 comentários:

Excelente,
quem sabe não transforma esse conto em um romance.
Parabens!!

 

Adorei o conto, estou torcendo muito por vc. Aguardarei o proximo. bjo.

 

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