Conto em Gotas

                                       
                                Morte, Sangue e Solidão     
                                        - Uma História de Vampiro -


               Meu nome é Anne, nasci no interior da França em meados do séc.XV. Sou órfã. Meus pais morreram quando eu era ainda um bebê. Fui criada por meu tio Filipe. Ele nunca deixou que eu me sentisse só. Cercou-me de carinhos e cuidados. Previa meus desejos e não poupava esforços para me agradar. Deu-me uma educação esmerada. Eu tive uma infância muito feliz.
Apesar de ser muito jovem, meu tio renunciou a própria vida para me criar. Nunca se casou. Nunca se interessou por ninguém. E pretendentes não faltaram. Embora tivesse sempre um sorriso nos lábios, eu o achava extremamente triste e doente. Passava grande parte do dia trancado em seus aposentos. Raramente saía de casa. Porém, jamais deixou de abrir os salões para comemorar meus aniversários. Quando eu era criança, convidava as famílias mais importantes da região, para um dia de jogos e brincadeiras, porque achava importante que eu tivesse outras crianças para brincar.
Quando cresci, vieram as festas, os bailes. Eram grandiosos. A orquestra, as damas rodopiando com seus pares, colorindo o salão com seus vestidos brocados. Os criados, indo e vindo, trazendo vinho e assados. O barulho frenético das carruagens chegando. Os cavalheiros de casacas bordadas e sapatos brilhantes. Gostava de ouvir o som dos cascos dos cavalos batendo contra as pedras do pátio.
Meu tio esperava que eu encontrasse meu príncipe encantado nessas ocasiões. E sempre ia à Paris cuidar de sua saúde antes de meus aniversários. Eu nunca o acompanhava nessas viagens. Ele dizia que estaria mais segura aqui, em nossa vila. Mas o que realmente importava para mim era vê-lo voltar, meses depois, mais saudável, mais corado e bem disposto. Assim, nunca perdeu nenhum de meus aniversários e passava a noite inteira recebendo a nobreza, os ricos burgueses e donos de terras, e recusando pedidos de casamentos. Esse ano, em que eu completava dezoito primaveras, seria diferente. Eu havia conhecido alguém. Um conde que voltava para as terras da família depois de longos anos na corte. Estava totalmente encantada por ele. E Denis Chambord, o Conde Duffroit, também demonstrava seu amor enchendo-me de pequenos mimos em forma de jóias, prometendo-me pedir a meu tio minha mão em casamento. E a noite do meu baile parecia ser a data ideal para firmarmos esse compromisso.
Estava no meu quarto, olhando-me no espelho enquanto Amelie, minha criada, prendia meus cabelos, quando meu tio bateu na porta e entrou.
_Pronta? Deixe-me olhá-la - disse-me me puxando delicadamente pelos braços - Linda! Esse vestido azul lhe deixa especialmente bela. Estás feliz?
_Muito. Creio que serei pedida em casamento esta noite - Eu estava realmente radiante.
_O Conde? - meu tio me deu as costas e ficou em silencio enquanto eu dizia o quanto o Conde era lindo, galante e o quanto eu o amava. Em meio a minha euforia não percebi que ele estava contrariado.
_Ama-o com todas as forças de seu coração? - ele virou e me encarou. Seus olhos pareciam vasculhar minha alma.
_Não crês em mim? - não entendi sua desconfiança, ele jamais duvidava de minha palavra.
_Acho que deverias esperar, certificar-se se é isso mesmo que quer.
_Não vais me dar o seu consentimento?
_Quando tiver certeza de que o amas e será feliz com ele, eu darei - me deu as costas e continuou:
_Vou descer e receber nossos convidados que começam a chegar. Desças em seguida - bateu a porta atrás de si.
Dancei muito aquela noite. Mal tive tempo para conversar com minhas amigas. Elas estavam mais interessadas em admirar meu tio. Não era só eu que tinha crescido e começado a me interessar pelos homens. Todas nós estávamos na difícil fase de encontrar um bom pretendente e, como costume da época, consolidar a fortuna da família.
_Ele é tão belo! - disse uma.
_Parece que os anos não passam para ele. Está cada dia mais viçoso! - outra completou entre risinhos.
Aquele assunto irritava-me profundamente. Meu tio não era para elas. Ele merecia alguém muito especial. Todas elas me pareciam tão fúteis e infantis. Mas não tive tempo de repreendê-las. Logo Denis vinha cobrar minha atenção e me conduzir novamente para o salão de baile.
Comecei então a vigiá-lo de longe. Queria me certificar que elas não ousariam a importuná-lo. Corria os olhos pelo salão e ele estava sozinho, sorvendo lentamente uma taça de vinho. Nossos olhares sempre se cruzavam e aquilo também começou a me incomodar. Minhas amigas tinham razão, ele era jovem e belo. Possuía fartos cabelos castanhos que iam até seus ombros, e que naquela noite estavam impecavelmente penteados e presos na altura da nuca por uma fita de veludo verde, como a sua casaca. A boca bem desenhada de lábios grossos, nariz fino levemente arrebitado. Não era muito alto, mas extremamente elegante. Mas eram seus olhos que me encantaram, possuíam um azul tão profundo e intenso, mas que algumas vezes pareciam de vidro e sem vida. E nessas horas eu sempre me aninhava em seus braços, beijava-lhe a face e eles voltavam a emanar um calor que me aqueceu a vida toda. Então eu deixava o seu colo e saía para brincar ou estudar satisfeita só em saber que ele estava por perto, e sempre estaria.
Tínhamos muitas posses, o que o tornava ainda mais cobiçado. Não me agradava vê-lo ser disputado por motivos tão pouco nobres. Ele era mais que uma bolsa de moedas. Ele era inteligente, culto e espirituoso. De espírito nobre e altivo.
Passei grande parte do baile pensando o quanto minhas amigas eram pretensiosas. Nenhuma delas ou qualquer outra mulher naquele salão, estava à altura dele.
Já estava no quarto preparando-me para dormir, quando meu tio bateu na porta.
_Só um minuto! - de repente senti vergonha. Não queria que ele me visse com roupas de dormir. Afundei-me na cama e puxei as cobertas até o pescoço, antes de dispensar Amelie, que deixou o quarto assim que ele entrou.
_Incomodo? - perguntou logo que se viu sozinho comigo.
_Não, meu tio, nunca me incomoda – sorri um tanto embaraçada com medo que ele percebesse meu desconforto.
Ele se sentou na cama, observou-me por alguns segundos e disse solene:
_Recebi a proposta do Conde - e voltou a me olhar daquele modo incômodo.
_E o que meu tio disse a ele? - evitei encará-lo fingindo arrumar as cobertas embora estivesse ansiosa por sua resposta.
_Que iria primeiro me certificar de sua vontade.
_O senhor já conhece minha vontade! – respondi estranhando a atitude dele. Não pude acreditar que ele recusaria o pedido. Tinha passado os últimos meses aceitando convites para cavalgadas, jogos e ceias na propriedade do Conde Duffroit. E falando sem parar o quanto eu o achava belo e galanteador. E o quanto eu gostaria de ser condessa.
_Sim, eu a conheço, mas tu ainda não! - seu olhar era desconcertante.
_Acreditas que ainda sou uma criança? E que não sei o que quero? – pulei da cama irritada, esquecendo-me das cobertas e de que usava uma fina camisola que há minutos atrás me deixou constrangida.
_Não – ele finalmente sorriu - acho que sou eu que não quero admitir que cresceste. És uma mulher! Desculpe-me querida.
Ele também se levantou da cama, me beijou a testa de modo doce como sempre fora comigo, e completou:
_Falaremos sobre esse assunto em outra oportunidade - colocou a mão no bolso interno da casaca verde com brocados dourados que usava e tirou um lenço de renda que embrulhava algo, colocando entre minhas mãos:
_Seu presente de aniversário!
Quando desembrulhei vi que era o anel mais estranho que já havia pousado meus olhos. Um grande besouro azul, incrustados sobre um grosso aro de ouro. Creio que não consegui esconder meu espanto, e ele logo se apressou em explicar a origem e o significado daquela jóia enquanto a colocava em meu dedo.
_Esse anel é uma raríssima jóia egípcia. Uma espécie de amuleto. O escaravelho que significa sol e a criação, o azul que o cobre, representa o céu à noite e as pedras de rubi, ao lado, o sangue que é a energia e a vida. Repare nas pequenas pedras verdes – ele continuava empolgado com sua explicação – significa a ressurreição, a renovação.
_E o diamante que está entre os rubis? – perguntei querendo parecer interessada. Aquele anel era realmente muito esquisito, mas teria que usá-lo afim de não parecer mal agradecida.
_Representa a alma ou, como alguns dizem, é a própria essência da Deusa Ísis – e segurando minha mão com um pouco mais de força, completou me encarando:
_Ela irá protegê-la contra os seres criados sob sol da noite.
Eu não conhecia nada sobre deuses egípcios ou suas atribuições, e também não tinha compreendido bem o que significava toda aquela história de seres do sol da noite, eu só queria voltar para cama e me conformar em ter que ostentar aquela jóia bizarra. Mas naquele momento parecia a menor de minhas preocupações. Confesso que preferia abrir mão de qualquer presente para que ele parasse de me olhar daquele modo. Era como se desnudasse minha alma.
Fiquei horas rolando na cama tentando conciliar o sono. Suas palavras ferviam em minha mente. O som da orquestra, minhas amigas exaltando sua beleza, as juras de amor que o Conde me havia feito. Tudo agora parecia tão irreal.
Olhei mais uma vez para aquele besouro, ou escaravelho, como ele insistia em corrigir-me, e pulei da cama. Vesti meu manto e sai em direção ao quarto de meu tio no fim do corredor. Bati, chamei e ele não respondeu. Impaciente, abri a porta, mas ele não estava lá.
A cama feita, as janelas abertas faziam as cortinas se levantarem com o vento. Voltei-me para porta, já saindo, quando ele me chamou.
_Anne, o que quer aqui? - ele apareceu no meio do quarto e estava diferente, com as faces afogueadas e pupilas dilatadas. Suas narinas pulsavam com o vigor de sua respiração ofegante. Talvez fossem as luzes das velas as responsáveis por aparência tão assustadora.
_Desculpe-me, meu tio, não o vi. Pensei que... – não era fácil ocultar meu assombro. Por essa razão continuei a deixar seu aposento.
_Deves ter algo muito importante a me dizer, para ter vindo aqui a esta hora! – me interpelou fazendo-me voltar a encará-lo. Ele parecia contrariado com minha presença.
_Creio que posso esperar até amanhã - estava muito desconcertada e só queria sair dali o mais rápido possível. Sentia que algo não estava bem.
_Boa noite, meu tio.
_Boa noite, minha criança – senti o alívio em suas palavras com a minha saída.
O dia seguinte foi o mais triste da minha vida. Logo cedo recebi a notícia de que o Conde estava morto. Ele, o cocheiro e mais dois amigos que viajavam em sua companhia, haviam sido atacados e mortos na volta para casa. Alguns diziam que tinham sido vítimas de salteadores, outros, afirmavam que pelo estado dos corpos mutilados teria sido uma matilha de lobos raivosos. Mas para mim a única coisa que realmente importava era que meu futuro noivo estava morto. E meus sonhos mortos com ele.
Não fui aos funerais. Meu tio estava doente, todo o esforço com a noite anterior abalara sua saúde que era muito frágil, então decidi lhe fazer companhia.
Ele passou o dia na cama, com as cortinas cerradas, enquanto eu lia para ele com o auxílio de uma vela.
_ Meu tio, não quer que eu abra as janelas, para deixar a brisa entrar? Farar-lhe bem!
_Não. Sabes que meus olhos são fracos e não suportam a luz intensa – respondeu num fio de voz mantendo os olhos fechados.
_Como quiser! - continuei a leitura.
Meu tio ficou naquele estado por semanas. Jogado naquela cama, sem comer ou beber. Mal abria os olhos, não falava, nem mais queria   que eu lesse para ele.
Desesperava-me vê-lo definhando lentamente. Sua pele pálida parecia murchar sobre os olhos. Seus cabelos e seus olhos não tinham mais brilho. Ele estava morrendo.
Tentei convencê-lo a ir para Paris, pois ele sempre voltava da corte restabelecido.
_Não vou a lugar nenhum! - ele pareceu reunir todas as suas forças para gritar, batendo os braços contra a cama - Vás, arrume suas coisas e parta logo, não a quero mais nessa casa.
Depois de sua breve explosão, tombou a cabeça para o lado e parecia totalmente entregue.
_Não quero deixá-lo, meu tio! – a essa altura eu já estava em prantos - és a minha família. Como viveria sem o senhor?
Seus olhos se abriram lentamente e ganharam uma doçura que me envolveu e deixou-me ainda mais aterrorizada com a possibilidade de perdê-lo. Procurou por minha mão, que lhe estendi depois de tentar secar minhas lágrimas.
_Oh, minha criança, é inevitável – sua voz era suave embora vigorosa - Um dia teremos que nos separar.
Seus lábios tremiam. Tive a impressão que ele tinha algo a me dizer e esforçava-se para manter as palavras dentro da boca. Até que fechou os olhos e pareceu dormir.
Apesar da educação que tive, nunca fomos religiosos. O deus do qual eu ouvia falar não me parecia muito real. O que eu sabia sobre ele era através das intermináveis orações de Amelie ao seu deus crucificado. Mas em meio a meu desespero, vendo meu tio a um passo da morte, me ajoelhei ao lado de sua cama e rezei:
_Senhor dos cristãos, disseram-me que és poderoso e que atendes a todo aquele que busca por ti. Não sei rezar como Amelie, mas, é suplicando, que recorro a sua compaixão: não permita que meu tio morra! Ele é um bom homem. Jamais fez mal a alguém. Renunciou a sua vida para me criar. Asseguro-lhe que não há na face da Terra homem tão bondoso, de coração tão nobre e ...
_Cale-se! – esbravejou. Ele não estava dormindo.
_Não sabes as blasfêmias que proferes - furioso, mandou-me para fora de seu quarto.
Sem entender, saí dali aos prantos. Tranquei-me no meu quarto e gritava: “Louco! Louco!”. Adormeci de tanto chorar. Quando abri os olhos, meu tio estava lá de pé ao lado de minha cama. Sua aparência era horrível, mas ele estava firme.
_Vim pedir-lhe que me perdoe. Não tens culpa de minha desgraça.
_O que fiz de errado? - Fiquei aliviada ao vê-lo novamente.
_Fui eu quem errou – ele deixou os braços tombar ao longo do corpo em completo desalento - criei um mundo que agora não posso mais viver. Pensei ter o controle de tudo. Mas não consigo controlar nem a mim mesmo. Estou encurralado, sem saída. O que quer que eu faça, fará que eu perca o que mais amo: a ti!
Não entendi o que ele dizia. Mas vê-lo chorando fez meu coração sangrar. Faria qualquer coisa para que ele não sofresse mais.
_Por favor, eu quero ajudar-te, mas não sei como - olhei-o bem nos olhos e pedi:
_Conte-me o que preciso saber - eu pressentia que ele precisava me dizer algo.
Depois de um longo silencio ele falou, e falava como alguém rendido, entregue e sem armas.
_Não sou seu tio. Nem tenho nenhum parentesco contigo - ele riu num misto de angústia e desespero – nem mesmo um homem de verdade eu sou!
Com a cabeça girando eu só consegui dizer:
_O quê? Quem és então?
_Sou um vampiro!
Não sabia direito o que pensar. Estaria louco? Com febre e delirando? Já tinha ouvido falar nesses seres da noite que chupam sangue, moram em tumbas e se esgueiram na escuridão. Mas não! Não podia ser verdade. Ele em nada se parecia com essas criaturas horrendas, de dentes pontiagudos que se transformam em morcegos.
Voltei-me para ele na esperança que me dissesse que tudo não passava de um mal entendido, ou que estava zombando de mim. Porém, tal foi a minha surpresa quando me deparei com sua boca arreganhada suas presas salientes e uma expressão de fúria.
Não pude me mexer. O grito não saia da garganta. Estava paralisada de medo.
_Acreditas em mim agora? – ele gritou e o timbre assustador da sua voz fez quebrar as vidraças da janela. Tudo escureceu.
Não sei quanto tempo de passou. Quando recobrei minha consciência vi meu tio olhando-me com preocupação e ternura. Suspirei aliviada. Tudo não passou de um pesadelo.
_Não foi um pesadelo – respondeu como se lesse meus pensamentos. E de cabeça baixa continuou:
_Sou mesmo o monstro que viste. Mas não temas, nenhum mal farei a ti.
_Como pode? És tão belo, tão terno! És a única pessoa que amo nesta vida.
Não tive medo dele. Queria me aninhar em seus braços, como fazia quando era criança, e me sentir segura novamente.
_Não chegues perto de mim. Nunca mais pense em me tocar.
Percebi neste momento que era verdade: ele podia ler meus pensamentos. Meu rosto enrubesceu: “ele sabe”.
_Não posso ter a certeza que tu ainda não tens – e me deu as costas sem se atrever a me olhar.
Continuei com meus pensamentos desencontrados e confusos. “Se ele não é mesmo meu tio, então não é imoral. Mas o que ele é? Um monstro? Uma aberração? Não! Deve haver outra explicação. E se ele não for mesmo humano? O que fazer?”. Minha cabeça fervia.
Quando me dei conta ele não estava mais ao meu lado.
A lareira acesa ganhou força. As labaredas iam altas. E a mancha negra, no meio do fogo, não deixava dúvidas: ele estava dentro dela.
Cruzei o quarto mais rápido que meus pés permitiram. Puxei-o para fora, e seu corpo tombou. Joguei o tapete sobre ele, enrolando-o até que as chamas se apagassem. Ainda hoje não sei como consegui fazer isso.
Meu tio não se movia, mas eu sabia que ele estava vivo. Era estranho, mas eu podia sentir isso. Não tive coragem de olhá-lo. E ele novamente invadiu a minha mente, e eu tive a certeza de que era ele quem falava: “não faças isso”.
_O que faço então? – deixei as palavras escaparem debilmente.
_ “Me deixe morrer”.
_Terás que me matar também – respondi resoluta.
Tomei coragem e puxei o tapete. Um grito rouco saiu de minha boca. Era muito difícil olhar para aquele esqueleto recoberto por uma espécie de couraça preta e enrugada.
Concentrei-me em seus olhos esbugalhados, mas que continuavam azuis, como sempre foi. O cheiro de carne queimada embrulhava-me o estomago. Fechei os olhos e tentei ser forte.
_Não vou deixá-lo. Diga-me então, o que tenho que fazer. 
 Esperei por uma resposta que não veio. Ele estava tão decidido a morrer quanto eu a não deixar que isso acontecesse. Monstro ou não, meu tio ou não, eu o amava e essa certeza era a única que tive a minha vida toda. E ficava cada vez mais clara e forte para mim: não poderia viver longe dele.
Se ele era mesmo um vampiro, precisava de sangue. Ameacei a deixar o quarto para providenciar-lhe uma refeição imaginando como teria a coragem necessária para matar alguém e trazer o corpo até ali, vencer toda a escadaria e o longo corredor, quando finalmente ouvi sua voz dentro de minha cabeça novamente.
_ ”Traga-o até aqui vivo”.
_Quem? – perguntei
_ ”Alguém que não lhe fará falta”.
Apesar de estar decidida a fazer qualquer coisa para salvá-lo ainda havia um pouco de escrúpulos em mim. “Como dispor da vida de alguém me baseando em sua serventia?”. Parecia-me cruel e desumano. Mas servi-lo de um farto banquete de sangue humano também não era? Eu não poderia fazer isso. Entretanto, poderia dar-lhe algo meu sem ter que ferir ninguém.
Enquanto meus pensamentos tomavam forma em minha mente, o corpo dele estremeceu sob o tapete. E uma onda de súplicas tomou conta de mim.
_ ”Não! Por favor! Vá embora, saias daqui! És jovem, tens toda uma vida pela frente. A mim, só resta à eternidade na solidão! É insuportável viver assim. Quero por um fim a tudo isso! Vá para a corte. Lá poderás ser feliz. Nunca mais a importunarei".
Depois, a única coisa que eu conseguia discernir era infindáveis pedidos de perdão. Cada vez mais eu me sentia na necessidade de fazer alguma coisa. Ele sofria, se não pelas queimaduras que, estranhamente, secaram toda a sua carne, mas pelo que sentia diante da impotência de sua situação.
Mas eu poderia mudá-la. Não deixá-lo sozinho. Ou era eu quem não desejava ficar sozinha? Ficar longe dele logo agora que eu descobrira que podia amá-lo sem culpa? Talvez ele estivesse certo, seria preferível a morte. E eu havia me decidido.
Aproximei-me dele e sussurrei-lhe na altura de seu ouvido:
_Levá-lo-ei de volta para a lareira. Irei contigo e não poderás me salvar. Mas se aceitar-me terás chance de me socorrer, caso contrário, morrerei contigo. A vida também não me interessa senão ao seu lado. Sabes que meu amor por ti vai muito além do que o de uma mulher deveria ter para com um parente.  Disseste-me que não é meu tio, então não tenho mais que envergonhar-me do que sinto.
Abracei-o por sobre o tapete ainda quente das chamas e pela primeira vez deixei espaçar o seu nome: Filipe. Novamente senti seu corpo estremecer e enchi-me de coragem para arrastá-lo até a lareira. Fechei os olhos e enfiei-me debaixo do tapete abraçando seu corpo murcho antes de nos atirar nas chamas. Enquanto o fogo se alastrava sobre a lã, senti ele se mover. Era sua cabeça que pendia até a altura de meu pescoço. Ele também já fizera sua escolha. Prendi a respiração, pois seu cheiro me causava náuseas. Esperei pela dor de seus dentes dilacerando minha carne, mas ao invés disso, o que senti foi um agradável topor tomando conta de meu corpo à medida que meu sangue se esvaía. Minha mente encheu-se de imagens extraordinárias de lugares que eu não conhecia, e me deixei encantar pela floresta de altos carvalhos que me cercava como um labirinto. Podia sentir o cheiro do mato molhado, meus pés sob um colchão de folhas secas que estalavam ao menor toque. Livros, muitos livros a minha volta. Suas páginas desfilavam rapidamente sobre meus olhos e maravilhava-me com as coisas que aprendia. Senti o gosto da terra em minha boca. Logo vi luzes. Cidades. Muita gente passou em minha mente em rápidos flashes enquanto eu ouvia sem parar: Otias...deusa...verdade...Egito...Ísis...sangue...
De repente, outros sons: risos, gritos, choro. Choro de um bebê que ficava cada vez mais fraco e distante. Eu estava morrendo. E antes que tudo estivesse consumado, pude sentir meu corpo sendo atirado contra o chão. E o nada.

                                           # #continua na próxima semana #

Conto em Gotas

    
        Dívidas do Passado - 4ª parte


A terceira guerra mundial estava prestes a estourar. Só agora haviam se dado conta de que a imponente casa grande só possuía um banheiro para as nove pessoas. Quando foi construída não tinha banheiros, não era costume da época. Depois de muitos anos e vários donos, alguém deve ter se rendido a essa necessidade e transformado um dos quartos. Sete quartos e um banheiro, como diria o Júnior: ninguém merece!
Depois de apaziguar os ânimos e deixar que todos usassem o banheiro antes dela, Marise perguntou pela sobrinha:
_Está dormindo, mãe.
_Vá acordá-la para jantar. Não adianta dormir de estômago vazio.
Rafaela preferia que a prima continuasse a dormir, só assim tinha a certeza de que nada de estranho aconteceria. Mas diante da insistência da mãe seu recurso foi procurar por seu cúmplice.
_Vem comigo, Maurício? – seu olhar era suplicante e ele não resistiu sorrindo de satisfação.
Igualmente satisfeita ficou a mãe de Rafaela por verem os dois finalmente se entendendo. Nunca tinha visto a filha tratar aquele que imaginava, seria o genro ideal, com tanto carinho.
Amanda estava dormindo do mesmo modo que haviam deixado algum tempo atrás. E assim que Rafaela a chamou ela abriu os olhos junto com um leve sorriso.
_Vem jantar?
_Claro, estou morrendo de fome – pulou da cama e deixou o quarto deixando os dois se entreolhando atônitos.
_O que eu faço? – perguntou Rafaela visivelmente perturbada.
_Nada. Vamos esperar e ver o que acontece – e aproveitando a fragilidade da moça, finalmente pode abraçá-la e oferecer-lhe conforto e amparo.
O jantar foi animado. Todos queriam contar seus planos para o dia seguinte. O que não eram poucos. Apenas Maurício e Rafaela pareciam preocupados demais para abrirem a boca. Mas ninguém percebeu seus olharem fixos em Amanda, que também tecia seus planos aceitando o convite dos garotos para andarem a cavalo, depois que voltasse da cidade com os tios.
Ao deixarem a mesa, Júnior e Adriano voltaram para a sala com suas pretendentes, acompanhados pelos olhos atentos de Marise.
A filha de Leda foi para a varanda acender um cigarro e logo se viu acompanhada de seus dois escudeiros.
_Tudo bem com você? – Rafaela foi logo perguntando, enquanto abanava com as mãos a indesejável fumaça que vinha em sua direção.
_Tudo – soltou outra baforada – essa tarde de sono me fez muito bem. Estava precisando mesmo por meu sono em dia.
E vendo pela primeira vez os dois de mãos dadas, apressou-se em apagar o cigarro em sentenciar:
_Vou tomar um banho e voltar para a cama – piscou o olho para a prima dizendo em seu ouvido:
_Estou gostando de ver! Vai fundo Rafa! – e sumiu porta adentro.
_Será que sou eu, ou ela tá doida?
_Ela vem de um período de grande stress: o acidente, internação, fim de um longo relacionamento. A Drª Leda me contou que o antigo namorado não a deixa em paz. Que a persegue dia e noite. Todos esses fatores podem interferir seriamente no sistema nervoso e estar causando esse comportamento. Uma espécie de fuga da realidade. Vamos dar um tempo para ela. Logo ela se ajusta.
_E se ela não se ajustar? As coisas que ela me disse lá no quarto. Que sente que já conhecia essa casa, aquele quarto-masouléu. Que os estofados da sala de jantar eram azuis, as cortinas de renda. Isso, sem falar no bambuzal e na cachoeira. Afinal o que foi aquilo? Stress?
_Não sei – ele preferiu omitir que às vezes também tinha a mesma impressão de familiaridade. Rafaela demonstrava não acreditar nessas coisas e isso podia servir para afastá-la. Não faria nada que pudesse atrapalhar essa súbita aproximação dela. Resolveu sondá-la um pouco mais.
_Mas há muitos relatos de pessoas que dizem sentir isso em lugares que nunca estiveram antes. Nada que poderíamos julgar como desequilíbrio emocional.
_Amanda nunca foi assim – pareceu não ouvir o comentário e falava como se estivesse apenas pensando em voz alta - Tirando o Bruno que foi um “atestado de insanidade temporária”, ela sempre foi muito mais ajuizada do que eu.
Maurício riu da colocação dela que finalmente o encarou.
_Você ri? E se ela tiver outro surto durante a madrugada? Eu estou com medo de dormir com ela.
Rafaela esperou pela piadinha infame que a convidaria para passar a noite com ele. Mas ela não veio e sentiu uma estranha satisfação, quase não podendo ocultar a mordiscada nos lábios.
_Calma. Vamos esperar – respondeu o médico sem notar a mudança nas feições dela - Talvez não aconteça mais nada de estranho, e vamos chegar à conclusão que tudo isso foi decorrente da interrupção da medicação e falta de uma boa noite de sono.
Ela continuava fitando-o com um olhar de interrogação. As colocações dele não foram suficientes para convencê-la. E ele esforçou-se para não tomá-la em seus braços e beijá-la. Mas isso certamente colocaria um fim em toda e qualquer possibilidade de manter e estreitar aquele laço que se formava entre os dois. Conhecia Rafaela e seu gênio inquieto e indomável para saber que não o perdoaria se avançasse o sinal sem o seu consentimento. Era hora de deixá-la antes que cometesse uma grande besteira.
_Vou me deitar. Amanhã quero aproveitar bem o dia que segunda eu volto ao batente. Mas se precisar de alguma coisa, pode me chamar.
_Mas já? – ela pareceu frustrar-se, o que o deixou intimamente feliz.
_O dia foi longo. Amanhã pretendo viajar antes de anoitecer.
_Vai ficar muito cansado para trabalhar na segunda. Posso falar com meu pai e você...
_Obrigado, mas não precisa – a interrompeu antes que se arrependesse de não beijá-la - Sabia que seria um pé lá outro cá. Prometi a sua tia que estaria na clínica segunda, bem cedo. Compromisso é compromisso. Assim que puder, eu volto.
_No próximo sábado? – Rafaela sentiu que estava parecendo muito interessada, mas não podia perder o único que poderia ajudá-la com Amanda, o único que, durante as crises, ela parecia ouvir.  
_Talvez.
_Você tem razão. Melhor ir dormir. Boa noite!
Rafaela deixou a varanda o mais rápido que pode, sentindo-se uma tola oferecida. Maurício era só alegria. Não importava os motivos dela. Ela o desejava por perto.
Vendo a filha entrar contrariada, Marise percebeu que era hora de dar um pouco de atenção ao seu convidado, que certamente acabava de ser maltratado pelo gênio difícil da filha. Um tanto sem graça, tentou puxar conversa:
_Então, Maurício, o que achou do lugar?
_Lindo D. Marise! Fazenda de novela – disse se debruçando no peitoral, tentando ver o que a escuridão da noite ocultava - Tanto ar puro, animais. E esse silêncio? Chega a me deixar zonzo!
_É. Pra quem gosta... – deixou escapar sua insatisfação.
_A senhora não gostou?
_Para fins de semana. Não para me enterrar viva aqui para o resto de meus dias.
_Pelo pouco que conheço do Dr. Carlos, também não creio que ele se adapte. Ele está encantado, mas não vai vir morar aqui. A senhora pode ficar sossegada.
_Deus te ouça, meu filho.
Depois de dar uma boa encarada no jovem a sua frente, Marise o bombardeou de perguntas a respeito da súbita aproximação da filha com ele, o que deixou o rapaz bastante encabulado. Também não deixou de dizer o quanto ela, o marido e até a cunhada, torciam para que os dois, finalmente, começassem a namorar, falando sem parar, sem deixá-lo sequer responder a maioria das perguntas que fazia.
Já satisfeita com o possível relacionamento que surgia entre os dois, a mãe de Rafaela se despediu e foi para seu quarto onde o marido já a esperava.
Os mais jovens também já tinham se cansado dos jogos. As meninas seguiram para o quarto que dividiam, onde, certamente, fofocariam até altas horas. Júnior e Adriano não resistiram e pararam na porta do quarto delas, se esforçando para ouvir o que diziam entre tantos risinhos abafados. Frustrados com a ineficácia da tentativa resolveram ir dormir.
Maurício continuava na varanda olhando para o céu maravilhado. Nunca tinha visto tantas estrelas. Embora embevecido com o espetáculo da natureza envolta pela escuridão, deixando-se ver apenas os contornos das árvores e morros, a cabeça dele dava mil voltas. Era muita coisa para digerir. O que estaria acontecendo com Amanda? O que aquela simpática senhora escondia? Será que Rafaela tinha baixado a guarda agora com o fim de seu namoro, ou apenas via nele um cúmplice diante do inexplicável comportamento da prima?
Pensou em ir procurar D. Diva e tirar dela tudo que parecia saber. Mas era tarde, ela certamente já teria ido para casa.
Encontrou as chaves do carro no bolso. Foi até lá, reclinou o banco e ligou o som. Ele precisava relaxar e depois tentar dormir.
O cd do Pink Floyd, Division Bells já estava na quinta faixa quando algo chamou sua atenção. Acendeu os faróis para ver o que se movia na escuridão. Desligou o som, pegou uma lanterna no porta luvas e saiu correndo atrás de Amanda que tomava o caminho da antiga senzala.
Quando conseguiu alcançá-la, pode perceber que ela não estava bem. Respiração ofegante, olhos injetados, suor brotando-lhe na testa. Podia ver seu corpo todo tremer. Ela não o respondia. Decidiu então segui-la de perto e ver o que aconteceria.
Apesar da escuridão do caminho ela não vacilava, suas passadas eram rápidas e pareciam deslizar por sobre o chão.
Ela parou diante da mesma pedra que havia se sentado à tarde, e Maurício preferiu manter certa distância. Estava apreensivo, mas havia mais alguma coisa que o deixava inquieto que ele não sabia precisar. Aquela cena inusitada lhe parecia tão familiar.
Sentiu o coração saltar do peito quando a ouviu chamar por Álvaro. Um mal estar tomou conta de seu corpo. Talvez tivesse desmaiado se uma mão não tivesse lhe tocado o ombro e uma voz bondosa não tivesse o acalmado.
_Está tudo bem Dotô. Ocê já foi perdoado. Mais o coração do dotô precisa ouvi isso dele, né?
                    _Ele quem? – balbuciou sem entender.
_Do moço que ocê traiu. Entregou pro sinhozinho. Mas ele sabe que o dotô não fez por mar. Era seu trabaio. Tava só defendendo seu patrão.
Maurício ainda pensou em perguntar o que D. Diva estava dizendo, mas alguma coisa dentro dele fazia muito sentido.
Amanda ainda chamava por Álvaro quando suas feições mudaram. Parecia ter se assustado com algo, e fixou o olhar no estreito caminho acima da cachoeira.
_Álvaro, o que aconteceste? Estais todo sujo, desalinhado – depois de uma breve pausa ela gritou:
_Sangue?! É sangue que empossa suas roupas?
Um calafrio percorreu a espinha do médico, que estava entre surpreso e assustado com o que via.
Um rapaz de estatura mediana, cabelos negros levemente cacheados, com olhos brilhantes como se fossem feitos de vidro. Tinha a pele tão branca que pareciam reluzir sob a luz tímida da lua nova. Havia sangue escorrendo pelo canto direito da boca. A casaca que usava era um misto de terra, sangue e capim. Caminhava lentamente, curvado para frente, tendo as mãos na altura das costelas, também do lado direito do corpo. Suas botas de canos até os joelhos estavam sujas de lama.
 Teve ímpeto de correr até aquela deprimente figura, atirar-se aos seus pés e lhe implorar por perdão. Mas perdão de que?
Mas nem se quisesse conseguiria deixar aquele lugar. Era como se seus pés estivessem enraizados no chão. Sentia seus músculos retesados, o coração acelerado. O que ainda o mantinha de pé era o abraço maternal que a velha empregada lhe dava, sustentando-lhe.
Novamente seu corpo foi estremecido por outro calafrio assim que Álvaro começou a falar.
_Não se assuste, minha querida. Eu ficarei bem.
_Estais ferido! Preciso levá-lo daqui.
_Não! – esquivou-se evitando que ela o tocasse – sente-se.
Amanda obedeceu como uma criança, sentando-se na pedra próxima, sem fazer objeções.
O silêncio tomou aquela pequena clareira enquanto ele contraia os músculos da face evidenciando a dor que sentia. Parecia que até o rio diminuíra sua vazão para não quebrar o encanto daquele reencontro.
_Tive tanto medo de não mais vê-la, Leonora! – seu olhar era tão terno que momentaneamente parecia mais humano – tanto tempo aqui a te esperar! Estás diferente, ainda mais bela.
 Outra onda de dor o calou.
_Por que não me esperou? Não cumpriste sua promessa. Eu estou aqui esperando por ti há muito tempo e nunca que chegavas. Disseram-me que colocaste fim a própria vida. Que não viria. Mas eu não pude acreditar!
Álvaro parecia inconformado. Balançava a cabeça enquanto falava entre um espasmo de dor e outro.
_Perdão, meu amado! – Amanda ou Leonora como ela a chamou, desatou a chorar ajoelhando-se aos pés dele.
_Não podia viver sem ti, presa naquele quarto como uma escrava na senzala! Eu estava desesperada, pois imaginei que partira sem mim. Não suportei viver nem mais um dia com aquele homem. A morte pareceu-me menos cruel.
Com muito esforço, Álvaro conseguiu levantá-la do chão e rendendo aos seus impulsos, a saudade, ao amor guardado por mais de um século, abraçou-a fortemente, esquecendo-se da dor e do ferimento que sangrava sem parar. Leonora chorando muito continuou a contar-lhe sua tragédia.
_Envenenei meu corpo na esperança de me libertar de tamanha dor longe de ti. Pequei contra Deus, contra ti, contra meu marido. Nunca tive a paz que esperava na morte, pois minha consciência gritava todos os meus pecados. Estive em um lugar horrível, fui ao inferno!
Álvaro naquele momento teve a certeza de que o que lhe disseram aqueles homens mal encarados, que vez ou outra vinham lhe atormentar, era verdade: ele estava morto, era uma assombração como eles o chamavam. Leonora realmente havia se suicidado. E ele estava ali há tempo demais. Por que tivera de ser tão teimoso não seguindo aqueles que sempre lhe ofereciam ajuda? Entretanto, sua espera havia acabado. Ela estava ali com ele outra vez.
_Não chores, Leonora. Tudo isso vai acabar. Estamos juntos novamente. Deus teve piedade de mim, trazendo-a de volta. Também pequei contra Teus ensinamentos, desejando algo que não me pertencia. Arruinei a tua vida, a minha. Mas o Senhor nos perdoou, minha querida. A prova disso é que Ele permitiu nos reencontrarmos.
E levantando o rosto dela, concluiu:
_Eu teria enlouquecido ouvindo, sem trégua, o som do projétil dilacerando minha carne, o sangue a esvair-se. Quando sentia que a morte me espreitava, era a esperança de que virias que me mantinha vivo, eu ganhava forças para me arrastar até aqui e ver se finalmente tinhas chegado. Nunca quis aceitar que foste capaz de me abandonar. Por esse motivo permaneci a sua espera. Mas preciso saber se seu amor é tão verdadeiro quanto o meu. Que nada foi em vão.
_Eu o amarei para todo sempre! – respondeu num fio de voz por entre os soluços.
O casal permaneceu em silêncio, abraçados junto ao rio envolvidos pela alegria do reencontro, até que D. Diva tomou a iniciativa de se aproximar, trazendo Maurício, que tentava deter suas lágrimas sem nenhum sucesso.
_Meus fios – ela disse despertando os dois de um sonho – o Senhor me dexô viver até hoje pra ver ocês dois juntos de novo. Louvado Seja Deus! – levantou as mãos para o alto em um sincero agradecimento.
_Mas a história docês não terminou ainda. Ocê, sinhozinho Árvaru, precisa deixá esse mundo. Não pertence mais a ele. Tem que ir se tratar. Seguir seu caminho enquanto a sinhá baronesa tem que cumprir o prometido cuidando dus duenti, pra apagá a farta do cometido contra Deus. É verdade que Deus perdoou ocês. Ele sempre perdoa seus fios. Mas tem que corrigi os erros, pra podê ficá junto traveis.
Os dois jovens ouviam àquela senhora falar com silêncio e reverência diante da autoridade de um espírito evoluído. Aquele invólucro carcomido pelos anos de trabalho árduo, aquela fala simples não eram capaz de ocultar toda a grandeza daquele ser.
_Ocê lembra desse moço aqui, sinhô Árvaru? – disse apontando para Maurício que gelou ao ver os olhos dele cruzarem com os seus.
_Jardel – ele respondeu como se finalmente tivesse se dado conta da presença dele – o capataz do Barão.
_Pois intão, ele quer muito pedir perdão por ter contado pru barão o pranu de fugí docês dois. Eu sei que o seu coração é baum, sinhozinho. Já deve inté ter perdoado ele.
_Não lhe guardo mágoas, Jardel – disse antes que o outro pudesse articular alguma palavra - sua lealdade ao Barão é louvável. Eu sou o único culpado pelos meus sofrimentos. O Barão de Taguariúna me tinha como amigo confiava em mim, e eu o traí. Não sei se posso ser culpado pelo amor que sinto por Leonora, mas certamente sou culpado por desgraçar-lhe a vida. Levei muito tempo para compreender e não mais me revoltar.
_Reconhecê que errô é o primeiro passo – disse D. Diva abraçando-o, enquanto Maurício, de joelhos, não parava de chorar – agora o sinhozinho tem que ir. Olha só quem é que veio buscá o sinhô!
Uma luz surgiu no meio da clareira onde Maurício com os olhos marejados, só conseguiu ver vultos no meio de tanta claridade.
_Mãe? – Álvaro deixou-se cair no colo da senhora imponente, trajada como no século XIX, enquanto outras figuras de luz os cercavam.
Amanda e Maurício também foram amparados, tendo cada um, dois seres luminosos a impor-lhes as mãos sobre as cabeças lhe passando energias, na forma de raios de luz multicor, afim de que se recuperassem de tamanha carga emocional.
_Meu querido Álvaro – disse a senhora – o Senhor Todo Amor e Perdão permitiu-me vir buscá-lo. Ficaremos juntos daqui por diante. Cuidaremos de seus ferimentos, de suas dores físicas e morais. Tudo ficará bem agora.
_Mas e Leonora, minha mãe? Agora que a reencontrei não quero deixá-la. Já esperamos demais!
_Estará junto a ela quando estiver em condições de auxiliá-la em sua tarefa, isso eu lhe prometo.
Álvaro deixou os braços da mãe e se aproximou de Amanda que parecia dormir sob os eflúvios coloridos que partiam das mãos daqueles seres imateriais sobre sua cabeça.
_Leonora, meu amor – disse alisando-lhes os cabelos enquanto ela reabria os olhos com um sorriso nos lábios – eu preciso ir, não suporto mais essas dores, esse som a enlouquecer-me. Mas voltarei logo, e ninguém, nada vai nos separar novamente. Eu prometo.
Sentindo uma paz que jamais tinha experimentado antes, Amanda se levantou e o abraçou longamente. Precisava reter o máximo aquela sensação de bem estar, de plenitude que os braços dele lhe proporcionavam.
_Acredito em ti, meu amado. E estarei lhe esperando. Vá, e não esqueça que eu o amo.
Álvaro se desvencilhou dos braços dela e antes de caminhar em direção a mãe e a luz que o esperava, voltou-se para Maurício:
_Cuide de minha Leonora, meu amigo. Irei em paz sabendo que ela estará em mãos tão leais.
_Não se preocupe – disse o médico já refeito de tanta emoção – estarei sempre por perto e cuidarei dela. Vá em paz!
Ele ainda cumprimentou carinhosamente, D. Diva que por tantos anos havia rezado por sua alma lhe dando conforto, mesmo em uma época que ele ainda não era capaz de compreender.
Aceitou a mão que sua mãe lhe oferecia e desapareceu na escuridão junto com a luz que emanava daqueles cinco espíritos que vieram em seu socorro.


          # acham que acabou? Rolem a barra. Um final surpeendente espera por vocês#

Conto em Gotas




Dívidas do Passado - epílogo



Era mais uma noite de sábado de plantão na emergência. Amanda se desdobrava para dar conta de tantos feridos de toda espécie. Acidentes de carro, balas perdidas, brigas, overdoses. Sempre tinha alguém que lhe perguntava por que não trabalhava na clínica da família, com pacientes com hora marcada, fins de semana de folga. Por que insistia em ser uma funcionária pública ganhando uma ninharia para se matar naquela emergência? E Amanda sempre respondia a mesma coisa: aqui sou mais útil. Foi para isso que me formei, para salvar vidas, não para ter um consultório bonito com um letreiro dourado na porta. Aquela emergência era a vida dela. Não tinha se casado, não tinha filhos, nem mesmo um namorado ocasional. Havia se mudado para um apartamento pequeno porque não suportava mais as cobranças da mãe a respeito da vida que levava e das coisas que não tinha. E por esse mesmo motivo acabara se afastando da família também. Seus únicos amigos eram Maurício e Rafaela, que se casaram e tinha um filhinho do qual era madrinha. Mas ela não se sentia solitária ou se queixava da vida. Ela sabia que ele estava sempre por perto, desde sua formatura, quando o vira pela primeira vez depois da noite que o reencontrou na cachoeira, Álvaro era uma presença constante a ampará-la e consolá-la quando por ventura se sentia triste e pensava que o mundo a havia abandonado, que ninguém a compreendia. Toda aquela história, a noite na fazenda, havia se tornado um segredo. Um segredo dela e Maurício, mas que ela evitava ficar relembrando mesmo só entre eles. E quando soube que o tio havia vendido as terras, sentiu-se leve, livre, como se todo o passado sombrio e doloroso houvesse ficado definitivamente para trás. Amanda só havia voltado lá mais uma  única vez para o velório e enterro de D. Diva que faleceu poucos meses depois.
Mas não era hora de remexer no passado. O resgate acabava de chegar com mais uma vítima de acidente automobilístico. Estava se preparando para o atendimento de emergência quando alguém entra no alojamento a sua procura.
_Maurício?! O que faz aqui há essa hora? Está todo ensangüentado. O que houve? Está ferido? – foi falando sem parar assustada com a aparência do compadre.
_Presenciei uma acidente. Tentei socorrer a vítima e como ela foi trazida para cá e eu sabia que estaria de plantão, decidi vim ajudar. Acho melhor você se preparar. O estado dele é muito grave.
Estranhando a atitude do amigo, Amanda sentiu um ligeiro mal estar. Algo de muito sério estava acontecendo. Seria a vítima alguém conhecido? Porém, ela não tinha tempo para isso, as sirenes da ambulância se calaram, eles já haviam entrado com o acidentado.
As pernas dela bambearam quando reconheceu, debaixo da poça de sangue que tinha se reduzido aquele rosto, Bruno. Há muitos anos que não o via, mas apesar do rosto disforme, ela sabia que era ele. Cheiro de álcool, gasolina e sangue exalavam de seu corpo dilacerado pelas ferragens do carro onde ficara preso. Era realmente um milagre que tivesse chegado ao hospital com vida.
Apressou-se em tomar as primeiras providências. Ele vivia, ainda havia esperanças. Maurício, mesmo não fazendo parte do quadro daquele hospital, pois ainda trabalhava na clínica, agora como cirurgião, tomou-lhe a frente, percebendo o quanto suas mãos estavam trêmulas.
Amanda não fez objeções, ela não estava sentindo-se bem. Não era a gravidade do quadro dele que a assustava, eram as lembranças que lhe tomavam de assalto. A fazenda, Álvaro, Leonora...
_Tenha calma, meu amor! – ela suspirou profundamente ao percebê-lo ao seu lado – hoje a nossa história triste chega ao fim. Terei finalmente a oportunidade de pedir perdão ao Barão e me redimir socorrendo-o em seu desenlace.
_O Bruno vai... - não conseguiu terminar a frase com os olhos fixos no acidentado sobre a maca.
_Chegou a hora dele.
Amanda sentiu o leve tocar dos lábios dele em seu rosto, enquanto via vários homens em volta da maca, aos quais Álvaro se juntou atarefado em algo que ela não compreendia, embora não fosse a primeira vez que assistia aquela cena. Podia ver Maurício e outros enfermeiros entre eles, se misturando, se sobrepondo àqueles seres, que sabia, eram irreais, pelo menos para esse mundo. Viu quando outro corpo surgiu sobre a maca. Uma duplicata de Bruno desacordado sobre seu corpo já sem vida enquanto o bip do monitor disparava em um som contínuo, demonstrando o fim da atividade cardíaca. Alguns minutos se passaram até que finalmente a equipe desistiu de tentar ressuscitá-lo e anunciaram a hora do óbito.
Antes de desaparecerem com aquele corpo ainda inerte, Álvaro veio se despedir.
_Leonora, meu amor, creio que minha tarefa como socorrista tenha fim hoje. Ainda há muita coisa que preciso fazer e aprender. Não sei quando poderei estar contigo outra vez. Mas onde quer que eu esteja, meu coração e pensamento estarão aqui. Não desanime. Continue com sua tarefa de salvar vidas. Olhe cada um que aqui entrar como se fosse eu, ainda ferido e sofrendo, e logo poderemos estar finalmente juntos. Que Deus abençoe nosso amor para que ele possa vencer as barreiras do tempo e da distância.
Ela tentou dizer alguma coisa, se despedir como achava que deveria, mas o pranto não permitiu. Apenas balançou a cabeça concordando e tentou sorrir. O que ficou mais fácil ao ver que ele também chorava. Porque não era um choro de tristeza, de despedida. Era uma renovação dos votos, de esperança, de alegria por saberem que toda a eternidade os esperava. E que a verdadeira felicidade se encontra no que é eterno. O mundo ilusório que lhes causou tanta dor e sofrimento um dia ficaria para trás e só levariam dele o que é real. O amor é real. Supera tudo, perdoa, espera, confia.
Álvaro e Leonora venceram a paixão, os desatinos de um sentimento egoísta e inconseqüente. Tiveram que aprender da maneira mais difícil que amor exige renúncias. Que respeita o próximo. Que não faz sofrer quem nos cerca. Que cada sofrimento que causamos tem que ser reparado, que cada lei que infringimos tem uma pena. E eles causaram muito sofrimento, quebraram muitas leis e pagaram com sangue e lágrimas todas elas. Mas como nada, além do amor é eterno, eles venceram.


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