Morte, Sangue e Solidão
- Uma História de Vampiro -
3ª parte
Convenci Filipe a buscar sua fortuna antes de nos instalarmos em algum lugar. Ela estava em uma antiga ruína romana dos tempos do imperador Trajano, as margens do rio Avon. Perto dali havia uma cidade conhecida como cidade das termas, aonde toda sorte de doentes vinha à procura de cura. Contra minha vontade, Filipe fixou nossa residência nos arredores. Era uma construção antiga que não me surpreenderia se fosse tão velha quanto as ruínas romanas, mas ele insistia que era confortável e segura. Tínhamos poucos servos de que fui proibida de tocá-los e obrigada a passar a fazer a maldita “dieta selvagem”. Em poucas semanas eu estava tão debilitada que nem mesmo tinha condições de sair para caçar. Eu era uma nova vampira, não tinha a mesma força e resistência que os mais de duzentos anos deram a Filipe. Ele que me alimentava, trazendo-me, todas as noites, uma grande taça de sangue fresco que eu nem me atrevia a perguntar sua origem. Passava a maior parte do tempo no quarto com as cortinas cerradas, dormindo, sem forças para deixar o leito. Para todos na casa eu estava extremamente doente, o que reforçava a história sobre nossa chegada: o jovem casal francês se mudara em busca da cura para a pobre esposa enferma. Esposa! Grande mentira. Filipe continuava a me tratar como a sobrinha órfã e desamparada. E eu o odiava por isso. Odiava-o por me manter presa naquele quarto, por me alimentar de bichos e por não me dar o amor que eu tanto desejava. Até que, certo dia, recusei a taça de sangue. Eu me sentia enterrada viva, do mesmo modo que ele nos trinta anos que passou na floresta. Pude ver nos olhos dele o desespero quando eu disse que para viver assim preferia que me jogasse na fogueira ou me deixasse no pátio quando amanhecesse. Depois de inúmeras tentativas sem sucesso de me fazer beber aquele sangue fraco e ruim, ele deixou o quarto. Cheguei a imaginar que tivesse ido recolher a lenha para o grande crematório, mas algumas horas depois ele estava de volta e não estava sozinho. Com ele estavam dois camponeses visivelmente embriagados, porém jovens e fortes.
Assim que entraram no quarto pude ver o modo que me olhavam, desejando-me. Aqueles olhares lascivos e o cheiro de sangue humano reacenderam minhas forças, e eu os convidei para se aconchegarem na cama ao meu lado, enquanto Filipe, de pé, no canto do aposento, sorria um tanto constrangido e afirmava que eles eram um presente.
Os dois homens começaram a me beijar e alisar o meu corpo. Fechei os olhos imaginando o quanto seriam apetitosos e o quanto eu desejava que fossem as mãos de Filipe a deslizar pela minha pele. Não sei quanto tempo durou, ou o quanto eu resisti antes de cravar meus dentes no pescoço mais próximo, enquanto o outro enfiava a cabeça entre minhas pernas.
Indescritível o que senti ao começar a sugar aquele néctar e ser acariciada tão intimamente. Quanto mais eu sugava, mais intenso era o prazer que eu sentia. Porém, antes que minha presa desfalecesse em meus braços, senti o outro homem ser retirado violentamente de cima de mim. Quando empurrei o homem já sem vida para o lado, vi Filipe a deslizar por sobre meu abdome. Suas faces coradas, suas mãos quentes não deixavam dúvidas: ele também tinha se alimentado.
Quando alcançou o meu rosto, sussurrou em meus ouvidos:
_Sou todo seu, minha amada Anne – esticando seu pescoço para que eu o sugasse.
Nos amamos até o dia raiar e cairmos em um sono reparador. Eu finalmente lhe pertencia e ele a mim. Nós nos amávamos, e eu agora tinha a certeza de que seríamos felizes pela eternidade.
Depois dessa noite esquecemos definitivamente a “dieta selvagem”. A cidade próxima vivia cheia de romeiros, indo e vindo o tempo todo, presas fáceis pelo caminho. Caçávamos aqueles que deixavam a cidade, retornando a seus lares, pois assim ninguém daria pela falta deles nas redondezas. Depois de um lauto banquete, nos amávamos pelos campos até a aurora. Inebriados de amor e luxúria, começamos a ficar desatentos e deixar os corpos pelo caminho. Até que a população local, temendo novos ataques da “besta da estrada”, como nos chamávamos, se reuniram e formaram grupos de caça. Munidos de toda sorte de ferramentas e tochas, chegaram até nosso castelo aliciando nossos servos para a caçada. Resolvemos partir o quanto antes. Aquele lugar não era mais seguro. E alegando também estarmos com medo da “besta”, contratamos alguns homens e partimos de mudança rumo à corte.
Em Londres tudo mudou, pois eu não queria mais vítimas feias e mal cheirosas. Gostava das festas, de estar no meio da nobreza. Eu era jovem, bela, rica, e imortal, por que deveria viver me esgueirando por entre vielas e becos imundos? Mas Filipe não concordava comigo. E começava a se afastar. Eu não me importava. Vivia cercada de belos e apetitosos jovens que me proporcionavam todos os tipos de prazer. Comia e bebia com eles, mesmo que depois tivesse que vomitar tudo antes que a comida começasse a apodrecer dentro de mim. Mas valia a pena pelo prazer de me sentir viva, atraente e desejada. Ia a todos os lugares que tivesse vontade. Servia-me de quem me despertasse mais apetite. E Filipe, nos raros encontros que tínhamos, pois ele vivia pelos guetos imundos enquanto eu desfilava pelos salões, dizia-se enojado da minha crueldade e falta de critérios. Critérios!
_Eu sou uma vampira. Estou acima dessas convenções humanas hipócritas – dizia-lhe com desdém – não vou viver como tu, feito um rato nos esgotos.
E mais uma vez tínhamos que nos mudar. Creio que ele imaginava que em outro lugar eu mudasse meus hábitos. Voltasse a ser a tola Anne que se deixou ser guiada como um cordeirinho, a ponto de ser alimentada de lixo. Nunca mais eu ficaria sobre uma cama, fraca e debilitada para agir de acordo com a consciência pesada de Filipe. Que a meu ver, amava mais as ideias da egípcia simplória e ignorante do que a mim. Era a ela que ele vivia para agradar. A devoção que ele ainda nutria por Otias me deixava morta de ciúmes e com uma vontade ainda maior de afrontá-lo. Ela o abandonou. Enterrou-o para sumir sem deixar rastros. Eu, ao contrário, dei minha vida para salvá-lo, para viver ao lado dele, por que era tão difícil que ele a esquecesse de uma vez por todas e aproveitasse ao meu lado todas as delícias que a vida eterna podia nos dar?
Certa vez disse que me odiava, mas que entendia que eu era apenas um reflexo dele mesmo: um demônio. Um demônio capaz de transformar uma moça pura e ingênua em uma assassina implacável. Que ninguém mais, além dele, era o responsável por minha desgraça.
_Deixe de sentimentalismo tolo, Filipe – eu lhe respondi após uma deliciosa e provocativa gargalhada – não sou um demônio. Somos o que somos: donos do mundo. Todos passarão, mas nós ficaremos aproveitando de tudo e todos até a última gota de sangue azul!
_Falas como se os homens não passassem de gado para o abate, criadas com o único intuito de nos alimentar e divertir. Tu os usas como ratinhos em gaiolas – ele falava sem esconder todo o nojo que sentia de mim – não somos criação de Deus, Anne, somos uma aberração da natureza.
_Deus?! Desconheço esse deus de que de uns tempos para cá resolveste desenterrar para se punir. E se ele realmente existe e é como dizem, também deve ser o responsável por nossa existência. Não dizem que foi ele quem criou tudo que está sobre a Terra? Ele deveria ter um propósito. Talvez sejamos nós os escolhidos para manter essas pobres criaturas humanas sob seu julgo. Quando eles se sentem ameaçados e com medo, recorrem a esse deus, que, dependendo da quantidade de orações e indultos, decide se eles cruzarão nossos caminhos ou não.
_Não blasfeme, Anne! – ele me deu as costas parecendo derrotado – somos a personificação do demônio. Enganamos a morte, tentamos enganar a Deus, e Ele nos castigou nos mantendo sobre a Terra, matando tudo que colocamos as mãos. Olhe para si mesma. Não és mais a Anne que eu amava. Essa eu também matei. Criá-la era minha chance de fazer algo bom em meio a tanta desgraça que espalhei. Transformá-la em uma mulher culta, educada, dar-lhe uma família, fazê-la feliz. Mas não fui capaz de dominar meu ciúme, aceitar que uma hora eu teria que deixá-la partir. Tirei de ti toda e qualquer chance de ser feliz. De ter uma boa vida. És a constatação de que falhei. De que sou mesmo um monstro e de que não há mais salvação para mim.
_ Por que és tão cruel? – eu estava sensibilizada com a dor dele, mas não podia aceitar que ele me visse como o "troféu do derrotado". Eu o amava. Tudo o que fiz foi para ficar ao lado dele – eu sempre lhe serei grata por tudo o que fez por mim. Mataste meus pais, mas me deste uma família. Mataste meu futuro noivo, mas me aceitaste como tua esposa. Nem por um segundo eu o acusei ou cobrei o que quer que tenhas feito. Sou feliz porque existes, porque és o que é. Porque me deste o maior presente que alguém poderia me dar: a vida sem ressalvas, sem medo. Deste-me a liberdade.
Eu me aproximei dele, o abracei e o beijei. Ele não me repeliu como das últimas vezes, então me encorajei a continuar:
_Mude sua forma de ver o mundo, Filipe. De nos ver. Só assim poderemos ser felizes. Deixaste se contaminar pelas superstições daquela egípcia. Ela estava errada. Não somos doentes que precisam de cura. Somos o topo da cadeia alimentar. Predadores de homens. O Deus que tanto temes, os deuses daquela egípcia, não passa de imaginação desses humanos ignorantes, que precisam acreditar em alguma coisa para terem a quem culpar por suas mazelas. Mas nós não. Nós somos reais. Existimos.
_Fazes tudo parecer tão simples – ele me disse enquanto jogava meus cabelos para trás do ombro, desnudando-me o colo.
_Porque a vida é simples – respondi deleitando-me com sua boca roçando meu pescoço – um falcão caça e se alimenta de lebres. Que podem parecer indefesas, mas são o alimento da ave. Ela precisa deles para viver e criar seus filhotes. Nós caçamos e nos alimentamos de homens. Que estão longe de serem seres indefesos. Quantas vezes já não fomos perseguidos e caçados por eles? Teriam nos matado se tivessem chances. E não sentiriam nenhum remorso.
Teria ficado ali argumentando com ele a noite toda, mas lembrei-me que uma maravilhosa festa me aguardava. E o deixei parado no meio do aposento assim que minha serva entrou para ajudar a vestir-me.
_Aonde vais, Anne? – ele parecia decepcionado e insatisfeito ao me ver na dúvida entre o vestido azul e o dourado que a serva me estendia.
_A uma festa na residência dos Bordenoux – a essa altura tínhamos voltado para a França depois de viver em praticamente todos os cantos da Europa – Não quer acompanhar-me? Estou farta de inventar viagens e doenças para justificar a ausência de meu amado esposo nessas ocasiões.
E cerquei-o beijando-lhe, numa espécie de incentivo para que aceitasse meu convite.
_Por favor, Filipe! – encarei-o suplicante – é só uma festa. Prometo-lhe comportar-me como uma virginal.
Ele se rendeu as minhas súplicas e até parecia estar contente ao entrar de braços dados comigo na magnífica mansão dos Bordenoux. E a festa transcorreu tranquila, mesmo com todas as advertências dele ,tentando me fazer parar de comer e beber. Ele sabia que logo eu teria que por tudo para fora e me sentiria fraca, o que, certamente, aumentaria a minha sede e as chances de que nem todos os convidados voltassem para suas residências aquela noite. Mas que graça teria as festas se eu não pudesse aproveitá-las ao máximo?
Porém, Filipe não concordava comigo. Achava que deveríamos manter a discrição. Não chamar a atenção sobre nós e nossos hábitos. E logo quis voltar para a casa. O que fiz, não sem antes convidar meia dúzia de jovens para nos acompanhar. Acenando-lhes com uma festinha particular com muita comida, bebia e orgia. Escolhi duas jovens a dedo pensando em oferecê-las a meu amado esposo como presente. Ele precisava se lembrar do quanto a vida poderia ser bem mais prazerosa longe dos subúrbios fétidos. Mas ele sequer nos acompanhou até nossa casa. Deixou-nos no meio do caminho e eu sabia que ele iria cumprir com sua “missão religiosa”: limpar o mundo da escória, dos malfeitores e doentes.
Minhas festinhas costumavam durar dias. Pois eu não matava meus acompanhantes. Sugava-lhes apenas o necessário para prolongar ao máximo meu prazer, controlando minha sede. Ficavam tão excitados, inebriados pelo vinho e anestesiados pelas mordidas, que normalmente eu fazia entre suas coxas, que a única coisa que pediam era mais e mais. Na maioria das vezes, o mais difícil era mandá-los embora, para desespero de Filipe, que temia que fôssemos descobertos. Tolice. Eles deixavam minha casa esperando ansiosamente por minhas próximas festinhas. E meus admiradores aumentavam a cada reunião. Talvez o que Filipe sentisse mesmo fosse ciúme. Saber que eu deleitava-me com outros pares, homens e mulheres. Mas eu sempre o convidava na esperança de vê-lo desfrutando de todo o prazer que nossos brinquedinhos podiam nos ofertar. Imaginava o quanto aquela visão seria excitante, o quanto essas experiências nos uniria, compartilhando, juntos, daquele banquete de cheiros, gostos e sensações. Mas ele nunca participava e acusava-me de pervertida e vagabunda. Creio que a criação que ele teve, baseada na culpa, recheadas de fábulas de pecados e punições, amputaram-lhe o prazer de saciar todos seus desejos sem reservas. Pode-se imaginar uma criatura que já nasce carregando a culpa de ser fruto de um pecado que nem cometeu e que lhe será cobrado por toda a sua vida? Tolo Filipe! Insistia em carregar toda a culpa do mundo em suas costas. Talvez minha missão fosse aliviar-lhe esse fardo. Mostrar-lhe a verdade. Mas ele estava cego.
E aquela noite eu descobri que jamais iria conseguir mudá-lo.
Ele invadiu a saleta que ficava dentro de meus aposentos, onde eu estava com meus apetitosos convidados e arrancou-me violentamente do meio dos corpos que deslizavam, uns sobre os outros, na ardente busca por mais prazer. Arrastou-me para o quarto, me jogando contra a parede. Manteve-me imóvel só com a força de sua vontade. Foi quando descobri o quanto ele era poderoso.
_Vou fazê-la parar! – gritou raivoso – por um fim aos seus desvairos.
Eu sabia o que ele planejava. Mesmo não conseguindo entrar na mente dele como ele fazia com a minha, Filipe fez questão de me mostrar meu fim: faria-me arder no fogo até que só restassem cinzas.
Tentei me debater inutilmente. Praguejei. E então coloquei para fora toda a minha revolta:
_Abandonaste-me, Filipe! Odeia-me porque vivo bem sem ti, deleito-me no que repudias. Gosto de ser o que sou, uma vampira. Enquanto enojas-te de ti mesmo. Mas matar-me não vai fazê-lo diferente, melhor do que realmente és. Preferir os decadentes e inúteis, não diminui sua culpa nem o torna melhor do que eu. Não sou um verme para limpar a podridão do mundo. Maldita seja Otias, que o escolheste entre tantos. Deveria ser uma fracassada como tu!
De seus olhos saiam faíscas. Minhas palavras vibravam em todo seu corpo, aumentando ainda mais seu ódio.
_Otias já teria acabado contigo! És uma vergonha para a deusa dela.
_O que me importa essa tua egípcia e suas fantasias?! Mas se é no que realmente acreditas, faça o que planejas. Termine logo com isso. Mate-me e volte a se enterrar no buraco de onde veio. Eu não tenho medo da morte, do inferno e nem de nenhum desses seus demônios idiotas!
Lentamente senti meu corpo despregar da parede e voltar a ter controle sobre ele. Filipe não teve coragem de acabar comigo embora não duvidasse que tivesse poder para tal. Talvez seu amor ainda fosse maior do que a raiva que sentia de mim, dele e do mundo todo.
_Saias daqui! Vá embora – disse depois de me dar as costas.
_Para onde? – perguntei atônita. Não esperava por esse desfecho.
_Para onde quiseres. Podes levar tudo: dinheiro, jóias e até a mobília. Vá para qualquer lugar levar a vida que desejar. Mas bem longe de mim.
_E quanto a ti? O que fará?
_Não importa. Mas prometo-lhe nunca mais cruzar teu caminho.
_Vais procurar por ela, não? Por Otias – senti o ciúme a atravessar-me o peito. Ele queria se livrar de mim para ir atrás da mulher careca e ignorante. Eu não podia deixar que isso acontecesse. Tola! Ele conhecia meus pensamentos. E mais rápido do que eu pude perceber, ele jogou o castiçal de nove velas contra as cortinas que rapidamente se incendiaram, espalhando suas labaredas pela tapeçaria e a mobília, enquanto eu olhava aquele espetáculo paralisada de horror.
_Vá embora, Anne! Não olhe para trás.
## continua na próxima semana ##




2 comentários:
Hoje, embora tenha ciência que ambos são monstros, Filipe ainda consegue me cativar, já a Anne, vem se mostrando futil, incensata e extremamente ciumenta e possessiva, mostrando a cada dia o que uma pessoa que não esta preparada para o poder pode fazer quanto o detem.
Os detalhes, veem contribuindo muito para que possamos viajar na história, fazendo com que não paremos de ler até sabermos do fim.
Quando vou poder ter seus livros em minhas mãos?
Apaixonante história
Adorei a continuaçao,leitura inteligente, escrita por uma pessoa mais inteligente ainda. Dá vontade de ler até o final, é uma pena o conto ser em gotas.rsrsr
bjo
Enviar um comentário