Conto em Gotas

     Contos de Andaluzia Parte I - Fé e Pecado 
                                                Capítulo 2
   A bela carruagem, ostentando o brasão de D. Alonso Cortéz, parou em frente ao Convento de Santa Inés, em Sevilla. Miguel ficou encantado com a singela e acolhedora fachada do prédio.  Acostumado com a ostentação e o luxo dos prédios santos de Roma, aquela construção pareceu-lhe exatamente o lugar onde se abrigaria os santos, bem longe das abóbadas douradas da Santa Sé.
   Tocou a sineta e logo uma mulher de baixa estatura, envergando o hábito marrom das Clarissas veio abrir o portão. Depois de se identificar, foi conduzido a uma pequena saleta onde ficou a espera da Superiora do convento.
   _D. Miguel! – exclamou a monja se aproximando e se curvando à sua frente, beijando-lhe a mão em sinal de respeito e humildade – a sua benção. Seja bem vindo a nossa casa! D. Alonso sempre o menciona em suas missivas.
   _Deus a abençoe, Monja Guillerma – ele ajudou a velha senhora a se colocar em pé novamente – é a pedido de D. Alonso que estou aqui.
   _Creio que sei bem o motivo de vossa visita – ela esboçou um sorriso embora tivesse os olhos cheios de tristeza – viestes buscar Leonora. Pobre criança! Embora eu saiba que ela não se furtaria a seguir as ordens do pai, a vocação de Leonora é visível. Uma perfeita filha de Santa Clara. É um pecado afastá-la dos caminhos do Senhor!
   _Minha cara Monja Guillerma, sabemos que há muitos caminhos para se chegar a Deus. Acaso não confias na Providência Divina?
   _Jamais questionaria os desígnios de Deus. Mas Leonora chegou aqui ainda criança. E ao contrário de muitas de minhas irmãs, se entregou ao serviço do Senhor com amor e devoção próprio das beatas. Mesmo que nunca tenha efetuado seus votos perpétuos, reúne em si todos os predicados de uma Clarissa. Não consigo imaginá-la fora desses muros.
   Era visível o abatimento da monja e D. Miguel tentou acalmar seu confrangido coração:
   _Não temas, Irmã. Tudo farei para que a readaptação de Leonora no mundo dos homens seja sem traumas. Não esqueçamos que o matrimônio também é um dos sacramentos e ela será feliz assim, cumprindo a vontade do Senhor.
   _Que Deus o ouça, D. Miguel! Estaremos todas nós aqui, orando para que nossa irmã siga segura nos caminhos de Deus. E que Ele a abençoe com um matrimônio feliz e com muitos filhos.
   _Amém, irmã. Amém.
   Miguel recusou gentilmente a ficar hospedado no convento enquanto a noviça seria participada da vontade de seu pai e se prepararia para voltar a San José. Ele tinha outros compromissos. Procuraria por D. José Ruello Diaz a fim de apressar um possível arranjo de casamento para a herdeira de seu velho amigo e de sua futura viúva, como havia pedido D. Alonso.
   Na grande e luxuosa propriedade de Ruello Diaz, Miguel passou a noite confabulando com seu proprietário. Decidiram que o próprio filho caçula de D. José seria o esposo perfeito para Leonora. Embora ele fosse alguns anos mais novo do que a futura noiva, a possibilidade de unir as duas fortunas o fez desconsiderar esse pequeno detalhe. Quanto a Constanza, tudo parecia um pouco mais difícil. Ela ainda não era uma viúva e poucas posses teria para atrair um novo consorte, já que Leonora seria a herdeira universal de seu pai. Porém, D. Miguel, assegurou-lhe que D. Alonso deixaria em testamento uma boa quantia para o seu dote. E foi com asco que viu os olhos do próprio Ruello Diaz se acender diante de tal oferta.  O homem nem sequer havia levado em conta o quanto Constaza era bela ou os muitos anos mais nova que ele. Era só a riqueza que ela poderia vir a possuir que o interessou.
   Passou toda a madrugada rolando na cama, se remoendo de raiva e remorsos por ter aceitado tão torpe incumbência. Constanza novamente estaria à mercê de um velho, que ao contrário de D. Alonso, não a amava. Tentava consolar-se acreditando que, pelo menos assim, ela nunca viria a se apaixonar pelo futuro marido. Ela ainda seria dele. E essa era uma boa justificativa para não abandoná-la agora, diante de tão malfadado futuro. Futuro não muito diferente da pobre Leonora, que deixaria a vida monástica para se unir a um fedelho imberbe que mal podia sustentar uma espada em sua cintura. Perguntava-se se seria esta mesmo a vontade de Deus: destruir a felicidade de duas mulheres somente para aplacar o remorso de um velho que não soube lidar com suas paixões. Miguel chegou à conclusão que ele não era melhor do que D. Alonso. Quantos pecados não havia cometido em nome do amor que sentia por Constanza?
   “O que realmente Deus quer de mim?”. Perguntava-se sem conseguir encontrar uma resposta. A verdade era que ele não queria enxergar que todos, fatalmente, mudariam o rumo de suas vidas, e ele, deveria fazer o mesmo. Aceitar com humildade e fé os desígnios do Alto. Como ele mesmo vivia repetindo: são muitos os caminhos para se chegar a Deus.
   Mas ele não pretendia mudar o dele. Nenhum outro que o afastasse de Constanza. Pensar que poderia atenuar o sofrimento das duas mulheres, permanecendo ao lado delas, levando consolo e a palavra de Deus para que encontrassem a salvação na resignação, foi a saída que encontrou para seu dilema. E assim conseguiu dormir quando o dia já raiava.
   O dia seguinte passou descansando da viagem e de mais uma noite de tormentos. Foi convidado por D. José para um jantar no Reales Alcázares de Sevilla. Lá, em meio à nobreza andaluza, passou agradáveis horas bebendo e comendo, cercado de belas damas, fazendo com que se esquecesse de Constanza e Leonora.
   Não se sabe se era o belo porte, seus olhos verdes, sua oratória impecável, ou até mesmo o hábito beneditino, que ele orgulhosamente vestia o que atraía tanto os olhares femininos. A verdade é que D. Miguel passou a noite no palácio de Sevilla na companhia de honorável dama da sociedade.
   Já era fim de tarde quando D. Miguel voltou ao convento a fim de conhecer a jovem Leonora e prepará-la para a viagem de volta a San José no dia seguinte.
   Acomodado na pequena saleta de visitas do convento, Miguel viu a jovem se aproximar. Era a própria imagem da Virgem vergando o hábito marrom da Ordem de Santa Clara, usava um véu branco que demonstrava que ainda não havia feito seus votos perpétuos.
   _Sua benção, excelso enviado do Senhor! – ajoelhou-se na frente do padre deixando-o extremamente constrangido diante de tão sincera e entusiasta saudação, e que ele sabia, estava muito longe da verdade.
   _Deus a abençoe, minha filha. Levante-se. Creio que temos muito a conversar.
   Miguel mal conseguia olhá-la de frente, tamanho o magnetismo e respeito que aquela frágil figura aos seus pés lhe infringia. 
   Ele estava diante de uma alma pura e casta. Ao contrário da sua, maculada por tantos pecados. Sentia-se pequeno, impuro, desmerecedor de sequer dirigir-lhe os olhos.
   Levantou-se da poltrona onde estava e deu-lhe as costas a fim de se recompor. Havia um nó em sua garganta, sentia uma forte emoção que ele não sabia descrever. O suor que brotava em todo o seu corpo deixava claro que ele não se sentia bem.
   _Estais tão pálido, D. Miguel! Sente algum mal? – ela imediatamente o segurou pela mão fazendo-o voltar para se sentar.
   Miguel engoliu seco tentando segurar as lágrimas, e quando seus olhos se cruzaram, em meio a seu estado febril, viu-se diante da própria Virgem Maria envolta em um halo de luz que se expandiu como uma grande bola de fogo, iluminando toda a sala e cegando-o momentaneamente. Sem conseguir conter a onda de indescritível emoção pela qual foi tomado, deixou-se cair de joelhos aos pés da aparição, em pleno êxtase, enquanto seus ouvidos eram invadidos por suave e melodiosa voz que lhe disse:
   “Miguel! Entrego minha filha aos seus cuidados. Cuide para que ela cumpra sua missão juntos aos homens, curando o corpo e a alma do grande rebanho de Deus. É junto dela que encontrarás força para vencer a si mesmo, conhecendo o amor puro e casto que transforma bestas em anjos. Bendizei a grande oportunidade que tens de se redimir. E não te esqueças que o Pai espera exultante a volta de seu filho pródigo”.
   Ele queria falar, mas seus pensamentos eram confusos. Júbilo e arrependimento debatiam-se dentro dele. Precisava pedir perdão por todos os seus pecados, dizer-se indigno de tal tarefa e ao mesmo tempo agradecer a intercessão da misericórdia divina, mas o máximo que conseguiu foi chorar copiosamente. Enquanto era cercado de anjos louvando o Senhor.
   Com a mente e o corpo exaustos, o padre deixou-se cair desfalecido, enquanto a noviça, totalmente alheia ao fenômeno que desencadeara, pedia por socorro sem conseguir levantá-lo do chão.
   Quando Miguel recobrou a plena consciência estava deitado em um claustro pequeno em frente a uma imagem de Santa Clara. Ainda sob os eflúvios de sua experiência singular, reconhecendo na imagem a visão que tivera, deixou o leito e foi se prostrar diante da santa em sentida prece:
   _Oh Santa Clara! Que por amor a Jesus e a Francisco renunciaste ao mundo. Ensina-me a ser forte e a seguir seu excelso exemplo. Sou um pecador, bem sei, mas agradeço a Misericórdia Divina que colocou esse anjo em meu caminho quando eu já me sentia indigno do amor de Deus. Compreendi que seu exemplo é a chave para as portas do céu. Minha única oportunidade para abandonar essa vida de vícios, que tanto ofende ao meu Deus. Vós que amaste a Jesus com todo ardor de seu coração, amaste Francisco com pureza e castidade, tendo nesse irmão o guia e o exemplo de amor e fé, será a luz que norteará meu caminho na pessoa iluminada de vossa filha. E eu lhe prometo minha santa, que tudo farei para que Leonora cumpra sua missão, deixando-me guiar no caminho reto do Senhor. Senti o Teu amor e compaixão por mim, devolvendo-me a esperança. Desejo ardentemente cumprir minha missão com humildade e devoção. Honrando meus votos e a confiança que depositaste em mim.
   O Beneditino jogou-se no chão, abrindo os braços, formando uma cruz viva na laje do cubículo e disse solenemente:
    _Renovo, diante de Vós, minha Santa Clara, tendo os anjos do Senhor como minha testemunha, meus votos de celibato consagrado, obediência e pobreza.
    Lágrimas de júbilo desceram pelo rosto de Miguel profundamente emocionado. Ouviu os sinos tocarem. Para ele era a anunciação de uma nova Era em sua vida, sinal que a Santa tinha ouvido suas rogativas e aceito seus votos. Um doce cântico invadiu o claustro vindo da capela do mosteiro. Eram seis horas da tarde, a hora do Ângelus, o momento da Anunciação à Maria feita pelo Anjo Rafael, e D. Miguel continuou a rezar:
   _Ave Maria gratia plena, Dominus tecum. Benedicta tu in mulieribus, et benedictus fructus ventris tui, Iesus.
Sancta Maria, Mater Dei, ora pro nobis peccatoribus, nunc et in hora mortis nostræ. Amen. 
   Miguel ceiou sem deixar o claustro a pedido da Superiora para não aumentar o alvoroço entre as monjas que não se cansavam de repetir que presenciaram um milagre. Todas queriam vê-lo, tocá-lo, implorar-lhe sua benção para que intercedesse junto à Virgem por suas almas. Algumas já questionavam se tal prodígio não deveria ser relatado a Roma. Discreta e sensata, Irmã Guillerma preferiu se acercar dos fatos antes de anunciar tal milagre a seus superiores.
   _Foi Santa Clara, superiora madre! – explicava o padre – tive essa certeza ao me deparar com sua imagem na parede. Ouvi sua augusta voz. Não estou autorizado a dizer-lhe o conteúdo de sua mensagem, mas posso garantir-lhe que foi o suficiente para reacender minha fé e renovar meus votos. Nunca me imaginei merecedor de tamanha graça.
   Miguel voltou a chorar comovido. Ninguém melhor do que ele para saber que era o último sobre a face da Terra a merecer a intercessão da santa.
   _Nossa Mãe, assim como a Virgem Maria, não desampara ninguém. Está sempre a cuidar dos mais necessitados, seja no corpo ou na alma, meu caro D. Miguel.
   _Tens razão, madre. Venho passando por momentos conturbados em minha vida. Andava descrente de mim mesmo. Agora posso sentir o amor do Cristo novamente dentro de meu coração. Agora entendo sua vontade. Possuis um anjo dentro de seus muros madre, mas Deus a quer junto de seu povo, levando o amor e a esperança em Seu nome. Assim como Leonora foi a medianeira na restauração de minha paz, será a luz de Clara de Assis iluminando o mundo. Esteja certa, Madre Guillerma, que eu a seguirei como seu fiel e devotado servo onde quer que Deus a envie. Auxiliarei em tudo que puder para que ela cumpra sua missão nessa Terra.
   _Nossa Ordem vive a reclusão, a adoração amorosa em Jesus Sacramentado e a contemplação silenciosa de nosso Amado Deus, orando incessantemente para todas as necessidades da Igreja e intercedendo pelo mundo, talvez o senhor esteja certo, D. Miguel, e aqui não seja o lugar de Leonora. Ele a deseja mais atuante no mundo dos homens, assim como Jesus ia pregar onde quer que houvesse ouvidos para ouvi-lo. Leonora deverá ser um testemunho vivo de Seu amor e compaixão pelos que sofrem. Especialmente aos doentes.
   E se aproximando mais do padre, em tom de confidência, revelou:
   _Algumas de nossas irmãs juram terem sido curadas pelas suas mãos. Nada de muita relevância. Pequenos males, dores que desapareceram com um simples toque de Leonora.
   _Que Deus seja louvado, Irmã! Eu tive a certeza de que estava diante de uma eleita! – Miguel estava exultante, cada vez mais confiante de que Leonora era um anjo enviado dos Céus para salvar a ele e a todos que cruzassem seu caminho.

   O Dia amanheceu e Miguel e Leonora deixaram o convento rumo a San José. Ela ainda vestia o hábito da Ordem, a única roupa que usara nesses últimos treze anos. Na bagagem levava poucos pertences: um outro hábito ainda mais puído, usado para os serviços diários, um rosário e um livro de cânticos.
   Ela estava serena, convicta de quaisquer que fossem os próximos acontecimentos em sua vida, seriam da vontade de Deus. Miguel, ao contrário, sentia-se exaltado, jubiloso como o noivo que conduz a esposa para sua nova morada.
   Leonora não conhecia nada do mundo, mas sua presença exercia nele uma autoridade, uma devoção que ele não saberia explicar se não fosse recorrendo aos acontecimentos do dia anterior.
A noviça, escondida sob o hábito, era franzina, mas agradável ao olhar. Possuía uma beleza angelical, singela, muito diferente da exuberante Constanza sempre ornada por muitas jóias e belos vestidos. Possuía ares infantis embora estivesse preste a completar vinte e quatro anos.
   O coração do beneditino estava aos saltos, seus olhos em discreta adoração a moça a sua frente. Não era desejo o que sentia. Ela não despertava nele seus instintos carnais, ao contrário, ele a desejava por perto simplesmente para adorá-la em silêncio, tentar extrair dela um pouco que fosse de sua angelitude. Lembrou-se de sua infância no Mosteiro de San Millan de Yuso ajoelhado aos pés da Virgem Maria, e sentia-se exatamente como naquela época: arrebatado pelo seu amor.
   Leonora, por sua vez, tinha vontade de falar-lhe, conhecer os detalhes de sua Visão, compartilhar com o padre sua vontade de também se consagrar a Deus, mas não tinha coragem de interromper seu silêncio. E manteve-se respeitosamente imersa em suas orações. 
   Depois de mais de duas horas de viagem, foi D. Miguel quem a interpelou:
   _Estais ansiosa ao voltar para casa? – perguntou um tanto sem jeito, sem saber o que dizer para quebrar o silêncio.
   Leonora sorriu ao poder, finalmente, travar uma conversação com o padre.
   _Muito, D. Miguel. Desejo muito rever meu querido pai. Sei que ele está muito doente, quero poder cuidar dele enquanto o senhor assim me permitir.
   _Estais ciente de que não é só pela moléstia de seu pai que foi tirada do convento?
   _Sim. Meu pai deseja que eu me case – e ao contrário do que Miguel esperava, ela abriu um grande sorriso antes de completar - mas já sou comprometida com o Cristo.
   _Não farás a vontade de teu pai?
   _Nunca me recusaria a fazer a vontade do Pai. De Nosso Pai Maior. É Nele que deposito toda fé em meu futuro.
   _Disseste bem, criança – Miguel não se cansava de admirá-la. Uma moça tão frágil, tão inexperiente e tão segura em sua fé – saibas que podes contar com meu auxílio em qualquer decisão que venha a tomar. Intercederei junto ao vosso pai se necessário. Estou certo de que teu futuro não deve ser o matrimônio.
   _Então concordas comigo, D. Miguel? Louvado seja o Senhor! - os olhos da moça se acenderam.
   Dali em diante, mais segura e a vontade com a presença de seu tutor, Leonora passou a palestrar livremente sobre todos os assuntos que espontaneamente surgiam.
   Pareciam velhos amigos que se reencontravam, descobrindo que tinham uma visão do mundo e das coisas do Alto em perfeita sintonia. Embora muitas delas fossem bastante peculiares e um tanto fora dos padrões da Igreja. Teriam vergonha, e até receio de discorrem sobre tais dogmas se não estivessem sentindo que finalmente encontraram seus afins.
   Miguel sentia-se cada vez mais hipnotizado pela fala doce e simples da moça e por suas idéias revolucionárias. Leonora, por sua vez, mais segura e fortalecida para enfrentar as provas que Deus lhe infringiria.
   Ela confessou-lhe que, embora amasse a vida no convento, a companhia de suas irmãs, sentia-se um tanto inútil e desconfortável por não poder fazer mais pelos outros. A clausura possibilitava a comunhão com Deus, mas ela desejava compartilhá-la com todos. Levar o conforto do Amor do Pai a todos os que estivessem sofrendo, amenizando-lhes as dores, fortalecendo a fé.
   Miguel também já se sentira assim. E tinha sido exatamente esse o motivo pelo qual acatou as ordens da rainha abandonando o mosteiro. Não era a política, os interesses de Roma e de seu país que o moveu, e sim a oportunidade de estar perto do povo. Fazer algo significativo junto aos mais necessitados.
   A recepção de Constanza a enteada não foi a das mais calorosas. Só abaixando suas armas ao ter conhecimento de que Leonora já estava prometida ao caçula de D. Ruello Diaz. Miguel nada lhe disse sobre o arranjo de seu próximo casamento, esperando por um momento mais propício, visto que a doença de D. Alonso o deixava a cada dia mais fraco. A emoção de rever a filha mexeu com seus frágeis nervos. E conseguir dela o seu perdão era só o que o pobre enfermo esperava para deixar a Terra, o que aconteceu três dias após sua chegada.
   Abatida, porém resignada, Leonora seguiu o funeral do pai. A presença sempre constante de D. Miguel lhe trazia paz e conforto. A figura do padre lhe transmitia segurança e força. Ela não se sentia sozinha, sabia ter ao lado alguém que compartilhava de suas idéias, alimentadas pelo amor ao Pai e o desejo da caridade.
   A viúva chorava desesperadamente. Não pela perda de seu amado esposo, mas pela incerteza sobre seu futuro naquela casa. O que seria dela assim que a enteada se casasse? Para onde iria já que também não tinha mais seus pais e todos os seus irmãos estavam casados e cuidando de suas vidas? Aceitar outro casamento sem amor? Miguel parecia não mais notar sua presença. Estava muito diferente desde que voltara da Sevilla. Não havia saído do lado do moribundo, procurando atenuar-lhe todas as dores, acalentando a alma sofrida pelo remorso. Não se dirigia a ela em nenhuma outra ocasião que não envolvesse o bem estar de D. Alonso. Ele e a freirinha, como desdenhosamente chamavam Leonora, se revezavam ao lado da cama do doente.
   A aproximação entre os dois, a afinidade e a sincera amizade que se fortalecia entre eles, deixava Constanza enciumada. Sentimento que aumentou ainda mais após os funerais, quando eles passaram a se ver constantemente, indo às vilas de camponeses a fim de lhes prestar qualquer tipo de socorro, sempre levando uma carroça cheia de víveres e roupas, muitas delas que a própria herdeira costurava. 
   Constaza odiava ver a enteada vestida como uma mendiga com seu hábito marrom, com ares de santa, desejando que ela tivesse um belo dia na companhia dos anjos de Deus enquanto saía na companhia de Miguel. “Quem ela pensa que engana?”. A madrasta se roia de ciúme ao perceber como ele olhava para a moça maltrapilha como se estivesse diante de uma rainha. “É por causa dela que ele não me procura mais, que foge de meus carinhos. Miguel está enfeitiçado! Preciso fazer alguma coisa para apressar o casamento de Leonora. Fazer com que ela e o pirralho voltem para Sevilla. Essa casa é minha! Miguel é meu!”.
   No início ela imaginava que Miguel não se arriscaria a encontrá-la, enquanto a enteada estivesse por perto. Era só uma questão de tempo até tirar a rival de seu caminho e tudo voltaria a ser como antes. Ou até para melhor. Agora que o marido estava morto, Miguel cumpriria sua palavra e os dois deixariam o país para começarem uma nova vida longe dali. Mesmo assim ela os vigiava de perto. E sempre que tinha oportunidade se juntava aos dois nas longas conversas que tinha após a ceia, sentados na varanda aproveitando a brisa fresca da noite. Esforçava-se por demonstrar interesse na vida dos santos que eles sempre usavam como exemplos, assim como os ensinamentos do Nazareno. Mas tudo lhe parecia tão descabido! Os santos que eles tanto exaltavam tinham vidas de pobreza e sacrifício, muito diferente da que ela desejava para ela.   Miguel não podia estar sendo sincero quando falava de pobreza e castidade. Castidade? Logo ele, um amante ardente e apaixonado com quem, muitas e muitas noites, compartilhou sua cama. Toda aquela conversa só poderia ser um despiste, uma artimanha dele para manter as aparências. Pensar nisso acendia nela o desejo de tê-lo novamente. De se entregar, de se sentir amada e desejada por aquele homem belo e sedutor a sua frente. Porém, ele parecia tão distante. Tão convicto de suas palavras. Onde estaria o Miguel por quem tinha se apaixonado?
   Imaginá-lo interessado por aquela menina feia e mal vestida era algo que Constanza não podia conceber. Não podia ser verdade. Mas a doença do ciúme começava a consumi-la e cada vez que eles se afastavam, sua mente criava as mais nefastas cenas. Colorindo com cores febris os dois amantes deliciando-se enquanto se escarneciam dela, que começava a envelhecer e ficar murcha e sem atrativos.
   Certa manhã, antes que todos na casa se levantassem, Constanza, decidida e cheia de raiva e rancor, entrou no quarto ocupado pelo padre:
   _Levante-se Miguel. Precisamos ter uma conversa.
   Aturdido com a presença dela, o beneditino pulou da cama antes mesmo de acordar por completo:
   _Aconteceu alguma coisa? Leonora está bem?
   _Leonora! – disse com raiva  quase aos berros - sempre Leonora.
   _Fiz um juramento que tomaria conta dela... – tentou argumentar até ser interrompido.
   _Fizestes muitos juramentos D. Miguel de Navarra. Chegou a hora de cumpri-los.
   _O que quer dizer? – Miguel pressentiu algo na voz dela que lhe causou arrepios.
   _Eu estou grávida! – e antes que ele pudesse dizer alguma coisa concluiu:
   _E não perca teu tempo tentando convencer-me a tirá-lo como das outras vezes. Isso eu não farei. Tens duas alternativas: ou cumpre tua palavra e larga a batina para ficar comigo, criar nosso filho como uma família bem longe daqui. Ou serei obrigada a contar a todos quem é o pai dessa criança quando meu ventre começar a crescer. Há de perder tudo. Ser condenado pela Igreja, ser apedrejado pelos pobres diabos por quem tens tanto apreço. Já pensaste o que fará tua pupila quando ela souber que o santo homem a quem ela tanto admira deitava-se com sua madrasta debaixo do teto de seu pai? Para onde correrá? Para debaixo das asas de seu protetor, o Rei Carlos? Já me disseste que ele jamais acobertaria sua desonra. 
   E já deixando o aposento completou:
   _Mas esse não é problema meu. Direi a todos que se aproveitaste da hospitalidade de meu finado marido. Atacou-me sabendo que, doente, D. Alonso não poderia defender-me a honra. E que foi essa pérfida traição o que apressou-lhe a morte.
   _Não podes estar falando sério. Isso desgraçaria tua vida!
   Ela se virou, encarou-o com os olhos chispando de raiva antes de dizer:
   _Não me preocupo com meu destino se o seu também for a desgraça. Pagarás caro por mentir e depois abandonar-me! Acaso pensas que não percebo como olhas para a freirinha? Antes que destruas a vida dela como fez com a minha, acabarei contigo primeiro. Mas como disse, a escolha é tua. Tens até o fim da semana para dar-me uma resposta. Logo não poderei mais esconder essa gravidez.
    Assim que a porta bateu atrás da mulher, D. Miguel deixou-se cair na cama, totalmente atônito. Ele estava perdido.

                                              # # # Continua na próxima semana # # #

1 comentários:

Não seguir seus desejos e caminhos, acabam provocando consequencias futuras e que agora batem a porta de D. Miguel.
Continuas a se aperfeiçoar em seus contos, pena não dar continuidade semanal como prometido!

 

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