Contos da Andaluzia
Fé e Pecado
Fé e Pecado
- Parte I -
A velha carroça rangia ao enfrentar a estrada que levava a propriedade de San José, embalando os pensamentos de D. Miguel. O sol escaldante do verão na Andaluzia incidia sobre o hábito preto da Ordem dos Beneditinos, aumentando o desconforto.
Ele precisava cumprir com seus deveres sacerdotais, rezando a missa dominical na pequena capela erguida em homenagem a Nuestra Señora de Los Reys, ouvir seu rebanho em confissão e socorrer os doentes.
Seguia com os olhos perdidos no imenso vinhedo que se estendia por todos os lados.
Ainda sentia dores nas costas a lembrá-lo que deveria ficar longe de Constanza. Passara os últimos dias jejuando e se penitenciando contra o grave pecado que cometera contra Deus e seus votos.
Estava cheio de fé que esse dia era a grande oportunidade para provar que poderia vencer a carne, o desejo de ter aquela bela e jovem mulher em seus braços.
Tinha consciência de que não estava só cavando sua entrada no inferno, mas arrastando junto com ele a mulher que amava, fazendo-a cometer adultério. Prometera a ela largar a batina e lhe dar uma vida nova longe dali, onde poderiam ficar juntos. Mas sabia que isso nunca aconteceria. Ele era um padre, amava o sacerdócio, cuidar dos seus doentes e menos afortunados, ensinar o evangelho aos pequeninos e levar paz e conforto as almas sofredoras. Paz essa que ele mesmo nunca teve.
Estava com quarenta e três anos e, embora fosse clara sua inclinação para a vida clerical, D. Miguel de Navarra era um homem ardente, sedutor e voluntarioso, não conseguindo escapar das armadilhas do desejo.
A velha carroça rangia ao enfrentar a estrada que levava a propriedade de San José, embalando os pensamentos de D. Miguel. O sol escaldante do verão na Andaluzia incidia sobre o hábito preto da Ordem dos Beneditinos, aumentando o desconforto.
Ele precisava cumprir com seus deveres sacerdotais, rezando a missa dominical na pequena capela erguida em homenagem a Nuestra Señora de Los Reys, ouvir seu rebanho em confissão e socorrer os doentes.
Seguia com os olhos perdidos no imenso vinhedo que se estendia por todos os lados.
Ainda sentia dores nas costas a lembrá-lo que deveria ficar longe de Constanza. Passara os últimos dias jejuando e se penitenciando contra o grave pecado que cometera contra Deus e seus votos.
Estava cheio de fé que esse dia era a grande oportunidade para provar que poderia vencer a carne, o desejo de ter aquela bela e jovem mulher em seus braços.
Tinha consciência de que não estava só cavando sua entrada no inferno, mas arrastando junto com ele a mulher que amava, fazendo-a cometer adultério. Prometera a ela largar a batina e lhe dar uma vida nova longe dali, onde poderiam ficar juntos. Mas sabia que isso nunca aconteceria. Ele era um padre, amava o sacerdócio, cuidar dos seus doentes e menos afortunados, ensinar o evangelho aos pequeninos e levar paz e conforto as almas sofredoras. Paz essa que ele mesmo nunca teve.
Estava com quarenta e três anos e, embora fosse clara sua inclinação para a vida clerical, D. Miguel de Navarra era um homem ardente, sedutor e voluntarioso, não conseguindo escapar das armadilhas do desejo.
Nascera em Pamplona. Sua mãe, umas das aias de Branca I de Navarra, morreu no parto, enquanto retornavam da Sicília. De pai desconhecido, o pobre órfão caiu nas graças da rainha que acabava de perder seu filho Martin, de apenas 2 anos de idade. Quando Branca teve seu primeiro filho de João, Duque de Peñafiel, seu segundo marido, que viria a ser o rei consorte de Navarra, Miguel foi mandado para o mosteiro Beneditino de San Millán de Yuso. De onde só saiu quando completou 18 anos, chamado pela própria rainha que acabava de perder sua segunda filha, Joana.
Acabou sendo um dos preceptores de Carlos, o Príncipe de Viana, filho mais velho de Branca e João.
No Palácio Real de Olite, Miguel dividia-se entre a educação do príncipe e a fugir do assédio das damas. Ele era muito jovem e nada conhecia da vida fora dos muros do mosteiro. Rapidamente se deixou enredar pelos sedutores apelos das mulheres da corte.
“Belo Apolo” diziam elas. De pele morena ressaltando seus olhos claros, fartos cabelos escuros e um corpo másculo, de boa estatura, que nem o escapulário negro conseguia disfarçar.
Carlos logo se afeiçoou a Miguel tendo-o como um irmão mais velho. Fazia questão que todos na corte o tratassem por Miguel de Navarra, apiedado pelo fato de seu tutor, por ser um bastardo, não ter um sobrenome para ostentar. Com ele, o príncipe aprendeu muitas coisas além de latim e religião, principalmente o gosto pelas artes, em especial as sacras que tanto emocionavam Miguel, fazendo vibrar as fibras mais sensíveis de sua alma.
Inés de Cléves, filha do Duque Adolfo I de Cléves, e sobrinha de Filipe III, da Borgonha, foi aquela que, como a imagem da Virgem, encheu seu coração de júbilo. Miguel tinha então 23 anos e apesar de já conhecer o prazer nos braços de uma mulher, se apaixonara pela primeira vez.
Estava decidido a não seguir mais a vida monástica, afinal, ainda não tinha feito seus votos quando retornara à Pamplona. Ele queria se casar e ter filhos.
Porém, a rainha não se agradou de seus planos. Apesar de ser tratado como um membro da família real, Miguel era um pária e Inês uma nobre. Branca então o mandou de volta ao mosteiro afim que fizesse seus votos alegando que esse era o último pedido de sua aia, que ao colocá-lo em seus braços, rogou que ela tivesse piedade daquela criança indefesa e o entregasse a Deus para que assim ele fosse livre do pecado de sua concepção.
Pouco tempo Miguel passou em San Millán de Yuso. Branca I tinha planos mais auspiciosos para ele: transformá-lo nos olhos e ouvidos de seu país junto ao Papa Nicolau V. Miguel foi para Roma sob os cuidados do Cardeal de Navarra. Lá Soube que Inés se casara com Carlos, com as bênçãos da rainha e decidiu esquecê-la.
Já ordenado sacerdote ele voltou para a Espanha depois se envolver vários em escândalos amorosos, abafados por seu preceptor. Descontente com o comportamento de Miguel, a rainha simplesmente passou a ignorá-lo, deixando a sua própria sorte.
Seguindo o lema da Ordem dos Beneditinos, “Ora ET Labora”, enlevado pelo desejo de espalhar a caridade, levando assistência aos necessitados e instrução a fidalguia, percorreu toda a Espanha, sem se fixar em nenhum lugar por muito tempo, pois, onde parava, sempre encontrava uma bela mulher a tirar-lhe a paz a incitá-lo ao pecado. Sua carne era fraca, ele sabia, e sempre que cedia aos desejos se castigava, fustigando um chicote de nove tiras de couro em suas costas enquanto rezava o rosário, trancado em seu claustro antes de se deitar.
Prazer da carne, dor da carne; esse era o modo que Miguel tinha para se penitenciar por pecar contra a castidade que exigiam seus votos.
Chegara a Andaluzia há dois anos atrás, dividindo-se em atender as várias propriedade do local. Porém, estava sempre em San José. Não só pelo fato de que D. Alonso, dono daquelas terras, estava doente, exigindo dele mais atenção, mas, sobretudo, porque se apaixonara terrivelmente por Constanza, a segunda esposa de D. Alonso.
E essa situação martirizava ainda mais a consciência do padre. Ele não podia deixar Andaluzia agora, afeiçoara-se ao velho enfermo. Tinha consciência de que, em breve, teria que oferecer conforto e o sacramento da Extrema Unção àquela alma na hora derradeira. Entretanto, Constanza ficaria viúva, livre, e iria exigir que cumprisse sua promessa de fugirem para viverem juntos. Ele tinha a certeza de que ela o amava, estaria disposta a enfrentar todos por causa dele. Mas ele não estava tão certo de que abandonar o hábito lhe traria paz. Tinha feitos outros votos, outras promessas além do celibato, e essas, ele fazia questão de cumprir.
Os pensamentos de D. Miguel fervilhavam mais do que o sol em sua cabeça. Ele precisava se afastar de San José. Ir para outro lugar. Dedicar-se a oração e ao trabalho junto ao povo de Deus. Mas não tinha forças para abrir mão de Constanza. Por mais que se penitenciasse, ele sempre acabava cedendo aos apelos daquela mulher vaidosa, de temperamento forte que, frente a qualquer contrariedade, ficava extremamente vingativa. Ela tinha consciência do quanto era bela e sedutora e não tinha nenhum pudor ao usar isso para conseguir tudo o que queria. E nesses dois últimos anos de tórrido romance, a única coisa que a interessava era fazer D. Miguel abandonar a Igreja e fugir com ela.
Logo que apeou da carroça em frente ao grande casario da vila, um rapazote veio lhe beijar as mãos e levar o velho cavalo para a cocheira.
Subiu as escadarias e foi abordado por uma serva.
_Sua benção, D. Miguel – a mulher de meia idade se curvou humilde, mas jubilosa ao ver o santo homem que cuidava não só da alma, mas do corpo de todos ali naquelas paragens.
_Deus te abençoe, Joana! Como vai o pequeno Pablo, seu neto?
_Graças a Deus e ao senhor não teve mais febre. Ele está tão esperto! – derreteu-se a avó – ontem mesmo ensaiou os primeiros passinhos.
_Que Deus seja louvado!
_O senhor se assente que eu venho logo trazer um refresco. Vou avisar Dona Constanza de que já chegou.
_Obrigado, Joana. Estou mesmo precisando tirar o pó da garganta.
O padre se sentou na poltrona onde costumava ficar palestrando com D. Alonso nos tempos que ele ainda deixava o quarto e arriscava alguns passos pela casa e ficou admirando o óleo que retratava Constanza, presente que ela exigira do marido logo após o casamento para colocar na parede no lugar do retrato da antiga dona da propriedade. Ela se casara muito jovem com um homem trinta e cinco anos mais velho. Viúvo e sem um herdeiro varão, D. Alonso depositou nesse casamento, e aos pés de Constanza, todos os seus sonhos. Ele precisava de um filho e a caprichosa moça, alguém para atender-lhe em todos os seus caprichos. E o primeiro deles, antes mesmo de se casar, foi que o noivo mandasse sua única filha, de seu primeiro casamento, para um convento. Ela não queria outra mulher em seus domínios, interferindo e dividindo seu pequeno reino.
Leonor, a filha de D. Alonso, tinha então 11 anos. Ela nunca mais voltou para a casa do pai. Mas em todas as cartas que mandava, dizia-se muito feliz, certa de que seguiria a vida religiosa, bendizendo o pai por lhe permitir servir a Deus.
Miguel, admirando o retrato na parede, chegou a conclusão de que Constanza não mudara nada nesses 13 anos de casada. O mesmo porte, o mesmo olhar apaixonado, arrebatador, quase febril que o artista soube tão bem imortalizar.
_A sua benção, D. Miguel – a voz rouca e sensual de Constanza fez seu corpo fremir.
_Deus a abençoe, minha filha – levantou-se para cumprimentá-la formalmente.
Ofereceu a mão para que ela a beijasse, e não deixou de perceber o leve sorriso que ela tinha no canto da boca denotando seus não tão puros pensamentos. Seus olhos eram puro ardor que não desgrudavam dos dele. Há muitos dias não se viam e a saudade estava estampada no rosto dela.
O padre aceitou o refresco que a criada lhe trouxe e sentou-se novamente tentando disfarçar a dor que sentiu assim que suas costas encostaram no espaldar da poltrona. Bendita dor que o tirou daquele joguinho de sedução de Constanza a lhe mandar olhares lascivos enquanto mordiscava os lábios a encará-lo.
_Como está D. Alonso? – perguntou fingindo não perceber as caras e bocas que ela fazia.
_Piora a cada dia – respondeu dando os ombros – ele não pára de falar daquela filha freirinha que ele tem.
E aproveitando-se que a criada deixava a sala, pulou para cima de Miguel, sentando-se no colo dele e alisando-lhes os cabelos.
_Precisas fazer alguma coisa, Miguel. Eu sei que Alonso vai lhe pedir que escreva para o convento afim de que a Abadessa mande a freirinha de volta. O velho enlouqueceu! Quer casá-la. Insiste que não pode morrer sem deixar um herdeiro para essas terras.
E achegando-se ainda mais para cima do beneditino, sussurrou:
_Se ao menos eu não tivesse tirado nosso filho! Naquela época Alonso não desconfiaria que não era dele.
_Enlouqueceste mulher?! – o padre tapou sua boca com as mãos – esse é um assunto morto e enterrado.
_Morta e enterrada sinto-me aqui nessa casa! Presa a um marido decrépito, que não pode cumprir com seus deveres – a mulher se levantou furiosa – e para quê? Se D. Alonso realmente casar a freirinha e ela lhe der um neto, um sucessor, todos esses anos tendo de suportar a presença desse velho nojento, terá sido em vão. Perderei tudo. Ele deixará toda sua fortuna, suas terras, tudo, para esse bastardinho. O que será de mim, Miguel? Até quando terei que esperar que tomes uma atitude? Que cumpra tuas promessas e me tire desse cativeiro? Por ti eu largo tudo. Não me interessam os bens de D. Alonso se for para ficar ao teu lado.
Constanza lançou-lhe um olhar desesperado.
_Vamos fugir, meu amor. Iremos embora para o mais longe possível daqui. Poderemos atravessar o Mediterrâneo até o Marrocos. Lá poderás se livrar do peso desse hábito. Ficarás fora do alcance das mãos vingativas da Santa Sé.
_Conversaremos mais tarde, Constanza – respondeu fugindo aos carinhos dela – preciso ir ver meus doentes e ouvir os colonos em confissão antes da missa das seis.
_Vou esperá-lo em meu quarto essa noite – disse ao vê-lo sair – dispensarei a criada.
_Não me espere – respondeu sem se virar – depois da missa pretendo partir imediatamente. Quero estar bem cedo amanhã nas terras de D. Fernando. Lá há muitos pagãozinhos que precisam ser batizados.
_O esperarei mesmo assim – disse certa de que ele não se furtaria a mais um encontro amoroso. Ele nunca conseguia resistir a ela, mesmo jurando por todos os santos que não mais a veria – e não te esqueças, santo padre, que uma hora antes da missa espero o senhor na capela para me confessar. Tenho muitos pecados a corroer-me a alma.
Sua última frase foi quase um deboche. Ela sempre usava suas horas de confissão para levar o pobre homem à loucura, contando, detalhadamente, todos os seus fetiches e desejos. Até que Miguel não mais resistisse e a tomasse nos braços. Muitas vezes o pequeno confessionário foi palco das mais tórridas trocas de carícias. Constanza não era uma mulher que temesse o fogo do inferno. A religião para ela era somente a maneira que alguns homens espertos encontraram para enriquecer em nome de Deus. Desprezava o clero, irritava-se em ter que viver de acordo com os preceitos de Roma. Conhecer Miguel somente aumentou sua aversão pela Igreja. Miguel era dela. Era aos pés dela que ele deveria se ajoelhar. Era para ela que ele deveria fazer votos de fidelidade. E nem que Roma viesse a consentir no casamento de seus ordenados, ela não aceitaria. Nada de ofícios, orações, jejuns, pobre e doentes a sua volta. Miguel só teria um compromisso na vida: fazê-la feliz.
O beneditino concentrou-se em seus afazeres e por algumas horas esqueceu-se das exigências de sua amante. Aliviar o sofrimento de seu rebanho lhe trazia satisfação, um acalento a sua alma tão conturbada. Era no sorriso dos pequeninos que o rodeavam, no ato de contrição sincero daquela gente humilde que queria alcançar o Reino dos Céus, que Miguel sentia-se mais próximo de Deus. Cada palavra de conforto e consolo que ele proferia aos necessitados de toda sorte, era como se falasse para si mesmo: tu ainda tens salvação, Miguel. Esse é o caminho para chegar até o Cristo. “Bem Aventurado os que sofrem, pois eles herdarão o Reino dos Céus”.
E Miguel sofria. Sofria por amar, por desejar algo que não lhe pertencia. Sofria por sucumbir a esse desejo e pecar contra Deus. As dores que infligia a sua carne, penitenciando-se, não era o suficiente para amenizar a dor de sua alma. Ele sabia-se pecador, e fraco demais para vencer a si mesmo.
“Que Deus tenha misericórdia de minha alma”, era o que sempre rogava, cada vez que sucumbia ao desejo.
Quando finalmente acabou de percorrer as casas onde deveria visitar seus doentes, o sol já estava se pondo. Só então se deu conta de que não havia se alimentado. Mas não sentia fome. Alimentara sua alma, fortalecera seu espírito e sentia-se pronto para consagrar a hóstia no sacramento da Eucaristia.
Constanza certamente havia se cansado de esperá-lo para a confissão. Mas ele conhecia muito bem cada um dos pecados dela. E de nada adiantaria absorvê-la, aplicar-lhe uma penitência de milhões de Pai-Nosso e Ave-Maria se ela insistisse em atormentá-lo, continuar vivendo em pecado e fazendo-o pecar também.
Durante a missa, a senhora da propriedade não se cansou de lançar olhares cheios de ódio ao padre, que inspirado, passou todo o sermão falando sobre pecado, especialmente o da carne. Era uma tentativa de convencê-la e, principalmente, de se convencer, que tudo estava acabado entre os dois.
Após o ofício, D. Miguel foi pessoalmente levar a comunhão a D. Alonso. Mas o enfermo pediu para se confessar, então dispensou o coroinha que o acompanhava.
_Perdão padre, pois eu pequei contra Deus – disse D. Alonso com a voz tão fraca quanto seu corpo doente.
_Fale, meu filho. O que o atormenta?
_Tantos erros que cometi em minha vida – o velho suspirou – perdoa-me padre e ajude-me a repará-los.
_Deus sempre perdoa aqueles que se arrependem. Mas o que posso fazer pelo senhor?
_Minha filha Leonor, D. Miguel. Pelo amor da Virgem, atenda o pedido de um velho prestes a deixar esse mundo. Vá a Sevilla ter com a Superiora do Convento de Santa Inés e traga minha Leonor para casa. Não posso morrer sem ter um herdeiro!
_Mas D. Alonso – interveio ternamente diante do estado febril do velho – sua filha é uma serva de Cristo. Foi ao Senhor que ela consagrou sua vida. Não poderá mais se casar.
Reunindo todas as suas débis forças, D. Alonso começou a falar sôfrego:
_Durante todos esses anos troquei correspondências com Monja Guilerma, e com o consentimento dela, Leonor nunca realizou seus votos. A vida religiosa não foi o que sonhei para minha Nora. Sempre tive esperanças de trazê-la de volta. Imaginava que se Constanza me desse um herdeiro, não se sentiria mais ameaçada com a presença de minha filha nessa casa. Apaixonei-me loucamente quando vi minha esposa pela primeira vez, fiz de tudo para agradá-la. Cometi o maior pecado que se pode cometer contra uma filha, tirando-a de casa com tão pouca idade. Hoje me arrependo. Mas Nora ainda é jovem, ainda pode se casar e dar-me um herdeiro. Preciso de minha filha ao meu lado. Aqui ela também poderá servir a Deus. Tenho medo de morrer antes de vê-la mais uma vez. Antes de pedir-lhe perdão por tê-la afastado de mim. Digas que vais a Sevilla e trará Nora para casa. Prometa-me D. Miguel!
O padre olhou para o rosto enrugado e abatido do homem banhado em lágrimas de puro arrependimento e não teve como se negar.
_Eu irei D. Alonso. Prometo-lhe em nome de todos os anjos do Senhor.
D. Alonso tocou a pequena sineta de prata que tinha ao alcance de suas mãos, no criado ao lado da cama, e imediatamente um homem entrou no aposento.
_Ramón, providencie tudo para que D. Miguel parta amanhã, logo cedo, para Sevilla. Apronte a carruagem e provisões para a viagem. Acompanhe o santo padre para que nada aconteça a ele e a minha filha até que regressem.
O alto e corpulento homem acatou as ordens e saiu em seguida. E antes que o padre também se despedisse, logo após lhe dar a comunhão, o velho pediu:
_Só mais uma coisa D. Miguel. Estando em Sevilla, peço-te que vá ter com meu velho amigo José Ruello Diáz, Creio que ele, com toda a influência que possui junto ao rei, possa arranjar um vantajoso casamento para minha filha. E não se esqueça também de mencionar Constanza. Não quero deixá-la só neste mundo. Ela é jovem e bela. Não será difícil encontrar um rico nobre que se interesse por minha viúva. Fui egoísta mantendo-a ao meu lado por todos esses anos. Constanza merece um esposo a altura dela, que possa dar-lhe tudo que ela merece. Creio que assim posso morrer em paz, sabendo que as duas mulheres que mais amei na vida estarão amparadas e felizes.
Um nó se formou na garganta de Miguel ao ouvir o pedido de D. Alonso. Em sua mente, arrumar um novo esposo para Constanza seria a melhor solução para todos, mas seu coração, ao contrário, pulsava mais e mais forte ao imaginá-la nos braços de outro homem.
Deixou o quarto secando a testa marejada de suor. Teve que se amparar na parede para não cair. Uma vertigem lhe acometeu escurecendo a visão. Ódio. Sentia profundo ódio de tudo. De D. Alonso, de Constanza e de si mesmo.
Cambaleante foi se arrastando até o quarto onde, sabia, ocuparia naquela noite. Precisava se deitar. Acalmar seu coração e sua mente que era invadida pela lembrança das ardentes noites de amor que tivera com ela. “Maldita! Maldita!”. Repetia para si mesmo tentando afastar as imagens que faziam pulsar todo seu corpo já fragilizado pelo mal súbito. Respirou fundo e engoliu seco quando alcançou a porta do quarto. Deteve-se por mais alguns instantes ao ouvir o farfalhar de saias e anáguas vindo em sua direção.
_Miguel! O que houve, meu amor? – Constanza correu para ampará-lo.
_Estais fraco e febril – ela constatou – também não voltaste para o almoço. Certamente esses pobres diabos não lhe ofereceram uma decente refeição.
Ela o ajudou a entrar no quarto e a se sentar na enorme cama enquanto falava sem parar.
_Não podes continuar a jejuar e se penitenciar deste modo. Ninguém vive só de oração.
E antes que ele pudesse dizer alguma coisa, ainda amargurado com seus pensamentos mais íntimos, ela chamou pela criada, pedindo a ela que providenciasse uma sopa para o padre que não se sentia bem. Descalçou-lhe as sandálias, fazendo-o se deitar, e secava seu rosto empapado de suor com uma toalha de linho úmida.
Recostado na cama e em silêncio, D. Miguel tomou a sopa que a própria Constanza lhe oferecia as colheradas.
_Estou muito magoada contigo, Miguel. Relegaste-me. Não vieste me ver à tarde. Mas dói meu coração vê-lo assim tão fraco. Sonho com o dia em que poderei cuidar de ti como mereces. Sofro ao sabê-lo por essas estradas, dividindo o pouco que possuis com esses miseráveis. Privado de toda sorte de conforto.
Ela afagou-lhe os cabelos ainda molhados de suor.
_Amo-te tanto! Sei que Ramón prepara sua viagem para Sevilha. Alonso o convenceu mesmo a buscar a freirinha, não foi? Mas tudo pode ser diferente, meu amor – ela se achegou para mais perto de seu rosto.
_Fujamos nós. Tenho muitas jóias. Elas nos proverão por algum tempo longe daqui. Talvez pudéssemos procurar por Carlos de Navarra, em Pamplona. O rei certamente nos acolheria. Disseste-me que ele sempre o tratou como a um irmão.
_Não sabes o que dizes mulher – o padre finalmente a interrompeu, afastado-a – Carlos jamais aceitaria que eu quebrasse meus votos. E eu não o envergonharia com a minha desonra.
_É desonra me amar, Miguel? É isso o que pensas? – Constanza deixou a cama visivelmente exaltada – acaso mataste teu coração quando fizestes teus votos? Deixas-te de ser homem?
_Meu coração deveria estar cheio de amor. Mas amor por Cristo. Não cheio de pecado e podridão!
_Culpas-me por tua desgraça?
_Não. Sou um desgraçado desde o dia que nasci. Vago desgraçadamente procurando pela paz de espírito que um dia perdi, em vão. O conforto e o carinho que meu corpo encontra em seus braços dilaceram-me a alma. Sou duas vezes pecador, porque deveria levar os homens para o caminho da salvação e insisto em andar de encontro ao inferno. Sou o único culpado por nossa desdita. Mas isso terá um fim. Vou a Sevilla com a incumbência de lhe arranjar um ditoso casamento assim que enviuvares, a pedido de D. Alonso. Terás finalmente um homem que a mereça e poderá lhe dar o amor e a segurança que necessitas.
_Não podes estar falando a verdade – ela o encarou arregalando os olhos, indignada com a revelação e se jogou aos pés da cama chorando em desespero:
_É a ti que amo! É contigo que quero passar o resto de meus dias. Não terás coragem de me jogar nos braços de outro homem. Terás Miguel? Prometeu-me largar a batina. Casar-te comigo. Não podes simplesmente se livrar de mim agora me prendendo a outro casamento. Não posso acreditar que mentias para mim todo esse tempo.
A jovem senhora deixou-se cair sobre a cama e chorava convulsivamente. Todos os seus sonhos de ventura ao lado de Miguel estavam se esvaindo. Era triste constatar que ele havia mentido e se aproveitado de seu amor todos esses anos. O silêncio dele era mais cortante que o fio de uma espada, retalhando-lhe o coração ao vê-lo impassível diante da dor e do sofrimento que sentia.
Depois de algum tempo, já refeita, ela se levantou para deixar o quarto readquirindo o porte altivo que sempre possuiu. De seus olhos saiam faíscas quando ela o encarou:
_Eu o amei Miguel. Mas agora aprenderei a odiá-lo. Há de se arrepender amargamente por tudo o que me fez sofrer. Há de desejar o inferno só para escapar de minha ira!
_Constanza! – Miguel assustou-se com o rancor e o ódio que ela imprimiu em suas palavras.
_Senhora Constanza de Averne Y Cortéz para vós, Dom Miguel – e bateu a porta atrás de si.
Ele deixou-se cair na cama, exausto. Não era assim que ele desejava acabar. Ela precisava perdoá-lo. Como seu confessor era seu dever ensinar-lhe o perdão, mostrar que os caminhos de Deus sempre nos conduzem com segurança para a felicidade plena. O que pode parecer o fim se descortinará mais adiante como obra da Providência Divina. Ele mesmo se esforçava para crer nisso. A verdade era que estava completamente desatinado com a idéia de vê-la nos braços de outro homem. Um novo casamento, um novo marido. E se ela viesse a se apaixonar por esse outro? Ele poderia conviver com o ódio dela, mas não com outro amor em sua vida. Constanza era sua. Ela lhe pertencia. Era a ele que ela amava. E nada, nem ninguém, poderiam mudar isso.
Era madrugada e ainda não tinha conseguido conciliar o sono. A imagem de Constanza, bela e sedutora, nos braços de outro homem, o atormentava. Ele precisava fazer alguma coisa antes que enlouquecesse. Não conseguia se concentrar em suas orações. Seu corpo ardia de desejo justificando-se que seria só mais uma vez. A derradeira antes que seus caminhos se separassem. E se penitenciaria pelo resto de seus dias por mais um deslize. Aliás, já estava mesmo fadado ao fogo do inferno. Deixou o quarto em direção ao fim do corredor. Forçou a fechadura e ela não estava trancada. Deliciou-se ao ver os contornos do corpo de mulher sobre a cama, através da pálida claridade da lua que entrava pelas janelas abertas, filtrada pelas finas cortinas.
Enfiou-se sob as cobertas procurando pelo calor do corpo dela. Beijou-lhe a nuca e a ouviu suspirar. Sussurrou em seu ouvido: és minha e para sempre será. Desejo-lhe mais que a vida.
Constanza se virou e ele pode ver que ela sorria antes de se perderem em longos beijos cheios de desejo e volúpia.
# # # continua na próxima semana # # #






1 comentários:
Era de dominios, onde quem não pode de forma financeira, ou não ama de verdade, aproveita-se da carência humana para usufruir e dominar os desprovidos de sentimentos.
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